O Realismo Escrachado Segundo Baker
Ainda que o observador possa nao morrer de amores pelos resultados esteticos a que chegou Baker neste filme, o significado irreverente e provocativo de tais premiacoes lhe apraz


As primeiras imagens de Anora (Anora; 2024), filme dirigido pelo norte-americano Sean Baker, acompanham as aventuras físicas duma prostituta nos cenários solta e deliciosamente devassos dum prostíbulo nova-iorquino; ela se chama Anora, de codinome Ani (é como ela prefere que lhe chamam), tem origem uzbeque e por entender um pouco de russo a põem a atender clientes soviéticos. O tom de provocação escrachada e erotização primária do espectador vai seguir por todo o filme, emulando o calor corporal destas imagens iniciais. O que vai mudar, no compasso narrativo, é um certo tom emocional que sai daquele álacre inicial e atravessa um outro tipo de euforia e momentos de tensa e dispersa melancolia.
Nas imagens finais de Anora a personagem, ainda exibindo sua volúpia carnal, dentro dum carro, vai para cima dum pau-mandado russo com quem se altercara em cenas anteriores, reclina o banco do motorista e literalmente o possui, entregando algo de corpo e alma que se concluirá com um choro esquisito e dolorido. Entre as travessuras das imagens de abertura (que o olhar moralista do observador sempre vai simplificar e dizer é pornográfico) e uma certa sisudez do fecho narrativo, Baker conta sua história: uma garota de programa, por falar um pouco do idioma russo, acaba encontrando um excêntrico filho adolescente de oligarcas soviéticos; primeiro ele a contrata por exclusividade, depois casa-se com ela, enfim a família mafiosa da oligarquia russa se opõe, anula o casamento, o rapaz ou príncipe nada tem que fazer. Anora e Ivan se põem como estereótipos joguetes de seus desejos e das pressões sociais; o russo a quem Ani possui na cena final é um dos guarda-costas soviéticos (o mais rústico de todos), justamente aquele com quem ela mais brigara ao ser feita refém por aqueles estranhos homens. Anora é o anti-Uma linda mulher (1990), o pacto conformista de Garry Marshall, com os queridinhos de então de Hollywood, Richard Gere e Julia Roberts. Consta que Julia, para atuar no filme, exigiu que não aparecesse nua, e acabou na nudez (prostituição sempre vai ter nus) sendo substituída por dublês: os pudores americanos, sua candidez de sempre. Diferente ocorreu com a jovem atriz de Anora, Mikey Madison, que revelou que ela e seu par diante das câmaras tiveram representação de posições sexuais para usarem no filme, representações levadas a efeito pelo diretor Baker e por sua esposa Samantha Quan, que é produtora do filme. O resultado é um realismo escrachado. Anora se aproxima de Uma linda mulher por seu argumento inicial mas logo se afasta para o contradizer estilisticamente.
O escândalo duma obra como Anora se estende para além do sexo encenado, está essencialmente em que um filme como este tenha ganhado os dois prêmios centrais duma temporada de cinema, a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme. Cannes abre para o escândalo intelectual, o Oscar para o escândalo moralizante. Ainda que o observador possa não morrer de amores pelos resultados estéticos a que chegou Baker neste filme, o significado irreverente e provocativo de tais premiações lhe apraz.
P.S.: Em 1991, para contraditar no fogo da hora, o filme com Julia Roberts e Richard Gere, o inglês Ken Russell rodou um filme mais subterrâneo e escrachado que Anora: A prostituta trazia Theresa Russell no papel duma garota de programa que falava diretamente para a câmara (o espectador) relatando suas histórias ao vender sexo aos homens. No filme francês A casa dos prazeres (2022), de Anissa Bonnefort, a atriz Ana Girardot viveu uma escritora que para escrever um livro sobre prostituição vai praticar o meretrício. Estes dois filmes distantes e diferentes guardam mais relações (ainda que difusas) com Anora que o brasileiro Bruna Surfistinha (2011), de Marcus Baldini, com Deborah Secco no papel central, a que a jocosidade brasileira aludiu enciumada com os prêmios dados ao filme de Baker em detrimento de “nossa menina dos olhos”, Ainda estou aqui (2024), de Walter Salles.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)


Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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