Teorema: Tudo em Família

Lançado há praticamente 50 anos, Teorema (Teorema, 1968) é um primoroso exemplo do cinema engajado e evangelizador de Pasolini

29/12/2017 09:05 Por Jorge Ghiorzi
Teorema: Tudo em Família

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Cineasta intelectualizado, com fortes posições políticas de embate contra o fascismo e o capitalismo, o italiano Pier Paolo Pasolini (1922 – 1975) fez de sua obra cinematográfica uma plataforma de divulgação de sua visão de mundo e dos mecanismos que movem a sociedade ocidental. A origem proletária, a formação marxista e a sensibilidade para a poesia e os livros sempre estiveram de alguma forma presentes em seus filmes, quase todos a serviço de um discurso político.

Lançado há praticamente 50 anos, Teorema (Teorema, 1968) é um primoroso exemplo do cinema engajado e evangelizador de Pasolini. Este drama social foi construído sob uma perspectiva de classes sociais, a partir da crise de identidade de uma família burguesa, símbolo de um modelo de capitalismo que chegava ao esgotamento na segunda metade dos anos 60.

Acostumada a usufruir as benesses do conformo material, a família em questão entra em colapso com a entrada de um elemento estranho na rotina da casa. Tal um vírus que corrompe a integridade do tecido social das relações familiares, um hóspede inesperado (Terence Stamp) chega à mansão e se incorpora naturalmente na rotina de todos. Nada sabemos sobre ele, nem as razões de sua chegada. Mas os efeitos da sua passagem são transformadores para o futuro de todos.

Em Milão a rica família burguesa formada pelo empresário Paolo (Massimo Girotti), a esposa Lucia (Silvana Mangano), os filhos Pietro (Andrés José Cruz Soublette) e Odetta (Anne Wiazemsky, na época musa e companheira de Jean-Luc Godard, cuja relação foi retratada no longa-metragem O Formidável) e ainda a empregada Emilia (Laura Betti), é totalmente alterada com a chegada de um misterioso visitante. Um a um todos são seduzidos pelo estranho, que desperta sentimentos reprimidos, particularmente os desejos de ordem sexual. Em seus contatos individuais com os membros da família todos se redescobrem e passam a encarar a vida sob uma nova perspectiva, distantes do tédio existencial no qual estavam mergulhados.

Poucos dias depois, tão inesperadamente quanto chegou, o estranho visitante parte e deixa a família. E nunca mais eles serão os mesmos. Suas existências foram irremediavelmente alteradas. O que antes era um tédio existencial, se transforma então em desconforto existencial. Ninguém mais cabe na vida que vivia anteriormente. Cada um busca a solução de suas angústias trilhando seu próprio caminho de descoberta. O empresário entrega a fábrica aos empregados, se despe de todos os bens – a própria roupa inclusive - e vaga nu pelo deserto. A mãe sucumbe aos desejos da carne fazendo sexo aleatório com jovens que encontra pela rua. O filho surta e passa a pintar quadros abstratos com fezes e urina. A filha fica catatônica sobre a cama, sem falar nem se comunicar com ninguém. E a empregada doméstica, em delírio religioso, retorna para sua vila de origem assumindo a condição de santa milagreira.

O visitante é o elemento desagregador que embaralha a “ordem natural das coisas”, como diz um personagem a dado momento. O processo de “revelação” que provoca nos integrantes da família os leva a revisar valores e dogmas aos quais estavam submetidos. O processo de conversão do visitante se dá tanto por estímulos intelectuais – uso da palavra – quanto por estímulos sexuais – a sedução despudorada do corpo, disponível igualmente para o prazer de homens e mulheres. Não são gratuitos, portanto, os enquadramentos da fotografia que sempre privilegiam a zona genital do visitante sedutor. A narrativa em essência explora os conceitos de Eros (pulsão de vida) e Thanatos (pulsão de morte), os instintos fundamentais do comportamento, segundo Sigmund Freud. Em Teorema Pasolini propõe a necessidade de uma volta à essência do ser humano, literalmente despidos dos valores burgueses, ou religiosos, que foram se acumulando ao longo do tempo.

Assista o trailer: Teorema

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Sobre o Colunista:

Jorge Ghiorzi

Jorge Ghiorzi

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Marketing. Redator, roteirista e produtor de eventos culturais. Editor da publicação “Cine Guia Preview” (1995 – 2000) e do newsletter “Cine Guia Preview” (2009 – 2011). Produtor do Festival de Cinema de Gramado por 17 anos. Colaborou com críticas de cinema para jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já publicou textos de cinema em diversos blogs e sites, como “Papo de Cinema”, “Facool” e “Movi+”, e também para a revista “Voto”. Criou a produtora cultural “Cine UM”, em 2009, que desenvolve uma programação de cursos livres de cinema em Porto Alegre e no interior do estado. Contato: jghiorzi@gmail.com

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