O Ensaio Rebelde de Santiago

Silviano Santiago é um crítico literário que apresenta a inquietude como rebeldia

01/02/2018 07:52 Por Eron Duarte Fagundes
O Ensaio Rebelde de Santiago

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Silviano Santiago é um crítico literário que apresenta a inquietude como rebeldia. E é este dado, que propõe um traçado que vai da inquietude à rebeldia, que produz nos textos dele pensamentos originais e densos, uma forma nova de conduzir a leitura de livros. Então, Genealogia da ferocidade; ensaio sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (2017), propõe um diálogo libertário com a avalancha linguística do sertão rosiano em que o holofote é a própria crítica anterior sobre o romance e que, no dizer de Santiago, o mais das vezes buscou adestrar uma selvageria tipicamente brasileira, associando-a, meio tortamente, a evocações europeias ou outros mitos ainda mais arcaicos. Sem desfazer na acuidade de muitas destas dissertações, Santiago monta o seu próprio Guimarães Rosa, o seu próprio sertão rosiano, um cavalo à parte do que é domado habitualmente, embora também tenha sua própria doma.

No parágrafo que abre o capítulo “Domesticação”, Santiago anota: “Grande sertão veredas também questiona o estudioso das letras brasileiras na sua vontade de dar prosseguimento ao já lido, levando-a repensar concomitantemente nosso acervo. Dessa forma também é que ele compreenderá mais ampla e lucidamente as obras literárias a serem lidas.” A palavra —a minha, a de Santiago, a de outros —inevitavelmente vai esforçar-se por domesticar certas emoções; o que artistas como Rosa e depois um ensaísta como Santiago fazem é tentar liberar o verbo da domesticação que o envolve. Em sua autoteoria destas ideias sutis sobre a forma como acurados estudos põem cabrestos ocultados nas filigranas mentais, Santiago erige seu grito crítico liberador, cheio de uma aura nova à altura de seu objeto de visão, “algo que desnorteia e encanta”, como ele escreve sobre a prosa de Guimarães Rosa.

Com rara argúcia, o ensaísta mineiro capta a entranha daquilo que é, ficcionalmente, construído por seu patrício romancista. “O romance de Rosa manuseia dicionários reais e estapafúrdios, pessoais e imaginários e, em sintaxe travessa e com pontuação anárquica, esparrama perdulariamente palavras, tocos de palavras e interjeições onomatopaicas pela página em branco.”

Ao enfrentar o tecnicismo crítico, inclusive o seu, do qual ele se aparta quando assomam luminosos clarões duma poética do pensamento, Santiago faz a proposta duma nova leitura de Grande sertão: veredas (1956), capaz de evitar “envelopar a potência selvagem do texto fluvial de Rosa”, uma instância complexa em que o leitor permite deixar-se ir no caudal d’águas que é o romance de Rosa, uma coisa complicada de fazer quando se quer compor em palavras as evocações que um livro traz. Rosa, muitas vezes se tem a impressão, escreve com o instinto e o estômago atravessados pelos conhecimentos cerebrais; o escritor vai em fluxo, e quer convidar o leitor a fazer o mesmo. Pode-se pensar em algumas coisas do francês Jacques Derrida, que em Da gramatologia (1967) anotou: “O signo mudo é signo de liberdade quando exprime no imediatez.”. O imediato é o que vem do instinto, do inconsciente. Derrida é citado em algumas passagens do ensaio de Santiago. Que, em alguns momentos, o próprio autor chama prefácio; assim como Rosa chamou a alguns ensaios-conto de Tutameia (1967), sua obra-testamento, prefácios; seria o uso do vocábulo prefácio, ali, por Santiago uma citação ou alusão enviesada? “Não é o caso de retomar análises retóricas já feitas neste prefácio, mas, em caso de dúvida do nosso leitor, remeter a elas.”

Para recomeçar Guimarães Rosa, para o revisitar, deixar de lado as velhas análises retóricas é um ponto de partida sem retomadas: uma outra tomada de posição, na verdade. Silviano desfaz a antiga crítica para reedificar um ponto de vista crítico que um pouco mimetize a obra de arte analisada. Esta genealogia do feroz que Santiago investiga vai ao sertão de Rosa, que é pura linguagem, e, ainda que a língua do crítico seja bastante urbana, extrai a imagem autêntica do que o ensaísta cognomina “beleza selvagem”, que é onde se assenta mesmo a genealogia desta brutalidade remota que vem da figura-caatinga que é o jagunço nordestino brasileiro.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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