Narrar Como Quem Se Diverte: O Divertimento Raciocinado

A louca de Maigret (La folle de Maigret; 1970) é mais um belo exemplo da arte de Georges Simenon

22/08/2018 16:18 Por Eron Duarte Fagundes
Narrar Como Quem Se Diverte: O Divertimento Raciocinado

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Tem-se a impressão de que o escritor belga Georges Simenon nasceu com a narrativa colada à pele de sua linguagem. Ele escreve como quem transpira num dia muito sol, mas também escreve sem transpirar: escrever (e bem) não lhe sai suor.

A louca de Maigret (La folle de Maigret; 1970) é mais um belo exemplo de sua arte. Simenon começa como quem não quer nada (é seu hábito), apresentando a futura vítima ao leitor, e também à sua distraída personagem, que, desta vez, longe de sua onisciência coautoral, parece não perceber o que está acontecendo, nem desconfia. A vítima de que falávamos é uma velhinha que se aproxima do comissário Jules Maigret (a personagem agora distraída de Simenon); esta vítima se esforça por falar a Maigret de um perigo que ela própria, futura vítima, está correndo. Tendo-a por louca (daí o título do romance), Maigret não lhe dá importância. A mulher vem a ser estrangulada; a morte dela mergulha o detetive numa investigação que é também uma investigação da própria culpa do comissário, culpa caracterizada por um “não dar ouvidos” a uma velhinha que o senso comum julga por doida ou maníaca.

“—Você pode recebê-la, Lapointe? Caso contrário, a teremos aqui todas as manhãs.” É a frase ríspida do inspetor para seu auxiliar diante das obsessões da idosa.

O que vem depois é a extrema habilidade de Simenon para compor uma história que, apesar das filigranas de realidade de que se compõe, é muito simples, muito direta, para expor no final que, morto o responsável pelo crime, a sobrevivente (amante do assassino e sobrinha da vítima) é excluída da acusação, por artes de engenho de pensar (narrativamente) de Maigret/Simenon, que, agora, enfim, abandona a ingenuidade distraída inicial e assume seu saber narrativo habitual nas ações de Maigret ao longo de Simenon.

Sabe-se que Simenon privou da amizade de um dos maiores cultores da naturalidade de narrar do cinema, o cineasta francês Jean Renoir. Cativos dos dois, podemos imaginar seus encontros, as trocas de ideias feitas em suas vidas paralelas e quase concomitantes, estabelecendo-se por ali um trânsito (intercâmbio) inconsciente entre a literatura de um e o cinema de outro, coisa que agora, anos depois de suas mortes, se esclarece bem, evocando os filmes de Renoir e lendo os textos de Simenon. O leitor-espectador agradece. Transpirar quando necessário, não transpirar abusivamente —segredo de Simenon que deve ter sido assoprado ao ouvido privilegiado de Renoir, ou vice-versa.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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