Aproximando a Escrita da Fala do Povo

Rosaura Eichenberg, a tradutora brasileira de As aventuras de Huckleberry Finn é especialmente feliz e eficaz ao usar formas populares correspondentes em português

23/11/2017 06:49 Por Eron Duarte Fagundes
Aproximando a Escrita da Fala do Povo

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Bem antes das aventuras modernistas do século XX, o americano Mark Twain fez um notável esforço de aproximar o texto literário da maneira popular de falar; sem todavia incorrer em pieguices e descaracterizações linguísticas demasiado fáceis. As aventuras de Huckleberry Finn (1885) é um exemplar agudo da forma como Twain bebia nas fontes populares de uso da língua inglesa nas cercanias do Mississipi para estabelecer sua estética narrativa de onde, sabe-se agora, provém tanto o tom escorreito de Ernest Hemingway quanto a sofisticação moral de Francis Scott Fitzgerald. Só o despojamento e a objetividade da sociedade americana poderiam conduzir Twain por essas formas, ou permitir mesmo a existência de um Twain; no caso brasileiro, as exposições linguísticas de um paulista como Mário de Andrade se dão diferentemente.

Rosaura Eichenberg, a tradutora brasileira de As aventuras de Huckleberry Finn é especialmente feliz e eficaz ao usar formas populares correspondentes em português, especialmente em haurir nas origens africanas de nossa linguagem falada, com cortes de esses e erres e um ritmo meio “florestal” de diálogos; as dissonâncias entre as falas de Huck, o narrador bruto e inculto, e o negro Jim, que desalinha completamente a morfologia e a sintaxe da língua, são o que há de mais antológico na literatura americana.

De uma certa maneira, o romance brasileiro Os tambores de São Luís (1975), do maranhense Josué Montello, também tentou capturar, naquelas frases “entre travessões”, as conversas das senzalas; mas Twain vai mais adiante, ao expor quase experimentalmente certos contrastes de linguagem, como se vê:

“—Eu tava escutano toda a conversa e entrei no rio e tava indo pra praia se eles fosse subi na balsa. Dispois eu ia manda pra balsa de novo quando eles fosse embora. Mas por Deus, como você engano eles, Huck! Foi a manha mais esperta! Vô te dizê, meu fio, acho que ocê salvo o veio Jim... o veio Jim num vai esquecê ocê por isso, meu fio.

Então a gente falou sobre o dinheiro. Era um aumento muito bom, vinte dólares pra cada um. Jim disse que a gente podia comprar uma passagem de convés num barco a vapor e que o dinheiro ia dar pra gente ir até onde queria nos estados livres. Ele disse que mais trinta quilômetros não era assim tão longe pra balsa percorrer, mas ele queria que a gente já tivesse lá.”

Nota-se a ruptura entre duas falas populares, a do preto Jim e a do narrador Huck, exemplarmente traduzida pela brasileira Rosaura. Em todo o livro este vaivém se alterca criativamente. E a delícia do contar de Twain se aprofunda à medida que o texto avança.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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