RESENHA CRÍTICA: Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)

Confira na resenha de João Felipe Marques

25/04/2018 16:52 Por João Felipe Marques
RESENHA CRÍTICA: Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)

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Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)

Antes de mais nada, o contexto. Argumenta-se que todo e qualquer filme é mero produto de seu contexto, e deve ser analisado como tal, mas este é um caso diferente. A Marvel Studios vem construindo suas franquias com uma abordagem inédita no cinema, onde se estabeleceu um universo propriamente compartilhado, com referências e interligações que, por mais singelas que possam ter sido, contribuíram para a criação de uma única propriedade. Foram 10 anos de produção, 18 filmes, uma inestimável legião de fãs que percorre todos os quadrantes, e tudo isso torna "Vingadores: Guerra Infinita", um filme único.

"Vingadores: Guerra Infinita" é a prometida "conclusão" do Universo Marvel nos cinemas, com diversos personagens compartilhando a tela, pela primeira vez, para combater uma ameaça de escalas megalomaníacas. Os riscos, as consequências e as recompensas foram elevados ao máximo para, finalmente, proporcionar um sentimento de completude para o espectador que acompanhou o crescimento destas franquias com fervor. Era com certeza uma aposta arriscada, cujas expectativas geradas dificilmente seriam satisfeitas, afinal... é apenas um filme.

O quê mais me fascina nesta experiência de acompanhar este verdadeiro evento da cultura pop, é o fato de que "Vingadores: Guerra Infinita" trará uma discussão que ainda deve perdurar muito dentro do cenário cinematográfico. Digo isso, pois o primeiro instinto após assistir ao filme foi dizer: "Isto não é um filme normal".

Há diversas maneiras por onde se poderia analisar esta culminação de diversas franquias em uma única obra. Em uma perspectiva mais conservadora, enxergo "Vingadores: Guerra Infinita", na verdade, como um episódio de série de televisão. São diversos personagens em tela e diversas narrativas que já estão sendo acompanhadas há anos, pouco a pouco. Como se fosse um típico "season finale" (último episódio de uma temporada de televisão), o filme procura agregar todos estes fios narrativos em uma grande e recompensadora conclusão. Se na TV, isso já é algo dificilmente conquistado à primeira vista, no cinema então, sempre foi visto como um movimento arriscado demais para qualquer grande produção.

Isso significa que "Vingadores: Guerra Infinita", na verdade, ignora diversos aspectos que constituem uma obra cinematográfica apropriada. Não se importa com apresentações ou contextualizações, estrutura narrativa e construção de personagem convencionais, ou mesmo recompensas emocionais universalmente eficientes. É um emaranhado de tudo que funcionou durante a trajetória do Universo Marvel e, ciente desta eficácia comprovada, joga pelas suas próprias regras.

Sendo assim, por uma perspectiva menos tradicional e mais contemporânea, "Vingadores: Guerra Infinita" é a prova de que a Marvel Studios faz parte de uma revolução na maneira como estes grandes blockbusters devem ser consumidos pelo público nos próximos tempos, sempre em busca de um investimento emocional alongado, assim como as grandes séries atuais da televisão vem conquistando. Não importa, por este lado, que o filme efetivamente não tenha final. A maneira confiante com que os Irmãos Russo e Kevin Feige decidiram encerrar este longa só comprova o quanto a Marvel está caminhando fora dos parâmetros comuns pelos quais obras cinematográficas são julgadas pela crítica especializada.

O real parâmetro para esta ambiciosa produção está em seu público apaixonado, imediatista e que busca o prazer na sensação de pertencimento que estes filmes proporcionam. Se todo filme deve ser julgado por sua proposta, "Vingadores: Guerra Infinita" deve cumprir seus objetivos mais imediatos e ser considerado um sucesso. No entanto, ao invés de sacar os lucros desta enorme aposta, o filme resolve dobrá-la, e deixar a verdadeira conclusão, a verdadeira recompensa que tanto o público quanto a crítica buscam, para o ano que vem (com VIngadores 4).

Há de se notar um mérito particular da Marvel Studios, evidenciado em "VIngadores: Guerra Infinita": Não há nenhum estranhamento ou falta de naturalidade na maneira como estas franquias e personagens acabam se relacionando. Seja na fotografia, na trilha sonora ou na própria narrativa, a sensação é de que tudo isso sempre fez parte do mesmo universo.

