RESENHA CRÍTICA: Oito Mulheres e um Segredo (Ocean´s 8)

O filme é bem divertido, bem fotografado e se começa devagar vai crescendo e melhorando chegando a uma conclusão muito simpática e bem sucedida. Divirtam-se!

06/06/2018 18:08 Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CRÍTICA: Oito Mulheres e um Segredo (Ocean´s 8)

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Oito Mulheres e um Segredo (Ocean´s 8)

EUA, 18.1h50min. Direção de Gary Ross. Roteiro de Ross, Olivia Milch. Argumento de Ross, George Clayton Johnson, Jack Golden Russell. Com Sandra Bullock, Griffin Dunne, Anne Hathaway, Cate Blanchett, Elliot Gould, Richard Armitage, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling, Rihanna, Dakota Fanning, Awakafina, Sarah Paulson, John Corden, Marlo Thomas, Dana Ivey, Elizabeth Ashley, Katie Holmes, Kendall e Killie Jenner, Kim Kardashian West, Jaime King, Adriana Lima, Olivia Mann, Carl Reiner. Steven Soderbergh assina como um dos produtores. Cotação: tres e meia.

No momento em que ainda prossegue com toda força o movimento feminista da igualdade contra os abusos sexuais e a favor da igualdade, o chamado “Me, Too” parecia uma boa ideia fazer uma trama policial sofisticada que demonstraria que as mulheres não ficam nada a dever aos homens, mesmo quando se trata de roubo, assalto e coisas do gênero. Então o filme é antes de tudo uma réplica chique, já que as mulheres são sofisticadas e no caso do elenco altamente diferenciadas e empoderadas, alternando-se todo tipo de atrizes, de cantoras, humoristas e premiadas com o Oscar. Seria possível que o brasileiro se oponha a um filme como este que glorifica o roubo e a corrupção, temas com que a gente convive diariamente?

De qualquer forma, este é o quarto filme de uma série que começou com Frank Sinatra e sua turma (chamada de clã pela imprensa) e que eventualmente ajudou muito no desenvolvimento da Máfia em Las Vegas (vendo-se o original hoje ele envelheceu mal, revelando a preguiça de Sinatra em fazer algo mais sofisticado e esperto). As três continuações seguintes foram comandadas por George Clooney e seus amigos, em particular o diretor Steven Soderbergh e foram mais inteligentes, sofísticas e sofisticadas, não se levando muito a sério. Mas quem é o atual responsável chamado Gary Ross (e cabe a pergunta se estão tão preocupadas com a presença feminina porque as estrelas não escolheram também uma mulher diretora para assumir o projeto? Foi uma falha feia). Enfim, Ross é filho de roteirista, foi indicado a 4 Oscars e teve seus sucessos em textos (Quero ser Grande, Jogos Vorazes, o inteligente A Vida em Preto E Branco que também dirigiu, Dave Presidente Por Um Dia) e depois como realizador (Jogos Vorazes, Seabiscuit, e o mal sucedido Um Estado de Liberdade, Free State Jones, 16, o que não é bom sinal). O filme tem também alguns convidados especiais e três atores dos anteriores, no caso, Elliot Gould, Carl Reiner e estreou na data que comemora 11 anos do Ocean´s Thirteen (Treze Homens e um novo Segredo). Matt Damon também estaria creditado no IMDB, mas não consegui vê-lo, suponho que ocorreu o pior, que ele tenha sido cortado por ousar defender o Weinstein...

Enfim, o pior é que andei lendo as críticas americanas e quase todas são negativas e desagradáveis. Como só eles e os aspirantes a críticos são capazes de fazer. Verdade que o diretor não está no auge da forma e poderia ter realizado tudo com mais humor e brilho. Mas o filme é bem divertido, bem fotografado e se começa devagar vai crescendo e melhorando chegando a uma conclusão muito simpática e bem sucedida. Uma coisa importante, nada tem a ver com os nossos políticos ladrões, até porque é um filme de vingança, ladrão que vence ladrão, ou seja, criam um plano muito esperto e inteligente para derrubarem aqueles que lhe fizeram mal noutro momento. Nada a ver com ladrões de casaca como os muitos que circulam entre nós. Além de demonstrar que as mulheres podem ser super inteligentes e armarem uma cilada inteligente como a que domina a parte final (o George Clooney aparece em foto e supõe-se que ele morreu e seu túmulo poderia ser apenas invenção). Tem partes saborosas que eu curti como o uso de temas musicais antigos (por exemplo, o tema de Dr. Jivago e Nancy Sinatra cantando a velha e clássico My Boots are made for Walking!), a aparição num flash back muito eficiente de um oriental que vem surpreender (nada de spoiler).

