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O Delírio Cinematográfico de Jodorowsky: A Esclerose Criativa

O realizador chileno Alejandro Jodorowsky criou um certo pânico nos meios cinematográficos entre o fim dos anos 60 e o começo dos 70

04/08/2017 00:53 Por Eron Duarte Fagundes
O Delírio Cinematográfico de Jodorowsky: A Esclerose Criativa

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O realizador chileno Alejandro Jodorowsky criou um certo pânico nos meios cinematográficos entre o fim dos anos 60 e o começo dos 70, com narrativas difusas e confusas mas genialmente expostas com imagens de mergulhos livres no inconsciente, verdadeiras loucuras fílmicas, excentricidades em precipício. Muito apropriadamente ele criou, na França, com o espanhol Fernando Arrabal, um movimento chamado Pânico, uma espécie de extração do surrealismo do diretor espanhol Luís Buñuel. O pânico de Jodorowsky é tanto o pânico de viver quanto o pânico de filmar: o gene fílmico espalha-se para todos os lados, um delírio quase frio. Mesmo numas décadas em que muitos artistas costumavam incomodar (Jean-Luc Godard, Glauber Rocha), Jodorowsky aprofundava a perplexidade do espectador, fazendo-o crer que o espantoso não era que existissem loucos como este cineasta chileno mas que, diante dum mundo absurdo, a maioria das pessoas se comportasse com a dita normalidade.

Agora, aos 87 anos, Jodorowsky ataca outra vez, depois de longo ostracismo. Poesia sem fim (Poesía sin fin; 2016) é seu atual trabalho, que aporta às salas de cinema para observadores cujas sensibilidades aos choques estéticos está bastante longe dos cândidos públicos que iam ver filmes no coração do século XX. Certamente deve haver ainda alguém que se choque com as cenas bizarras e perversas de Jodorowsky, mas creio que se trate dum choque que passa logo depois da projeção e talvez já não deva render aquelas acaloradas discussões sobre o que se pode ou não filmar, seja este filmar fruto da imaginação ou da realidade.

Jodorowsky, cabe dizer, é um pós-felliniano. Mais barroco do que o italiano Federico Fellini: até mesmo mais fora de tom. Apresenta bem mais dificuldades de assimilação por parte do público habitual: seus filmes devoram nosso estômago. Uma das cenas antológicas de Poesia sem fim é  aquela em que o protagonista transa com uma anã menstruada: ela lhe dá seu sexo em sangue por uma espécie de gratidão nanica. Uma das mais fortes sequências de amor de toda a história do cinema: como se dissesse que o amor não tem tamanho. Quem é o protagonista de Poesia sem fim? É o próprio Jodorowsky, que, neste ponto de sua velhice, decide recriar sua própria vida, não uma autobiografia cinematográfica, mas sim uma autoparanoia fílmica em extremos. Aqueles grandes planos abertos do carnaval (multidão e máscaras) quase ao fim do filme parecem coroar as intenções dum simbolismo tenso e denso para toda a narrativa de Jodorowsky.

Considerado por seus inimigos estéticos como uma espécie de charlatão da imagem (apodo lançado por alguns hoje em dia a um diretor com as armas do diretor americano David Lynch, por exemplo), tratado muitas vezes atualmente como um picareta da narrativa por seus descaminhos delirantes, Jodorowsky segue seu rumo: o cinema pode ser a imagem do hospício. E Poesia sem fim é este hospício esteticamente transcendente e agudo.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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