Quatro Mulheres em Vermelho

Gritos e Sussurros é um poema sobre mulheres e seus segredos escapam por meio do que os médicos chamam de ataques de histeria

18/07/2017 13:26 Por Bianca Zasso
Quatro Mulheres em Vermelho

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Há filmes que doem, que calam fundo na alma. E não falo de amores que acabam bruscamente ou de mortes violentas. Hollywood pode fazer os mais inocentes acreditarem que apenas a dor de amor destrói, mas somos muito mais complexos e nossos medos e angústias se escondem nos mais inesperados motivos e transbordam quando menos se espera. Se havia algo que o sueco Ingmar Bergman sabia era criar personagens que tinhas gatilhos acionados pelo insólito.

As três irmãs de Gritos e Sussurros, interpretadas por Harriet Andersson, Ingrid Thulin e Liv Ullmann, jamais serão compreendidas por completo. Críticos, psicólogos e curiosos já tentaram escrever diagnósticos herméticos sobre elas, baseados em suas cores, formas e gestos. Deve ser doce a ilusão de quem acredita que pode desvendar a poesia. Gritos e Sussurros é um poema sobre mulheres e seus segredos escapam por meio do que os médicos chamam de ataques de histeria. Agnes (Andersson) tem uma doença que lhe causa dor física. Serão apenas células em desequilíbrio, órgãos cansados de trabalhar? Seus gemidos são mais que ato automático. Dentro de cada um deles há algo não dito, um toque que ficou apenas na vontade. Nenhum remédio criado pela ciência parece acalmá-la, apenas o colo de Anna, a empregada responsável pelos cuidados da casa e da enferma. E Anna, uma interpretação sutil de Kari Sylwan, busca mais que apenas ajudar. Um colo dividido, todas querem alento.

As mudanças de cenas em vermelho, cor também presente nas paredes opressoras da casa assombrada por silêncios, é mais que simbólica. Cada personagem tem o seu momento de flashback, lembrando tanto os fatos como os desejos. Nossa mente pode enganar. Ou nós nos enganamos para sobreviver. Bergman criou um roteiro que pode ser desfrutado apenas como narrativa, mas que basta estar um pouco mais sensível para que uma nova história se desvele. Ullmann, no auge da beleza, interpreta a mais sedutora das irmãs, sempre disposta a conquistar os homens e escondendo nos olhares furtivos sua verdadeira vontade. Quer todos porque sabe que não pode ser de nenhum, nem do marido.  Do outro lado, Thulin encarna a seca Karin, que não aceita o toque, mas que escolhe introduzir um caco de vidro na própria vagina. O medo da entrega enlouquece.

A câmera próxima, que na tela grande não deixam que o espectador desvie o olhar das mulheres de Bergman, é escolhida para sufocar. Mesmo de olhos fechados, os berros e as respirações profundas perseguem. Temos um sueco que vê magia no mundo mesmo nos seus terrenos mais secos. A oportunidade de ver uma obra como Gritos e Sussurros em versão restaurada numa das salas de cinema mais bonitas do Brasil, a Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, seria a oportunidade de descobrir detalhes que só na sala escura se mostram. Mas o que era para ser uma revisão para garantir a escrita de uma crítica, tornou-se uma experiência intensa para alguém que chegou aos 30 anos e já não consegue ser mera observadora das três irmãs e sua acompanhante íntima. Não sei se é sororidade ou apenas um corpo mais sensível aos próprios pecados. Bergman me desconcerta. Minha crítica só reflete isso.

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Sobre o Colunista:

Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Durante cinco anos foi figura ativa do projeto Cineclube Unifra. Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Ama cinema desde que se entende por gente, mas foi a partir do final de 2008 que transformou essa paixão em tema de suas pesquisas. Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands. Como crítica de cinema seu trabalho se expande sobre boa parte da Sétima Arte.

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