Não concordo de quem reclamou da inglesa Helena Bonham Carter que faz uma decadente criadora de modas que acaba entrando no jogo de roubar os diamantes do Cartier (que olha só assumem o nome da loja e produto!). Helena faz tudo num tom de caricatura bem engraçado e acho que ajuda a equilibrar muito o filme, porque quase todas as outras heroínas são discretas mesmo quando se tratam de cantoras famosas, Rhianna é bonita e delicada, mas funciona mais como decoração, a oriental Awakafina é mais tipo que atriz e na verdade, quem se sai melhor interpretando com ironia e momentos inesperados é Anne Hathaway.

Não adianta falar muito da trama, porque é uma aventura policial com surpresa que vai crescendo e consegue ter um final inesperado e adequado. Acho curioso que as duas protagonistas Sandra Bullock (que até fala alemão porque a mãe dela era uma cantora alemã!) estejam discretas, em particular a charmosa de sempre Cate Blanchett de “anjo azul” (somente os muito mais velhos notarão que ela fez um tipo May Britt, alemã que estrelou esse filme homônimo e foi mulher de Sammy Davis, um escândalo na virada dos anos 50 porque ele era negro etc e tal). Aqui as duas usam um tipo de maquiagem extremamente pesado e aparentam não se dão bem, falta empatia e cumplicidade entre elas. Minha presença favorita é quase no final do filme, quando surge o gordinho simpaticão britânico, também apresentador de televisão, John Corden que dá um exemplo perfeito de como se interpretar comédia. Um mestre!

Enfim, apesar de não ser um grande filme esta quarta aventura consegue ser uma diversão adequada e até chique (não se esqueçam que grande parte do filme transcorre num museu chiquérrimo de Nova York, o Metropolitan !). Divirtam-se.

 

 

Oito Mulheres & Um Segredo (Mais diversão ainda)

Por Adilson de Carvalho Santos

Para o escritor Machado de Assis, o conto do Vigário, aquela expressão que aponta um golpe de esperteza, é o mais antigo gênero de ficção. Afinal não se pode esquecer também o que nos ensinou o malandro “Macunaima”! No cinema o tema é apesar de tudo um dos mais divertidos, já tendo rendido diversas pérolas explorando a arte de passar a perna em alguém e estabelecendo uma empatia instantânea com o público. Sem esquecer o Pedro Malazartes figura lendária brasileira apresentada na tela por Mazzaropi. Agora é a vez de Sandra Bullock à frente de um elenco de Divas, mas a semente desse golpe começou há muito tempo.

 Uma das mais memoráveis foi o “Onze Homens & Um Segredo” (Ocean´s Eleven, 60) dirigido por Lewis Milestone em 1960. Este reunia pela primeira vez nas telas o chamado “Rat Pack” liderado por Frank Sinatra e composto por sua turma de amigos Dean Martin, Sammy Davis Jr, Joey Bishop e até Shirley MacLaine, entre outros. O chamado clã revelava nas telas a imagem boêmia dos palcos de Las Vegas, onde divertiam o público com canções e piadas. Sinatra, que tinha uma velada relação com a Máfia, usa essa imagem para fazer de Danny Ocean um golpista simpático disposto a assaltar cinco cassinos na Las Vegas no que foi o começo da ainda hoje lendária cidade capital do jogo.

A ocasião não faz o ladrão, mas certamente faz o roubo, então por que não chamar um grupo de amigos e roubar um cofre com o dinheiro de três cassinos pertencentes ao milionário Terry Benedict (Andy Garcia). Assim se desenrola a segunda versão de “Onze Homens & Um Segredo” (2001), reunindo George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Bernie Mac, Don Cheadle (Máquina de Combate nos filmes da Marvel) e os veteranos Carl Reiner e Elliot Gould. O toque feminino é dado pela presença de Julia Roberts que faz Tess, a ex-mulher de Danny Ocean, que no início do filme, está envolvida com o antagonista da trama. O filme triunfou com o público e crítica, sendo indicado a vários prêmios e faturando acima do dobro de seu orçamento estimado em torno de US$ 85 milhões. (Spoiler) Mas os tempos mudaram, enquanto no original, a trupe de Sinatra perdia todo o dinheiro incinerado no caixão de um de seus homens enquanto Clooney e sua quadrilha embolsam uma pequena fortuna.

