ESTREIAS DE AGOSTO
Veja uma lista de filmes interessantes num cinema perto de voce ou em um streaming "em casa"
Estreias do mês
Honestino
Conhecido por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo” (2020), o diretor amazonense Aurélio Michiles se volta agora à Ditadura Militar no Brasil, trazendo para a tela a biografia do líder estudantil Honestino Guimarães, o Gui, um dos tantos desaparecidos políticos no cruel período dos Anos de Chumbo. Fundindo documentário e ficção, o longa reúne imagens inéditas de Gui, aluno da Universidade de Brasília – UnB e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no final dos anos 60. Preso diversas ocasiões por criticar e enfrentar os militares, desapareceu em 1973, aos 26 anos. Nunca mais se ouviu falar no estudante. O filme vasculha vestígios da época, de arquivos de fotos da família e de pessoas que conviveram com ele; entrevista a filha e o neto de Gui, colegas de turma da faculdade e da luta contra a Ditadura. O filme vai exibindo pouco a pouco a personalidade forte e sempre carismática de Honestino e sua visão de um mundo mais justo. Cartas, poemas, fotos dele são abundantes no filme, bem como depoimentos de dezenas de pessoas próximas – Aurélio Michiles, o diretor, foi colega de luta dele, da chamada Geração de 68. As encenações de Gui são de Bruno Gagliasso, em poucas aparições, já que o tom do filme é mais documental. Uma obra densa, que reflete a luta de tantos por um país livre da repressão. Assisti ao filme numa sessão no Festival do Rio com a presença da equipe e familiares, e em seguido o longa foi para a Mostra Internacional de Cinema de SP. Agora estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes.
Insaciável
O cinema de terror australiano vem ganhando forma nos últimos anos, redesenhado do movimento Ozploitation dos anos 70 e 80 que ativou o gênero no país. “Insaciável” é um bom exemplo de como se fazer filmes assustadores com dimensão crítica. Eu o vi na première europeia na Berlinale desse ano, na sessão Berlinale Special Midnight, ainda com o título original, “Saccharine”, e gostei muito. E agora o filme acaba de estrear nos cinemas do Brasil, pela Diamond Films. É uma produção independente escrita e dirigida por Natalie Erika James, de outro bom filme cult de terror de anos atrás, “Relíquia macabra” (2020). É um terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, com ecos de body horror. O inquietante longa acompanha Hana (Midori Francis, de “Bons meninos”), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelamente a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha, nos cantos da casa, perto da geladeira. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, numa boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). Filme de terror para o público que curte uma reinvenção no gênero.
Ágon
Fita cult escondida no streaming da Mubi, “Ágon” (2025) é uma obra simbólica e de estética subversiva que desmonta a aura heroica do esporte olímpico para revelar sua face mais dura e silenciosa. No longa, três atletas italianas (uma judoca, uma esgrimista e uma atiradora) estão em meio aos fictícios Jogos de Ludoj de 2024. Elas, em seus mundos particulares, enfrentam dilemas: uma luta contra uma lesão que ameaça a carreira, outra revive o trauma de um acidente que expõe os limites da ética esportiva, e a terceira mulher encara o julgamento público nas redes sociais. Os lances rápidos, os cortes secos, os raros diálogos, num estilo semi-documental, com câmera próxima e fotografia granulada, formam a estética reveladora desse filme de arte para público específico, que marca a estreia do cineasta Giulio Bertelli – ele escreveu o roteiro de forma colaborativa com outros cinco roteiristas. O título é uma referência ao termo grego agon que significa “conflito”, surgido há mais de 2300 anos na Grécia Antiga, que descrevia tanto os jogos olímpicos e competições artísticas quanto os debates formais no teatro ou na filosofia, representando o impulso humano para vencer e buscar a excelência. O termo espalhou-se para a Mitologia (nome de um daimon, um espírito ou divindade menor que personificava os desafios e as disputas solenes), e foi amplamente utilizado no teatro grego, para designar o momento de debate formal ou confronto verbal entre dois personagens, base sintética para termos que viriam a posteriori, como protagonista e antagonista. No filme o ágon é um embate tanto físico quanto duramente psicológico e social, que rompe com a estrutura das vidas das personagens para sempre. O filme também faz uma crítica ao espetáculo olímpico: por trás da busca pelas medalhas há corpos exaustos e identidades pressionadas pela mídia para se chegar ao pódium. Coprodução Itália, França e EUA, o filme recebeu dois prêmios especiais na Semana da Crítica do Festival de Veneza 2025.
