A Complexidade do Cinema de Petra Costa

Democracia em vertigem eh, isto sim, um modo de documentario subjetivo, narrado em primeira pessoa

13/01/2020 14:36 Por Eron Duarte Fagundes
A Complexidade do Cinema de Petra Costa

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Quem diz de Democracia em vertigem (2019), de Petra Costa, que é uma narrativa parcial e ideológica, entende pouco de cinema e menos ainda das relações artísticas. É claro que, pelo explosivo contemporâneo de seu tema, o documentário de Petra é facilmente utilizado, de maneira vesga, pelos dois lados da moeda; mas estas coisas têm pouco a ver (ou talvez nada) com a forma como a realizadora brasileira joga o mundo social e político para dentro de seu universo de imagens.

Democracia em vertigem é, isto sim, um modo de documentário subjetivo, narrado em primeira pessoa. A subjetividade de Petra, como artista, não é uma coisa etérea ou superficial —nem este estado de encher-se de seu umbigo, nem estes estereótipos políticos da moda; o lado subjetivo da arte de Petra Costa vem mesmo desde os abismos de Dostoievski e cruza um refinamento de filmar que já estava em seu autodocumentário anterior, Elena (2012), onde ela mergulhava, também dostoievskianamente, nas perturbações (com as quais a própria Petra se identificava em certa parte) de sua irmã mais velha em algumas andanças, vinte anos antes, por Nova York (o suicídio da irmã de Petra, jovem e inquieta numa das metrópoles do mundo, cadenciava as sombras daquele documentário).

Pode-se dizer que o cinema brasileiro tem usado amiúde este processo documental que o crítico Jean-Claude Bernardet alcunhou “autoficção”. Talvez o único diretor brasileiro que possa ombrear-se com Petra no uso deste recurso de estética cinematográfica seja o gaúcho (que se criou em São Paulo) Cristiano Burlan, de quem se viu, em 2019, o extraordinário Elegia de um crime (2019), uma senda rumo dos caminhos que levaram ao assassinato da mãe do diretor pelo companheiro dela. Petra põe, neste procedimento, seu caminho; este caminho é caracterizado essencialmente pela sensibilidade de sua visão das coisas.

Sim; é verdade: infelizmente para o analista que rejeita as polêmicas inautênticas em matéria de construção artística, Democracia em vertigem é feito de muita matéria que naturalmente envereda pelos equívocos da moda. Petra topa seu grande tema naquilo que assombra os brasileiros hoje, estejam eles em que ideologia for, a deposição da presidente Dilma Roussef, a condenação e a prisão do ex-presidente Lula, os conflitos entre os melancólicos lulistas e os ameaçadores saudosos do militarismo autoritário. O espectador que vê cinema com olhos de cinema, que entre outras coisas já viu o filme anterior da diretora, dá claramente com a ontologia da artista: o interior de Petra complexamente descobriu ali seu tema-irmão, seu abismo, sua vertigem. Democracia em vertigem, que se inicia com a prisão de Lula, resgata algumas coisas do Lula mais significativo da história, o líder das greves do ABC paulista no fim dos anos 70, mistura a história familiar de Petra (classe média alta de Minas, com um avô conservador e a mãe dela, que aprece muito no filme, uma ativista de esquerda) com os dados históricos do país em várias décadas, relata a ascensão de Lula, seus desvios no caminho, e volta no fim à prisão de Lula que abrira o documentário, é, na verdade, uma exposição de motivos da alma da cineasta, a maneira como todas estas coisas se inserem nela; pois é disto que se trata, um autodocumentário, narrar em primeira pessoa com uma profundidade tão antiga que pensar em Dostoievski é somente reconhecer uma gênese.

Ainda assim, sobressaindo-se para um tipo de arte mais transcendente, é possível reflexionar sobre Democracia em vertigem como um dos passos de nossa atual historiografia cinematográfica de resistência, de que O processo (2018), de Maria Augusta Ramos, e Deslembro (2018), de Flávia Castro, são exemplos que se podem evocar. E também reconhecer que este modelo de densa subjetividade fílmica pode colocar-se ao lado de Braços cruzados, máquinas paradas (1979), de Roberto Gervitz e Sérgio Segall, documentário de extrema objetividade, montado no ferver das greves do ABC paulista no fim da década de 70, como um dos mais poderosos documentários políticos jamais feitos entre nós.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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