 Três anos depois, Benedict (Andy Garcia) caça a gang de Danny Ocean (Clooney) exigindo a devolução do dinheiro roubado, com juros, em “Doze Homens & Um Segredo” (2004). Mas gritar “pega ladrão!” não deixa um, deixa onze planejando outro golpe na Europa a medida que são perseguidos por uma agente da lei interpretada pela bela Catherine Zeta-Jones que vem seguindo os passos do grupo de Rusty (Brad Pitt) com quem se envolveu romanticamente. A narrativa destaca locações em Amsterdam, Paris e Monte Carlo, ao som de uma sofisticada trilha sonora que inclui “L’Appuntamento”, versão em italiano de “Sentado à Beira do Caminho” de Roberto Carlos. O clima de diversão “entre amigos” inclui Bruce Willis como ele mesmo, e ironicamente introduzindo Tess como Julia Roberts. O 12º homem do bando é o ator francês Vincent Cassel, que faz um milionário que atende pela alcunha de “Raposa Noturna” ( Cassel é freqüente no Brasil, participando de vários filmes daqui e falando nosso idioma).

Cumprindo a máxima que diz “Ladrão que rouba de ladrão...” chega-se a “Treze Homens & Um Segredo” (2007). Desta vez o bando se reúne para contra o gangster vivido por Al Pacino, que engana Reuben (Elliot Gould), integrante da gang de Ocean, que por isso sofre um enfarte. A história explora o senso de camaradagem entre os simpáticos vigaristas em busca de vingança, levando a uma aliança inusitada quando Benedict (Garcia) torna-se o 13º homem. A produção recriou um cassino todo em estúdio com detalhes e sofisticação, e o resultado nas bilheterias não foi decepcionante, embora Soderbergh e Clooney tenham se oposto a um quarto capítulo.

A fórmula de sucesso desses filmes é a ideia de um engenhoso golpe idealizado e praticado por escroques charmosos, modernos Robin Hoods que ignoram as leis, subvertem as convenções de certo e errado. Como não lembrar de Aldo Vanucci (Peter Sellers), outra notória raposa de “O Fino da Vigarice” (After The Fox), de Vittorio De Sica que dizia “Se ao menos eu pudesse roubar o suficiente para me tornar um homem honesto!”. Essa refinada ironia é o tom recorrente em filmes como “Os Sete Homens de Ouro” (Il Grande Golpo dei 7 Uomini D’Oro) de 1965, “Um Golpe à Italiana” (The Italian Job) de 1969, ou o excelente “Golpe de Mestre” (The Sting) de 1973. Tivemos ainda o brasileiro “Assalto ao Trem Pagador” de 1962, do saudoso e recém falecido diretor Roberto Farias, baseado em um fato real: O roubo do pagamento da Estrada de Ferro Central do Brasil ocorrido em 1960, pela gang liderada pelo temido Tião Medonho (Eliezer Gomes). Três anos depois a vida imitou a arte na Inglaterra onde um trem com pagamentos foi roubado por 15 homens que levaram 2,6 milhões de libras esterlinas, tendo um deles, Ronald Biggs se refugiado no Brasil por mais de 30 anos.

Agora o espaço é maior para as mulheres e já existem rumores de uma refilmagem de outra pérola do gênero “Os Safados” (Dirty Rotten Scoundrels) de 1989 que seria estrelado por Rebel Wilson e Anne Hathaway, sendo que esta integra o elenco de “Oito Mulheres & Um Segredo” (2018). A gang traz Cate Blanchett, Helena Bohman Carter, Sarah Poulson, Mindy Kaling, a cantora Rihanna e a rapper Awkawafina, lideradas por Sandra Bullock, cujo personagem é irmã de Danny Ocean. O diretor Gary Ross (Jogos Vorazes) aproveita as participações de Carl Reiner e Matt Damon para fortalecer a conexão com os filmes anteriores. Tantos talentos reunidos servem ao empenho de belas golpistas em roubar um colar de diamantes valiosíssimo exibido em evento no MET (Museu Metropolitano de Arte).

São oito beldades, inteligentes, ardilosas, espertas, impostoras, sedutoras, deliciosamente burladoras e desonestas, em resumo maravilhosas. As únicas regras são “roubar de quem merece”, “não ferir ninguém” e “divertir a todos”. E desta vez são as mulheres que mandam... como afinal está na moda!

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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