Futuro futuro
Está em cartaz nos cinemas essa ficção científica distópica brasileira, novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), que foi o vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Exibido no Festival Olhar de Cinema, está nos principais cinemas do país, com distribuição da Cajuína Filmes.
Toquinho: Encontros e um violão
Documentário que celebra os 80 anos do cantor e compositor Toquinho (nascido Antonio Pecci Filho), um músico notável, que percorreu o samba, os afrosambas e a MPB, tendo longa parceria com Vinicius de Moraes. Dirigido por Erica Bernardini, diretora do Festival de Cinema Italiano no Brasil (onde o filme estreou na edição de 2024), o doc acompanha as cinco décadas de carreira do artista, entrelaçando memórias pessoais a entrevistas antigas e imagens de arquivo (muitas da infância e juventude dele, além de turnês no Brasil e na Itália, sua segunda “casa”). É uma obra afetuosa, com Toquinho gravado especialmente para o longa, falando para a câmera e tocando palinhas, enquanto as imagens de outrora dele cobrem o filme. Há depoimentos de amigos que relembram parcerias na música com Toquinho, como Ivan Lins, Jane Duboc, Carlinhos Vergueiro e até a icônica cantora italiana que gravou suas canções Ornella Vanoni (falecida no final do ano passado). O violão surge como protagonista, não apenas como instrumento, mas como extensão da identidade de Toquinho, e revela sua habilidade em unir técnica refinada e sensibilidade popular. No filme viajamos com canções do artista que fizeram sucesso, como “Tarde em Itapuã” e “Regra três”, estas em parceria com Vinicius, e “Aquarela”. É um filme simples na forma, na própria edição sem muitos recursos, mas bem intencionado, que celebra merecidamente a vida e a trajetória desse grande músico brasileiro. Está em cartaz nos principais cinemas do país com distribuição da Pandora Filmes.
Nós acreditamos em você
Está na minha lista particular das melhores estreias do ano esse drama belga de forte impacto emocional, dirigido e roteirizado pela dupla estreante Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Recebeu Menção Especial de Melhor Primeiro Longa-Metragem na Berlinale 2025, e agora está nos principais cinemas brasileiros pela distribuidora Filmes do Estação. É uma história tensa que olhar atento aos detalhes, cuja trama acontece integralmente em poucas horas, em uma sala fechada. Ali está Alice, uma mãe que trava uma batalha judicial pela guarda dos filhos após acusar o ex-companheiro de crimes sexuais contra eles (menores de idade). O que deveria ser um processo centrado na proteção das crianças vira do avesso, em um julgamento da própria conduta da mãe, revelando um sistema que fragiliza a vítima. Na sala estão a juíza do caso, assistentes jurídicos, agentes de segurança, advogados e o pai, acusado do crime. A angústia cresce a cada depoimento, e o filme trabalha muito bem esse ponto, com foco na protagonista, interpretada brilhantemente pela belga Myriem Akheddiou, atriz de “O garoto da bicicleta” (2011) e “Titane” (2021). O longa aborda um tema discutido amplamente na sociedade hoje, a violência sexual contra crianças dentro do ambiente doméstico, e trabalha a coragem, a dor e a urgência dessa mãe na tentativa de provar os crimes sobre seus filhos - mas descredibilizada a todo instante pelo olhar da justiça, que duvida de suas palavras. Gravado no formato 4:3 (ou 1.33:1, conhecido por “tela cheia”), tem predominância de primeiros planos, que tornam o filme angustiante e claustrofóbico, aproximando o espectador das expressões e silêncios dos personagens. Conciso em seus 78 minutos de duração, é uma obra séria e competente, que merece ser vista e debatida.
