A Voz Geracional de Nando
Nando Gross, um dos melhores homens de radio da historia do Rio Grande do Sul
Foto: Internet
Nando Gross é um dos melhores homens de rádio da história do Rio Grande do Sul. Irônico muitas vezes, extremamente preciso e forte nas opiniões que tem destilado ao longo dos anos nas ondas radiofônicas, Nando é acima de tudo um libertário. Ouvinte de rádio desde minha infância, confesso que me deliciava sempre que Nando intervinha, às vezes intempestivamente em programas de outros, para desfazer equívocos de informação: por exemplo, quando Rogério Mendelski, na Guaíba, passava dados incorretos para favorecer uma determinada ideia política ou social (em se tratando de Mendelski, à direita), lá aparecia Nando do nada. Embora eu seja apaixonado por futebol, confesso que o Nando das questões culturais e sociais sempre me pareceu superior ao comentarista esportivo que ele também é, e bom.
Estas anotações acima são para introduzir minha chegada ao livro Crônicas de um radialista em fuga (2025), que Nando escreveu para, como ele próprio diz, “acertar contas comigo mesmo”. Ali está todo o Nando: o homem de esportes, o músico, o indivíduo interessado em coisas culturais, sua formação, o libertário e também um cérebro que, a despeito ou por causa mesmo da lucidez, foi em muitos momentos tomado pelo pânico. E neste pequeno belo livro podemos encontrar-nos todos, os da geração de Nando, que vivemos as décadas da ditadura na mais bela das quadras da vida, a juventude, e em anos recentes fomos obrigados a engolir as brutalidades do bolsonarismo. Nando foi um dos jornalistas gaúchos vitimados pela cara-de-pau da onda reacionária e vesga que há pouco desabou na sociedade brasileira, incluindo-se aí o meio jornalístico; pior que tudo, eliminado o elemento-chave do sistema que permitiu esta onda, os efeitos das ações criadas neste ninho não recuaram, os ovos da serpente se multiplicaram, quem estava vitimado permaneceu vítima. Desta maneira, Crônicas de um radialista em fuga se converte, para além do ajuste de contas de um jornalista consigo mesmo, num retrato de época duma sociedade determinada.
“Só me tornei jornalista porque, antes de tudo, sou radialista”, diz Nando. Anota ainda: “Cidreira foi o palco dos dias mais felizes da minha infância. Entre primos, tios, avós e amigos, vivi momentos que carrego até hoje.” E segue: “Eu estudava no Colégio Santo Antônio. Nas aulas de história, o golpe de 1964 era tratado como ‘movimento’ ou ‘revolução’. Mesmo jovem, eu percebia a farsa. Eu sempre fui de estar na rua, andava por todos os lados, e havia um descompasso claro entre o que constava nos livros e era dito na sala de aula e o que se via nas ruas.” Anuncia a origem de seu coloradismo, ao voltar de sua temporada no Rio: “Mas, de volta a Porto Alegre, virei colorado. Era o tempo de Figueroa, Carpegiani e Falcão. Não tinha como fugir. O Inter dos anos 70 foi marcante para quem teve o privilégio de vê-lo.” Minhas similitudes com algumas experiências de Nando aproximam a identificação geracional: também vivi dias faustosos da juventude na praia de Cidreira, também eu deparei com as ameaças militares dos anos 70 (vindo do interior, jovem e ignorante, fui convidado a mudar de calçada na frente dum quartel na rua da Praia, em 1973) e muito do meu gosto pelo futebol, iniciado em 1970 com a seleção de Pelé, Tostão, Gerson, Jair, Rivelino, se aperfeiçoou com os jogos do Internacional de Falcão que vi nos gramados na segunda metade dos anos 70, embora eu não me tenha tornado colorado.
As crônicas são, como diz o texto final do livro, memórias. E as memórias, na sensibilidade da escrita de Nando Gross, são signos de uma época.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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