FILMES INTERESSANTES NESTE MES

filmes que estao em varias plataformas, vale serem assistidos

25/07/2026 04:44 Por Felipe Brida
FILMES INTERESSANTES NESTE MES

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A mulher mais rica do mundo

Com 50 anos de carreira nas costas, Isabelle Huppert é uma atriz completa, que já trabalhou com grandes nomes do cinema. Tem uma centena de filmes no currículo, de gêneros variados, e uma coleção de prêmios. Aos 72 anos, ela estrela com maestria esse drama sobre disputa e poder no mundo corporativo, que acaba de chegar na plataforma de streaming Filmelier+. Tem uma figura real por trás da história fictícia: é livremente inspirado na vida da bilionária Liliane Bettencourt, herdeira dos cosméticos L’Oréal, por muito tempo apelidada de “a mulher mais rica do mundo”. Sua trajetória foi marcada por intensa disputa familiar e judicial sobre o controle da fortuna, envolvendo acusações de manipulação por parte de um fotógrafo e escândalos de corrupção que atingiram o alto escalão do governo francês (ela faleceu em 2017 aos 94 anos). Na trama, acompanhamos Marianne Farrère, interpretada por Isabelle Huppert, magnata da indústria de cosméticos. Ela é influente no mundo empresarial, apesar de ser difícil de lidar. Sua vida aparentemente sólida começa a ruir quando conhece Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo ambicioso, cuja aproximação desperta sentimentos intensos entre ambos. A amizade dos dois desencadeará uma série de eventos que colocarão em risco o dinheiro e a estabilidade de sua família. O envolvimento de Marianne e Fantin abriu espaço para doações milionárias, suspeitas de corrupção e segredos sombrios ligados ao passado da fortuna construída, revelando como o luxo pode esconder dramas de proporções quase trágicas. O filme é um denso retrato psicológico sobre a controversa personalidade em cheque, explorando o contraste entre o poder absoluto e a fragilidade emocional de Marianne, ao mesmo tempo em que expõe a luta de sua filha desconfiada, Frédérique Spielman (Marina Foïs), pelo controle do império. Tem uma boa mistura de romance, drama e thriller, com diálogos afiados e atmosfera elegante. Com direção e roteio de Thierry Klifa, de “Tudo o que nos separa” (2017), o filme esteve em Cannes onde concorreu ao Queer Palm no ano passado.

 

Salvação 

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.

 

Naufrágio: O pesadelo do Costa Concordia

Mais um dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais, desta vez envolvendo o naufrágio do Costa Concordia, um imponente navio de cruzeiro. O caso aconteceu em 13 de janeiro de 2012, quando, numa viagem com 4.200 pessoas, a embarcação se chocou contra as rochas próximas à Ilha de Giglio, na Itália. O navio passou por uma manobra arriscada do capitão, que o levou muito próximo da costa. O impacto com as pedras destruiu parte do casco, que fez com que o navio inclinasse e houvesse perda de energia elétrica. A demora da tripulação em ordenar a evacuação agravou o cenário, gerando pânico e desorganização entre os passageiros. Foram horas de desespero para colocar todos em botes, enquanto a embarcação submergia nas águas. O resultado: 32 pessoas mortas, dezenas de feridos e a fuga do capitão Francesco Schettino, que abandonou o navio antes do término do resgate (sua justificativa foi de que teria “escorregado” para dentro de um bote salva-vidas, mas em 2015 ele foi condenado por homicídio culposo, naufrágio e abandono, recebendo pena de 16 anos de prisão). Devido à dimensão do desastre e ao porte da embarcação, o resgate do Costa Concordia tornou-se a operação marítima mais complexa e cara já realizada – e a tragédia em si entrou para a História como um dos maiores desastres marítimos dos últimos anos. O filme da Netflix relembra o caso, com entrevistas dolorosas de passageiros que perderam familiares, de sobreviventes e de parte da tripulação do Costa Concordia. Há muito material de arquivo, como reportagens da época, muitas delas italianas, e imagens inéditas, somente agora liberadas para uso, do resgate das vítimas. Um bom filme, que nos deixa apreensivos diante do impacto daquela noite interminável - após o naufrágio do Costa Concordia, a indústria de cruzeiros implementou mais de 30 novas políticas de segurança, como mudanças nas leis e práticas marítimas globais que incluem a obrigatoriedade de treinamento de emergência antes do navio zarpar, restrições severas de acesso à ponte de comando e a exigência de planejamento de rotas com antecedência.