Marsupilami – Confusões a bordo
Comédia de aventura infantil feita na França, o filme estreou nos cinemas no último fim de semana, pela Paris Filmes. É um passatempo (bem passatempo mesmo), tipo uma Sessão da Tarde, para crianças, que mistura atores reais e animação digital. E que resgata um personagem famoso na França, criado em quadrinhos nos anos 50 por André Franquin, o Marsupilami. No passado, Marsupilami ganhou seriado animado, telefilme, e agora é a maior produção sobre ele, dirigido e estrelado pelo comediante Philippe Lacheau. A história acompanha um funcionário de um zoológico que, para salvar seu emprego, aceita transportar secretamente um pacote vindo de um país chamado Palômbia. Ele viaja de cruzeiro ao lado da ex-esposa, do filho e de um colega atrapalhado, e descobrem que estão carregando um filhote de Marsupilami, criatura rara e travessa (uma espécie de marsupial, amarelo, com traços de onça pintada). Só que atrás deles estará uma gangue que quer capturar o animalzinho, dando início a uma sucessão de confusões. É uma história cheia de corre-corre, para crianças pequenas, que conhecerão um novo formato do famoso personagem, agora em computação gráfica (isso o atualiza e dá novos rumos para as antigas histórias de Franquin). Atores franceses conhecidos aparecem no longa, como Jamel Debbouze e Jean Reno. Achei engraçadinho, mas nada além do trivial em filmes desse naipe.
Xica da Silva
50 anos se passaram do lançamento de “Xica da Silva”, filme de enorme bilheteria na época e uma das maiores obras de Cacá Diegues. Agora, o filme histórico retorna para as principais salas de cinema do país em inédita versão restaurada, na Sessão Vitrine Petrobras (da Vitrine Filmes). Clássico realizado pela Embrafilme em plena ditadura militar, o longa que consagrou Zezé Motta volta com recuperação de imagem e som (lembrando que muitos filmes brasileiros em película perderam qualidade com o tempo, e agora as restaurações digitais recuperam cenas perdidas e limpam trechos com ruídos, riscos e problemas técnicos). “Xica da Silva” foi um marco absoluto da cinematografia brasileira; lançado originalmente em 1976, levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas, inserindo uma protagonista preta no centro da história (o que rompia com estereótipos e paradigmas de representação). Sem contar o peso dessa história real, que aborda temas como poder, liberdade, desejo e desigualdade social. Xica da Silva foi uma figura real da História do Brasil Colônia. Nascida Francisca da Silva de Oliveira por volta de 1732 no Arraial do Milho Verde, atual município de Serro, em Minas Gerais, era filha de Antônio Caetano de Sá, um militar português, e de Maria da Costa, uma africana escravizada trazida da Costa da Mina. Durante a juventude, Xica foi propriedade de diferentes senhores, chegando a ter um filho com o médico Manuel Pires Sardinha. Em 1753, foi comprada por João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes representante da Coroa Portuguesa e um dos homens mais ricos da colônia (no filme interpretado por Walmor Chagas). A relação entre os dois transformou sua vida: João Fernandes concedeu-lhe liberdade e manteve com ela uma união estável por cerca de 15 anos, da qual nasceram treze filhos. A partir desse momento, Xica passou a ser chamada de Francisca da Silva de Oliveira e conquistou prestígio e poder em uma sociedade que, em geral, marginalizava pessoas pretas e ex-escravizadas. Sua ascensão social foi notável e controversa: Xica viveu em uma luxuosa residência, frequentou círculos da elite e tornou-se uma figura influente no Arraial do