Essencialmente, "VIngadores: Guerra Infinita" é parte de um esquema ainda maior. Suas principais ambições só poderão ser conclusivamente criticadas após o resultado propriamente dito. Por hora, deve satisfazer a todos aqueles que já acompanham este universo e se sentem parte dele. Já para todos aqueles que não costumam se empolgar com filmes da Marvel Studios, não é aqui que serão convencidos de que estas franquias merecem sua atenção. Um cenário interessante está por vir, e devemos passar a nos perguntar se a maneira como encaramos os grandes blockbusters até hoje ainda é válida diante deste novo modelo, ou se a distância entre a crítica e o público atual só irá aumentar ainda mais.

 

João Felipe Marques - Crítico e Redator de cinema em www.plugou.com

 

 

Vingadores: Guerra Infinita
Por Adilson de Carvalho Santos

Leitores de quadrinhos foram conquistados pela continuidade no Universo Marvel quando a editora nasceu ainda na primeira metade da década de 60. A ideia de que eventos na história de um herói seriam conectados a eventos de outros ajudou a reforçar o tom dramático pretendido, além de prender a atenção do leitor. Reproduzir essa conexão em filmes sequenciados foi um desafio vencido pela editora, hoje um estúdio dos mais bem sucedidos, e agora prestes a entregar um dos mais aguardados filmes do gênero, que ajudou a consolidar na Hollywood moderna.

 São mais de 60 personagens em cena (entre principais, coadjuvantes e participações especiais) reunidos em uma batalha épica que servirá de um longo epílogo para sua atual fase. Inicialmente anunciado como um filme dividido em duas partes, ao menos até que os irmãos Anthony e Joe Russo anunciaram que Vingadores 3 e 4 seriam filmes independentes porem interligados. O desafio dos diretores é manter a coesão em um elenco diverso, geralmente repleto de egos inflados, e a coerência com um total de 18 filmes iniciado há dez anos quando Jon Favreau ressuscitou a carreira de Robert Downey Jr entregando-lhe o papel de Tony Stark em “Homem de Ferro” (Iron Man). Ao final deste, a presença de Samuel L. Jackson como Nick Fury na primeira de várias cenas pós créditos que se tornaram marca registrada dos filmes da Marvel. Como os personagens mais populares da editora já estavam sendo filmado por outros estúdios (Homem Aranha na Sony, X Men na Fox), a decisão foi aproveitar os outros heróis do catalogo e, na primeira fase, estes foram apresentados ao público, nos filmes “O Incrível Hulk” (lançado dois meses depois do filme de Jon Favreau), “Homem de Ferro 2”, já no ano seguinte, seguido de “Thor” e “Capitão América: O Primeiro Vingador” (ambos de 2011). Ao final deste, Steve Rogers desperta no mundo atual dando sinal verde para a reunião de todos em “Vingadores” (2012), hábilmente dirigidos por Joss Whedon. Mostrando que tudo era apenas uma pequena amostra do poder de fogo do estúdio, Whedon só encerra o filme depois que após os créditos surge a figura sinistra de Thanos como o arquiteto da batalha vencida pela equipe que ainda inclui em suas fileiras o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Hulk (Mark Ruffalo substituindo Edward Norton). Desde então o confronto com Thanos tem sido uma ameaça constante, mas velada a medida que o estúdio seguia deixando para trás uma série de adaptações mal sucedidas como o “Quarteto Fantastico” de Roger Corman ou o seriado do “Homem Aranha” nos anos 70, período cuja única exceção foi a série do “Incrível Hulk” com Bill Bixby e Lou Ferrigno.

 A Marvel passou a colecionar sucessos com personagens desconhecidos do grande público como “Guardiões da Galáxia” (2014) e “Homem Formiga” (2015), além de construir trilogias individuais com Homem de ferro, Thor e Capitão América. Grande triunfo foi o acordo entre a Sony e a Marvel que permitiu que o Homem Aranha, seu herói mais popular, fosse integrado ao assim chamado “Universo Cinemático Marvel”, a partir de “Capitão América: Guerra Civil” (2016), e em seguida “Homem Aranha Volta ao Lar” (2016). A venda da editora para a Disney só aumentou o poder de fogo dos heróis da editora, mesmo que desentendimentos com a Universal tenham impedido a realização de mais um filme solo do “Hulk”, fazendo do gigante verde uma espécie de coadjuvante de luxo de filmes como “Thor Ragnarok” (2017), sub aproveitando a trama da hq “Planeta Hulk” diluída no filme do Deus do Trovão.

