O Suntuoso Delírio

Um dos mais belos filmes da década, A criada estimula no espectador várias excitações do modo de olhar uma imagem cinematográfica

06/06/2018 22:51 Por Eron Duarte Fagundes
O Suntuoso Delírio

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Park Chan-Wook tem uma suntuosidade de filmar muito particular: suas encenações são pinturas barrocas feitas com agudo senso cinematográfico. Em A criada (Agassi; 2016), sua complexidade fílmica atinge uma proposta deslumbrante: cenários, cores e câmara tergiversam dentro das personagens. Nada é muito simples nem direto em se tratando do universo deste realizador sul-coreano: a duplicidade de intenções dos espíritos em cena e os transversais jogos de espelhos que se estabelecem entre as criaturas exigem do espectador uma constante sensibilidade epidérmica que transborda em queimações de imagens.

Mesmo quando foi visitar o cinema americano, em Segredos de sangue (2013), onde utilizava duas estrelas de Hollywood, Nicole Kidman e Mia Wasikows, Chan-Wook não deixou de fazer seu cinema personalíssimo, com seu método único para arrebatar e sensualizar (pela imagem) o observador. Em A criada ele estabelece uma ponte bastante obscura entre uma criada e uma rica herdeira; no meio delas o desejo por um homem ou a necessidade de casamento contracena com um delírio de sexualidade eminentemente feminino, o sexo no feminino, com cores tão quentes quanto aquelas de Azul é a cor mais quente (2013), do francês Abdelatif Kechiche. Os cenários parecem ser feitos para a nudez feminina em ação: um primeiro plano dum rosto de mulher penetrando na vagina de outra mulher é uma perturbação antológica.

Nas idas e vindas duma trama móvel, nos transtornos de formas e sensações que Cham-Wook propõe com seu barroquismo extremado, A criada repõe (ou reitera) na montagem certas sequências (em palavras ou em palavras e imagens), mais ou menos à maneira de O anjo exterminador (1962), do espanhol Luis Buñuel, ou Elisa, vida minha (1977), do também espanhol Carlos Saura; como em certos sonhos, são imagens que tornam sempre, persistem: o rosto feminino que entra numa vagina, a criada que surpreende um sonho ruim da patroa, a mulher que é surpreendida no colo do amante de frente prestes para o sexo, a despedida no manicômio

Um dos mais belos filmes da década, A criada estimula no espectador várias excitações do modo de olhar uma imagem cinematográfica.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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