 

A divina Sarah Bernhardt

A Imovision lançou nos cinemas no último fim de semana dois filmes de títulos parecidos que relembram a trajetória de mulheres no cinema: “A divina Sarah Bernhardt” e “Diva futura”, ambos de 2024 e somente agora chegando nas salas brasileiras. “A divina Sarah Bernhardt” é uma regular biografia da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), com enfoque nos anos finais de sua vida, quando debilitada após a amputação da perna direita, em 1915. Nesse período passava boa parte do tempo ou deitada em uma cama ou sentada numa cadeira, devido à pouca mobilidade provocada pelas dores intensas no quadril. Enfermeiros a transportavam para lá e para cá, em apresentações, gravações e afazeres domésticos. Aclamada como a “Divina Sarah”, tornou-se uma das atrizes mais importantes de sua época, referência nos palcos franceses, e que no cinema (sua carreira na tela foi curta) esteve numa das primeiras versões de “A dama das camélias”, em 1912, no papel central, da cortesã Marguerite Gauthier. Egocêntrica, temperamental, recusava-se a abandonar a cena, atuando em filmes mudos, peças teatrais, deitada ou apoiada em cadeiras. Essa obstinação em permanecer ativa até os últimos instantes reforçava a imagem de uma artista indomável, ainda que o corpo já não acompanhasse sua energia criativa. Quem a interpreta Sarah é uma atriz francesa que gosto muito, versátil em comédias e dramas, Sandrine Kiberlain, premiada com o César, de “Mademoiselle Chambon” (2009) e “A garota radiante” (2021 – escrito e dirigido por ela). Ela faz uma Sarah cercada por antíteses: ora enérgica para atuar, ora agressiva com as pessoas que a cercavam (sua biografia conta que era uma mulher intempestiva, que gritava com qualquer um que a contrariasse). Vestia roupas chiques, tinha bom gosto e mantinha relações intensas com escritores e atores, como Lucien Guitry (no filme interpretado pelo sempre condizente Laurent Lafitte), membro da Comédie-Française e diretor do teatro Renaissance. Tinha amizades com intelectuais célebres, como os dramaturgos e escritores Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas (alguns aparecem no filme), que a viam como musa inspiradora. O trato do filme é na personalidade forte e independente de Sarah, que desafiava convenções e não hesitava em confrontar colegas ou diretores se tivesse razão. A postura incisiva, de mulher geniosa, refletia nas relações afetivas (raramente ela mantinha algo duradouro com os homens de sua vida), e isto atingia também seu trabalho no cinema (Sarah não compreendia bem a Sétima Arte, por isso fez menos de 5 filmes, a maioria curtas, e chegou a ordenar a destruição de filmes que participou que não lhe agradavam). Ela morreu em 1923, em Paris, de complicações renais, tendo um dos funerais mais impressionantes da história: o caixão cruzou as principais vias de Paris, sua morte comoveu multidões, reunindo mais de 35 mil pessoas até o cemitério Père-Lachaise, onde estão sepultadas diversas personalidades do universo das artes. Mais um bom trabalho do diretor Guillaume Nicloux (de “O vale do amor”, “Os confins do mundo” e “A religiosa”).

 