 A cada filme a trama tecida apontava um plano maior com as joias do infinito, artefatos de grande poder que reunidos em uma manopla, podem destruir o universo. O Tessaract é a joia do espaço, a primeira mostrada em “Thor” e em seguida “Capitão América: O Primeiro Vingador”; A joia da mente é a que foi entregue a Loki no cetro usado pelo vilão asgardiano em “Vingadores” (2012) e que foi depois usada para criar o sintozóide Visão em “Vingadores: A Era de Ultron” (2015); o éter de “Thor: Mundo Sombrio” (2013) é a joia da realidade, introduzida pouco antes da joia do poder em “Guardiões da Galáxia” (2014); e a joia do tempo é o olho de Agamotto apresentado em “Dr.Estranho” (2016). Falta apenas uma, a joia da alma, cujo paradeiro certamente será revelado agora com a chegada de Thanos na Terra.

 A estratégia conduzida por Kevin Fiege, presidente da Marvel, foi aproveitar tramas oriundas dos quadrinhos, mesclando material clássico (a origem dos heróis, o robô Ultron, as joias do infinito) com histórias mais recentes (guerra civil, o soldado invernal) reunindo atores renomados para papeis periféricos (Anthony Hopkins, Michael Douglas, Cate Blanchett, Kurt Russell, Robert Redford) com talentos mais jovens (Chris Evans, Chris Hemsworth, Tom Holland, Benedict Cumberbatch, Chris Pratt) – incluindo claro a pedra fundamental do elenco, Robert Downey Jr cujo salário de 44 milhões coroa seu carisma diante do público que tem correspondido com devoção a cada sucesso do estúdio como o recente “Pantera Negra”, cuja bilheteria doméstica já desbancou até mesmo filmes como “Titanic” (1998). Tendo em mente o orçamento milionário do novo Vingadores, este estará à altura da ameaça representada pelo vilão criado por Jim Starlin em “Iron Man #55” de 1973. Thanos é um alienígena de Titã, lua de Saturno, apaixonado pela morte e, que emprega todas suas ações homicidas com o propósito de agradá-la. Os confrontos com os heróis se seguiram por vários anos até atingir seu ápice em 1977, publicado pela primeira vez no Brasil, no título da Editora Abril “Grandes Heróis Marvel #1”, seis anos depois. O apetite genocida do vilão voltou quando este ressuscita em 1990 com a missão de apagar metade dos seres vivos do universo, e aí surge a ideia da manopla com as joias do infinito reunida em “Thanos: Em Busca do Poder” alcançando os poderes de um Deus, levando à mini-série “Desafio Infinito” de 1991, onde estão todas as ideias exploradas no roteiro deste terceiro filme dos Vingadores. Nos quadrinhos, Thanos só foi derrotado porque inconscientemente ele assim desejou terminando por se aliar aos heróis contra uma ameaça em comum nas sequências “Guerra Infinita” (1992) cujo plot é totalmente diferente do filme homônimo, e “Cruzada Infinita” (1993). Anos mais tarde novas histórias dariam prosseguimento à jornada do vilão em sua devoção à própria morte, que aliás é o significado de seu nome vindo do grego Thánatos.

 O novo filme ainda aproveita outras fases dos heróis da editora como a nova identidade de Steve Rogers, que depois dos eventos de “Capitão América: Guerra Civil” deixou a barba crescer, largou o escudo e assumiu o codinome “Nômade”, refletindo o que herói fizera originalmente em 1974 nas páginas de “Captain America #180”. Nos quadrinhos Steve Rogers ainda abandonaria sua famosa identidade heróica outras vezes. Mortes são esperadas para esse capítulo, um desfecho arquitetado desde o começo dos estúdios Marvel, mudanças serão sentidas, mas certamente a chegada do filme representará um novo patamar para o filme de super herói, um que nem mesmo o criativo Stan Lee teria imaginado quando criou a primeira hq do “Quarteto Fantástico”, o título que iniciou a casa das maravilhas e que ainda demonstra fôlego para muito mais, que dez anos depois do primeiro Homem de Ferro é celebrado com toda a pompa e circunstância que faz dos Vingadores, os maiores heróis do mundo.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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