Tijuco (hoje Diamantina). Essa posição incomodava parte da aristocracia branca, que via com resistência a presença de uma mulher negra em espaços de poder e riqueza. Ainda assim, sua história se consolidou como símbolo de mobilidade social e resistência às estruturas raciais e sociais da época. Xica virou parte do imaginário cultural brasileiro, inspirando livros, peças de teatro, música, série e filme, lembrada como “a escrava que virou rainha”. No filme, Cacá Diegues estabelece a historiografia como didática, contando detalhes de sua vida numa interpretação soberba de Zezé Motta. Os figurinos coloridos lembram algo carnavalesco, e a narrativa fluida alternando drama e romance com piadas e humor jocoso se tornam recurso para prender a atenção do espectador. Um filme caro para a época, suntuoso, rodado em lindas locações reais do interior de Minas Gerais, como Diamantina, cuja arquitetura realça o barroco brasileiro (época dos arraias e vilas e a predominância do estilo de casas portuguesas). Jorge Ben compôs a música para o filme, que se tornaria famosa, até hoje cantada. O roteiro de Antonio Callado e de Diegues foi baseado tanto no livro “Xica da Silva”, de João Felício dos Santos, quanto no livro-documento histórico de 1868 de seu tio, o historiador Joaquim Felício dos Santos, “Memórias do Distrito de Diamantina”. No elenco uma série de nomes conhecidos, como Elke Maravilha, Altair Lima, Rodolfo Aren, José Wilker, Stepan Nercessian e Clementino Kelé. Uma preciosidade do cinema brasileiro de volta às telonas.
Miguel Ángel Blanco: As 48 horas que mudaram a Espanha
Documentário investigativo da Netflix, feito na Espanha, sobre o “Caso Miguel Ángel Blanco”, um sequestro seguido de morte que vitimou o jovem político espanhol de 29 anos, cometido pelo grupo separatista basco ETA em 1997. Economista de formação, Blanco era na época vereador do Partido Popular (partido liberal e conservador). Conhecido pela vida simples, era apaixonado por música e esportes. Em julho de 1997, foi sequestrado por membros do ETA, que exigia do governo espanhol a transferência de seus presos para cárceres no País Basco em até 48 horas, sob ameaça de executar Blanco. O ultimato gerou uma onda de protestos pela Espanha inteira, que tomou conta das ruas das principais cidades, com milhões de pessoas que pediam a libertação do político. A mobilização, social e política, era uma tentativa de impedir o assassinato de Blanco. Quando o prazo expirou, o ETA cumpriu a ameaça, baleando o político com um tiro na cabeça. O jovem ficou vários dias no hospital lutando pela vida, gerando nova onda de comoção no país. Na época, o ETA tocava o terror na região – fundado em 1959, o “Euskadi Ta Askatasuna”, que em basco significa "Pátria Basca e Liberdade", assassinou até aquela data 800 indivíduos, como policiais, militares, políticos e funcionários do governo espanhol. O caso de Miguel Blanco tornou-se um divisor de águas na relação da sociedade espanhola com o terrorismo: o país uniu todos os partidos políticos em prol da criação de novas leis para criminalizar o ETA e os atentados terroristas em geral. O que também colaborou para o declínio do grupo separatista, que encerrou a luta armada em 2011 e se dissolveu por completo em 2018. O documentário é composto por vasto arquivo de época, como reportagens de TV e entrevistas, além de depoimentos atuais de pessoas ligadas ao caso. Filme feito com seriedade e ampla pesquisa, tratando como a mídia sensacionalizou o caso, mas também foca no despertar da consciência coletiva em torno de uma tragédia que virou um símbolo de resistência e luta.
