A Questao da Linguagem Como Narrativa

Jose Geraldo Vieira executa sua forma de tratar a lingua como elemento de sua narrativa, em grau maximo, em A Quadragesima Porta (1943)

25/07/2026 04:55 Por Eron Duarte Fagundes
A Questao da Linguagem Como Narrativa

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José Geraldo Vieira executa sua forma de tratar a língua como elemento de sua narrativa, em grau máximo, em A quadragésima porta (1943). No prefácio em que o autor se dirige diretamente ao leitor, prefácio a que o próprio romancista chama “Átrio”, se lê: “Só me resta, neste caso, balbuciar que o meu romance é uma reunião multitudinária de fonemas escritos segundo ortografias decretadas, mas reunidos dum modo específico em categorias taxeonômicas e sintáticas, as flexões de número, gênero, modo, tempo, grau, concordância e ordem formando pilhas de períodos optativos e declarativos, tudo isso formando ‘o meu estilo’.” Literatura mesmo são frases que se sucedem umas às outras. Claro; estas orações que se juntam nas frases evocam situações e personagens e sentimentos e ideias . Mas em José Geraldo Vieira a linguagem está sempre no primeiro plano; em A quadragésima porta, que Álvaro Lins considerou como transbordante, que Antonio Candido preferiu ver como o “romance da nostalgia burguesa”, José Geraldo exacerba em seu barroquismo: desarrumado, cheio de períodos que tendem ao exagero, o romance se sustenta na extrema genialidade da prosa, algo inusitado, por sua densa criatividade verbal, em nossa literatura.

Ambientado entre portugueses, em Portugal, Lisboa ou arredores, da alta burguesia, alguns de veleidades intelectuais, com circulações por Paris, A quadragésima porta não terá acolhida no espírito vulgar de nossa época mas na verdade se trata de um grande ensaio no tempo. Embora as referências sejam escassas e esparsas, a guerra mundial dos anos 40 do século XX é a presença oculta ao longo da narrativa. O texto, desde os começos, se revela notável em suas construções, nos movimentos que põe na cena. “A Maria Amélia mandou vigiar a estrada. Mas só em meados de março, quando toda Quinta estava atordoada pelas vigílias e sobressaltos, foi que Bruno e Gonçalo chegaram. Abraçaram a mana e o cunhado, ergueram ao colo as sobrinhas e subiram, ouvindo as notícias desalentadoras. A Maria Amélia seguia adiante, para espreitar a sonolência do pai. Sussurrou-lhes que ao abraçá-lo se explicassem bem, pois estava bastante surdo e quase cego.”

A dúvida da personagem pode ser estética mas é também existencial: profundamente. “Gonçalo estava sozinho, na varanda. Qual desses livros reler, Les norritures terrestres ou Une saison en enfer?” Mas o mundo em torno puxa por seu pensamento: “Marasmado na canícula da paisagem do Mogadouro, Gonçalo tinha a sensação de estar ao centro dos comícios de operários e estudantes que aconselhavam a greve exigiam a paz, apedrejando as chancelarias ou desfilando pela praça da Bastilha ou pela Trafelgar-Square.” Surge também o cinema, em seus começos como estética: o expressionismo germânico. “Nesse sobrado da esquina da Touentzistrasse, olhávamos, ele, a mulher, as três crianças e eu, o cartaz luminoso dum cinema que dizia: Der Mude Taf. ‘A morte cansada’.”

Em certos trechos o narrador utiliza a narrativa indireta através de cartas, como um romance epistolar, circunvagando os cenários, França aqui, ali Portugal. Todo exagero metafórico, vocabular, sintático adquire na alma do ficcionista nato um ponto que emociona, no âmago mesmo da linguagem. “Lembrou-se de tudo quanto era inefável e belo, pois era impossível que nessa hora não lhe acontecesse outra coisa melhor do que a vontade de chorar.” Como dar ideia dum romance tão único como A quadragésima porta? É uma instância de narrador que somente José Geraldo Vieira saberia criar. Voltando a seu prefácio, ele escreve: “Talvez isso te comova como me comoveu quando, durante noites e noites, os criei, ora ajudado por uma Remington Portátil, ora vaiado pelas orquestras microscópicas dos grilos, esses apupadores de vigílias!” Voltado para o assoberbamento de sua criação, José Geraldo Vieira transforma a sensação final de A quadragésima porta numa complexidade praticamente abstrata a que poucos parecem ter acesso.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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