A Gozacao Brasileira Fatura a Guerra Fria
Revisto agora, O Homem do Sputnik ainda oferece ao observador duas pecas que fizeram furor nos anos seguintes do audiovisual brasileiro
O homem do Sputnik (1959), dirigido por Carlos Manga, é nosso clássico tupinambá. Antes das revoluções do Cinema Novo, antes das denúncias do crítico Paulo Emilio Sales Gomes, sobre as falas no cinema brasileiro, eis ali um exemplar da pré-história que sobreviveu à passagem das décadas. Ressalvados os exageros que o listam como um dos maiores filmes nacionais, é possível ainda sorrir ao compasso dos tons paródicos de comicidade popular adotados pela realização de Manga: os diálogos têm ainda sua falta de jeito ou naturalidade, as formas cinematográficas são precárias e truncadas, mas pouco a pouco a narrativa (entre o cotidiano e a alegoria) se estrutura razoavelmente e segura a peteca. Em seu balanço dos filmes lançados em 1959, no tópico cinema brasileiro, José Lino Grünewald, após referir o interesse somente por Ravina, de Rubem Biáfora, e Fronteira do inferno, de Walter Hugo Khouri, anota: “O resto é chanchada, e a menos intragável foi O homem do Sputnik.” Preconceito dum intelectual como José Lino? Mas a expressão “menos intragável” pode colocar as coisas em seus lugares.
Antes de mais nada, convém lembrar que Manga foi um cinéfilo. Via filmes. E tentava adaptar os modos estrangeiros aos estratos nacionais. Claro: é nosso subdesenvolvimento, nossos aspectos inevitavelmente colonizados. Mas é curioso observar que os movimentos de câmara iniciais de O homem do Sputnik têm uma inesperada sofisticação. Na primeira imagem a câmara move-se na direção duma placa onde o espectador lê: “Ovos frescos recensaídos da fonte da produção” (note-se a grafia “recensaídos”). O teor dos movimentos de câmara e a obscuridade fotográfica remetem claramente a Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, que em 1958 voltara aos cinemas brasileiros, preenchendo a curiosidade das novas gerações como a de Manga. Em seu livro Este mundo é um pandeiro (1989), escreve Sérgio Augusto: “Tudo indica que foi mesmo de Cidadão Kane que tirou a ideia de abrir e fechar O homem do Sputnik em cima de uma mesma placa, alcançada pela câmera em dois travellings complementares.” De fato: na imagem final a câmara afasta-se duma placa onde se lê “mudou-se”.
O homem do Sputnik sobrevive em nossa memória cinematográfica porque é um autêntico depósito de certas coisas que se incrustaram como imaginário brasileiro. Oscarito no papel de Anastácio, o caipira que vive de vender ovos de seu galinheiro e um belo dia quando lhe cai no terreno um objeto falsamente tido como o satélite russo Sputnik vê a oportunidade de faturar em cima duma obsessão internacional pelo conflito chamado então Guerra Fria, pois Oscarito é a comicidade brasileira em ação. A seu lado, Zezé Macedo, como sua esposa Cleci, é outro estouro de característica e engraçada. Logo depois da cena inicial da placa, o que se vê é um homem a cavalo entoando uma destas canções popularescas, interioranas. O clima está feito: precário, ingênuo, mas nosso. De novo Paulo Emilio: qualquer filme brasileiro é mais importante que o filme estrangeiro. O homem do Sputnik supera seu modelo, Cidadão Kane?
Revisto agora, O homem do Sputnik ainda oferece ao observador duas peças que fizeram furor nos anos seguintes do audiovisual brasileiro. É bom reencontrar Jô Soares (no filme ainda creditado como Joe Soares) em seus jovens anos: seu agente americano é divertido como tudo o que o ator cômico fez ao longo dos anos. E a grande atriz Norma Bengell, interpretando uma sensualíssima agente francesa, uma dulcíssima mulher fatal, evocando os trejeitos de Brigitte Bardot, é um espetáculo dentro do espetáculo. Mesmo Hamilton Ferreira, ator que submergiu no tempo, vivendo a parte russa no conflito típico dos anos 50, enriquece a fauna que Manga põe em cena.
Não chega a ser exatamente um bom filme. Mas a história aponta: não é um filme para se esquecer.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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