Amor tóxico
Outro documentário investigativo da Netflix na linha de true crime, desta vez um complexo triângulo amoroso com inúmeras reviravoltas. Como são três personagens envolvidos em uma imbricada história de casamento, obsessão e manipulação psicológica, é bom prestar bastante atenção para não perder o fio da meada. O caso em questão ocorreu na cidade de Anaheim, Califórnia, entre 2016 e 2021. A história gira em torno de Ian Diaz, um oficial de justiça recém-casado com a esposa Angela Connell, grávida na época, e a ex-noiva dele, Michelle Hadley, que acabou acusada de perseguição (stalker). Tudo começou quando Angela passou a receber emails ameaçadores de um remetente anônimo que se identificava como “Lilithistruth”. As mensagens, algumas obscenas, outras de ameaça de morte, falavam em vingança, num tom perturbador. Angela acionou a polícia duas ou três vezes (e o filme mostra todas as gravações caseiras da época, de celular e câmeras de vigilância internas da casa), porém a situação escalou para uma invasão à casa de Diaz e a tentativa de estupro da mulher. Michelle, a ex, foi acusada dos crimes e presa após minuciosa investigação de que ela estaria por trás do envio dos emails. A mídia a retratou como vilã em uma narrativa de ciúme e vingança. No entanto, uma nova linha de investigação se abriu, descobrindo que o caso era muito mais complexo: tanto Angela quanto Ian atuavam diretamente numa rede de manipulação digital e falsificação de provas, que confundiu autoridades policiais, juízes e, claro, a opinião pública. O documentário, com plot twists absurdos, que parecem ter saaídos de filmes eletrizantes de ação (só que aqui é a vida real), mostra como esse episódio se transformou em um verdadeiro “circo midiático” acusando pessoas injustamente. Fiquei na frente da TV sem piscar, nesse bom documentário da Netflix que instiga e nos faz pensar como a justiça pode ser falha, jogando para a cadeia pessoas inocentes.
Ecos do Teatro Experimental do Negro
A Pandora Filmes lançou nos cinemas no final de semana passado esse grande (e praticamente desconhecido) documentário independente que vale o ingresso (e muito mais a reflexão). “Ecos do Teatro Experimental do Negro” tece um olhar cuidadoso, e com muita pesquisa e entrevistas, sobre os atores e atrizes pretos no palco brasileiro. O filme foca no surgimento do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944 por Abdias do Nascimento, e as históricas encenações mantidas pelo grupo por duas décadas (até 1961). Nascimento foi um artista múltiplo, ator, poeta, escritor, dramaturgo e artista plástico, além de professor universitário, senador e ativista dos direitos humanos. Apesar do temperamento difícil como apontam alguns entrevistados, foi uma das vozes para consolidar a arte negra nos palcos e nas telas, rompendo padrões e estereótipos da época. O TEN virou um marco cultural ao colocar elenco inteiramente negro no centro da cena teatral e transformar o teatro em espaço de afirmação política e estética contra o racismo. O TEN nasceu da indignação de Abdias do Nascimento ao que na época era a naturalização da blackface (um ator branco se pintar de tinta preta para interpretar um personagem negro). A blackface foi um recurso muito utilizado no cinema desde seus primórdios, além da TV e no teatro, levando o TEN a criar um projeto que propiciasse protagonismo a atores negros, bem como sua formação profissional (na época uma das defesas do uso da blackface foi de que haviam poucos atores e atrizes negros, o que de fato existiu mesmo, conforme apontam entrevistados do documentário). O TEN colaborou para a reafirmação da identidade negra e um local para se expandir a conscientização social. Reunia gente comum que queria ser ator: trabalhadores, empregadas domésticas e pessoas sem formação artística, oferecendo cursos de alfabetização e iniciação cultural para que pudessem atuar. Contribuíram para o grupo pensadores e dramaturgos brancos, como Darcy Ribeiro, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues (que escreveu peças para o TEN, como “Anjo Negro”). A primeira peça do TEN ocorreu em 1945, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com “O imperador Jones”, uma peça clássica de Eugene O’Neill, tradicionalmente feita por brancos, só que agora por um elenco negro (citado no filme). No documentário vemos nomes ligados ao TEN, como Ruth de Souza e Léa Garcia, que se tornariam grandes atrizes do país. Outros entrevistados contam a influência do TEN em suas carreiras, como os veteranos atores Zezé Motta e Milton Gonçalves, a poetisa Leda Maria Martins, o cineasta Joel Zito Araújo e nomes da TV e do cinema atuais, como Taís Araújo, Lázaro Ramos e Ailton Graça. Daqueles filmes para sair pensando e olhar como as artes evoluíram de meio século para cá na questão racial (mesmo sabendo que ainda há muito a ser construído para se chegar à igualdade social).
