A Cria da Orgia

Orgia ou O Homem que Deu Cria se estrutura um pouco como uma caravana que esta sempre andando pelo interiorzao do pa?s, estradas perifericas perdidas numa especie de sertao

15/08/2026 03:41 Por Eron Duarte Fagundes
A Cria da Orgia

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João Silvério Trevisan acabou tornando-se um escritor. No entanto sua fama dentro de nossa estética terceiro-mundista ainda está ligada a um clássico de nosso cinema marginal, Orgia ou o homem que deu cria (1970), obra muito pouco vista, perseguida pela censura dos militares (que a tirou de circulação) e inédita em Porto Alegre até um certo sábado de 24 de maio de 2014. Trevisan como escritor é bastante apreciado por seu romance Ana em Veneza (1994), que trata da mãe brasileira do escritor alemão Thomas Mann, entre outras evocações. Mas o cinema de Trevisan, no único filme longo que ele realizou, é outra coisa: tem o comportamento da precariedade das coisas do Brasil e utiliza esta precariedade como um trunfo de sua rebeldia desbocada.

Orgia ou o homem que deu cria se estrutura um pouco como uma caravana que está sempre andando pelo interiorzão do país, estradas periféricas perdidas numa espécie de sertão. Vários indivíduos ficam andando a esmo e dizendo coisas. “Alguma coisa estava acontecendo!” exclama alguém em cena. Em Bang Bang (1970), de Andrea Tonacci, alguém resmunga algo parecido: “Alguma coisa se passa. Mas não se sabe ao certo.” Algo diferente havia no ar. Era tão esdrúxulo que um homem engravidara e ao cabo do filme daria à luz uma criança nos espaços dum cemitério. Trevisan parodia uma minúscula primeira missa no Brasil para gatos pingados de selvagens e brucutus. Sintomaticamente o padre é Ozualdo Candeias, diretor de A margem (1967), considerado a matriz de nosso cinema da margem. Trevisan põe em cena igualmente outros nomes comprometidos com as vanguardas de nossa sétima arte de então, os críticos Jean-Claude Bernardet e Jairo Ferreira.

“Falo como um louco no manicômio”,  proclamava Trevisan na época de Orgia. E é bem isto sua aventura visual. Uma pequena procissão de doidos. Uma alegoria duvidosa e duvidante. Transita por Glauber Rocha, evidentemente, mas o funde com Rogério Sganzerla.

Talvez Trevisan tenha feito Orgia porque nos anos 60 ou 70 a literatura que ele queria fazer, ou que viria a fazer, não tivesse sentido. Teria de esperar algumas décadas. O que interessava então ao escritor era mostrar na tela alguém como ele (um intelectual) que comia livros (literalmente numa cena do filme) e gritava impropérios indecifráveis. Orgia ou o homem que deu cria é um impróprio que o tempo finalmente pôde decifrar.

 

P.S.: Pode-se dizer também que o estado de cineasta de Trevisan influenciou um pouco seu lado de escritor. Sua literatura não chega a ser tão rude e vomitativa quanto sua Orgia com a câmara. Mas ao escrever, por exemplo, Ana em Veneza, o romancista não esqueceu a câmara. Lá pelas tantas anota: “A zoom abre. Câmera vai descrevendo uma panorâmica sobre o ambiente pasteurizado do café, que é um círculo de proporções medianas. Paredes vermelhas e azuis. Azuis também as mesas estilo coisa-nenhuma-lanchonete, os assentos das cadeiras e o chato acarpetado. Câmera continua em panorâmica pelo centro do local.” Escrever pensando no cinema, redigir como se fosse um roteiro do filme o que é na verdade uma narrativa literária, sentir falta da câmara diante das palavras. Quem fez ou faz cinema ou vê muitos filmes e pensa sobre eles, depara com este problema ao escrever.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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