Diva Futura

Junto de “A divina Sarah Bernhardt” (2024), a Imovision lançou nas salas brasileiras no último fim de semana outro cult movie que retrata figuras femininas no cinema. Aqui temos a história real da agência publicitária italiana Diva Futura, criada no início dos anos 1980, em Roma, pelo fotógrafo e cineasta Riccardo Schicchi (1953-2012). O empreendimento cultural descobriu modelos e logo ficaria famoso por realizar filmes pornôs europeus, distribuídos depois no mundo todo. A agência tinha a proposta de profissionalizar e dar visibilidade aos artistas do setor, principalmente atrizes que não tinham reconhecimento, apesar de certo talento. Schicchi cunhou o termo “porn-star” para valorizar seus agenciados, colocando-os em pé de igualdade com ícones italianos da Sétima Arte e da TV. No filme ele é interpretado por Pietro Castellitto, filho do veterano astro Sergio Castellitto. Ele está bem no protagonismo da fita – um ator de boas expressões, que já atuou em vários filmes e até dirigiu, apesar da pouca idade (34 anos). Na história ele abre a agência, relativamente pequena, que viraria um estúdio de gravação também; revelou principalmente três mulheres que do dia para a noite viraram estrelas do cinema adulto: Ilona Staller, a Cicciolina, que depois seria deputada; Moana Pozzi, atriz que chegou a se candidatar à prefeitura de Roma (e faleceu nova, aos 33 anos, de câncer); e Eva Henger, que também ganhou notoriedade como modelo. E agenciou ainda Rocco Siffredi, o ‘Rocco’ da produtora de cinema pornô que fez sucesso nos anos 90. As três mulheres ganham vida na tela, interpretadas respectivamente por Lidija Kordic, Denise Capezza e Tesa Litvan, cada uma com seu estilo de atuação, misturando delicadeza, sensualidade e energia. Elas trazem vigor para a história sobre o universo do cinema erótico/pornô da época, com seu glamour e cores radiantes. A Diva Futura escandalizou setores conservadores da sociedade italiana, chegou a ser impedida de trabalhar pela polícia e quase fechou no auge de seu funcionamento (ela perdeu força no final dos anos 1990, acompanhando mudanças no mercado e o desgaste da imagem pública de suas estrelas). O filme vai entremeando a trajetória dessas mulheres e do diretor da agência, mostrando tanto o glamour delas quanto o preconceito enfrentado. O impacto da Diva Futura foi cultural e político não só na Itália, mas na Europa toda, um fenômeno que consolidou a pornografia como indústria cultural. Cicciolina (conhecida pelos peitos avantajados), depois levou a discussão sobre sexualidade para dentro do parlamento, enquanto Moana Pozzi legitimou sua imagem pública na política, em campanhas para prevenir doenças sexuais. O filme é um trabalho peculiar da cineasta, atriz e produtora Giulia Louise Steigerwalt – ela fez o roteiro adaptando as páginas do livro “Oltraggio al pudore”, da jornalista Debora Attanasio (com colaboração de Ricardo Schicchi e Eva Henger). Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024, está em exibição nos cinemas do Reserva Cultural, com distribuição exclusiva da Imovision.

 

A noite de Alaíde

A cantora e compositora carioca Alaíde Costa é homenageada em um documentário no ano em que comemora 90 de idade. Uma das maiores vozes da música brasileira, Alaíde sempre selecionou para o repertório de seus shows e discos canções melancólicas da MPB e da Bossa Nova, o que virou uma marca da artista. Filha de um forneiro de padaria e de uma lavadeira, desde pequena demonstrou talento para o canto, participando de concursos de calouros em rádios e circos, onde se destacou ainda adolescente. Em 1955 iniciou a carreira profissional como crooner em bailes no Rio de aneiro até lançar, no ano seguinte, o primeiro álbum, o que abriu caminho para uma trajetória de seis décadas na música. Foi uma das primeiras mulheres negras a entrar no movimento da Bossa Nova, gravando com Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, Johnny Alf e João Gilberto. Sua voz delicada e afinada lhe garantiu reconhecimento como uma intérprete singular. No documentário em primeira pessoa, Alaíde relembra infância, juventude e fase adulta, tratando de temas como preconceito racial e as dificuldades para se consolidar no mercado da música (em um ambiente dominado por homens). Com sua voz suave, por vezes demonstrando timidez, ela conta boas histórias nesse filme que mistura linguagens: é documentário com dramatização (Alaíde é interpretada por atrizes mirins e adolescentes de acordo com as fases da vida), e uso de estéticas variadas, como rotoscopia (animação por cima das gravações reais) e animação em 2D, além de entrevistas e apresentações antigas da cantora e arquivo de fotos das décadas de 40 a 70. Essa estética diferenciada vem da mente da diretora especializada em linguagem híbrida, Liliane Mutti, que havia trabalhado algo nessa perspectiva em “Miúcha – A voz da Bossa Nova” (2022). O filme estreou no último fim de semana simultaneamente nos cinemas do Brasil e de Portugal, pela Bretz Filmes, após percorrer festivais nacionais e internacionais, como Telluride, TIFF, IDFA, CPH:DOX, o In-edit Brasil 2026 e o Marché du Film, em Cannes. Haverá amanhã, dia 22/07, sessão especial no Reserva Cultural em São Paulo, às 20h10, seguido de debate com integrantes da equipe do filme. O longa tem licenciamento no Globoplay e em breve entrará no catálogo do Canal Curta!

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com

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