A fabulosa máquina de colher ouro
Interessantíssimo documentário independente chileno dirigido por Alfredo Pourailly que está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital. Rodado em 2024, traz denúncia social e poesia visual para narrar a vida de Toto, um garimpeiro de 60 anos que vive na Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina. Ele trabalhou por mais de 40 anos nas minas de ouro no pé de uma montanha andina em condições duríssimas, sem direito à seguridade social; hoje, debilitado pela idade e pelo esforço físico, percebe que sua sobrevivência está sob ameaça. Seu filho, Jorge, um jovem vaqueiro, planeja a construção de uma máquina artesanal, com sucata, capaz de colher ouro com mais eficiência. O rapaz modela a máquina no computador, faz esboços, recolhe peças antigas e sucatas e cria uma espécie de colheitadeira que escava as pedras e retira o ouro – símbolo de esperança e futuro para uma região perdida. O pai adoece, parece estar em seus dias finais, mas acredita que viverá um tempo trabalhando com o filho na nova máquina de colher ouro. O doc denuncia o trabalho extenuante e a precariedade social enfrentados por trabalhadores em lugares remotos, ao mesmo tempo que celebra a resiliência e a criatividade popular. A máquina criada pelo vaqueiro não é apenas uma solução prática: ela se torna metáfora de dignidade, sobrevivência e reinvenção da vida. Mostra o dia a dia daquela família no meio do gelo, um vínculo terno entre pai e filho, que se torna o motor da narrativa, mostrando como o cuidado familiar pode substituir políticas públicas ausentes – e na visão de Jorge como o empreendedorismo sustentável pode transformar realidades cada vez mais apagadas. O documentário chileno traz ainda ricas paisagens da Terra do Fogo, cercada por geleiras e os Andes, com uma atmosfera melancólica, porém poética. Premiado no Festival de Guadalajara, o filme foi exibido em importantes festivais de cinema documentário, como Hot Docs no Canadá, IDFA na Holanda e Doc NYC nos Estados Unidos.
Não sei viver sem palavras
Estreia hoje nos cinemas pela Bretz Filmes esse documentário sobre um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira do século XX, o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Nascido no interior de São Paulo, em Araraquara, Ignácio, prestes a completar 90 anos, relembra fatos notáveis de sua longa trajetória no mundo da escrita - de jornalista perseguido na Ditadura Militar a cinéfilo de carteirinha (seu sonho sempre foi ser diretor de filmes e acabou sendo crítico de cinema), marcou gerações de leitores com seus romances e contos que retratavam as complexidades do Brasil e da terra que adotou, São Paulo. Sentado no escritório de trabalho, ele revira a gaveta de fotos e arquivos pessoais para o filho, André Brandão, que é o diretor do filme – são memórias de família, da saudade da cidade natal, do medo da repressão na Ditadura, de quando, por um triz, não morreu quando descobriu um aneurisma cerebral e das inspirações que o levaram a lançar livros reveladores na década de 70, como ‘Zero’ e ‘Cadeiras proibidas’. E também vemos um Ignácio fazer um mea-culpa sobre a ausência como pai na criação dos filhos, já que se entregou inteiramente no ofício de escrever. Exibido no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP de 2025, o longa é bem narrado, com puro lirismo, em que o público é levado a decifrar os labirintos da mente de um genial escritor.
A fabulosa máquina do tempo
Sensação no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo. Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto-piloto “Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento básico e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na mente e, numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo que as transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das meninas, todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e folclore, intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um futuro próximo. Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado pela seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem como do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As imagens são carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as locações em Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. Assisti na Berlinale desse ano, e para mim foi um dos melhores filmes do Festival. Também foi exibido no “É Tudo Verdade” 2026 e estreia hoje nos principais cinemas brasileiros pela Descoloniza Filmes.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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