RESENHA CRÍTICA: Pequeno Segredo
A verdadeira razão de ser do projeto é conquistar o espectador pelas lágrimas. Mas é o nosso ndicado ao Oscar deste ano...
Pequeno Segredo
Brasil, Nova Zelândia, 16. Direção de David Schurmann. Com Julia Lemmertz, Marcello Anthony, Maria Flor, Fionulla Flanagan, Erroll Schand, a menina Mariana Goulart, Thomas Silvestre, Michael Wade, Ryan James.
Já houve muitos filmes sobre Aids, nos últimos vinte anos, europeus e americanos, inclusive o recente e premiado The Normal Heart, 14, que desmistificava o assunto. São em geral penosos para o espectador, porque quase todo mundo perdeu algum parente ou amigo nessas condições. Situação essa que deixou de ser tão urgente, já que houve evolução se não na cura, pelo menos em paliativos. Atualmente (e infelizmente) a doença não é levada tão a sério e, por tabela, o mesmo sucede com este filme nacional que tem a tarefa ingrata de abordar o tema que além disso já foi mencionado (ainda que sem profundidade), no bom documentário O Mundo em Duas Voltas (07), que abordava o assunto ao retratar as viagens de iate/barco que a família Schurmann dava a volta ao mundo em um veleiro, muito popular porque rendeu programa semanal no Fantástico da Rede Globo. E aí já chegamos à conclusão, o anterior, também assinado pelo David, de Santa Catarina e membro da família, era melhor, mais movimentado, com melhor roteiro e estrutura (aqui com frequência a história fica confusa, muita coisa perde a emoção também porque há muitos diálogos em inglês - é coprodução com a Nova Zelândia) e ainda por cima carrega o peso de ter sido oficialmente indicado pelo Brasil para o Oscar de filme estrangeiro. Uma resolução ainda mais polemica quando o favorito parecia ser o Aquarius, que foi e continua a ser o preferido da crítica (não cabe aqui entrar no affair, já que Aquarius está pagando o preço de ter feito manifestação contra o governo de Temer, no Festival de Cannes!). Embora Aquarius tivesse mais chance de ser lembrado no Oscar e Globo de Ouro -os votantes adoram Sonia Braga! - e seja realmente um melhor filme.
Embora tenha uma delicada trilha musical (quase toda em piano), de Antônio Pinto, dando a impressão de que tentou tudo para dar um pouco de vida ao filme que não é um documentário. O roteiro comete bobagens (por exemplo, Marcello Anthony que tem personagem importante faz uma figuração praticamente muda!). Também procura ser discreto no drama trágico, quando na verdade, esta seria a verdadeira razão de ser do projeto, conquistar o espectador pelas lágrimas.
A diferença de quase todos os outros filmes que abordam a temática é que aqui a moça (paranaense) feita por Maria Flor (sempre encantadora) sofre atropelamento é fica contaminada pelo vírus da Aids por causa de transfusão de sangue. Ela tenta impedir que a filha sofra do mesmo mal assim como o marido neozelandês. Todos condenados a morte. Só que a menina Kat embora carregue o vírus, é sempre radiosa e feliz (o diretor até arranja uma dança de fadinha para ela, que mergulha já na fantasia, até porque a menina não convence como bailarina).
Enfim, o dilema se resume no fato de que gostaríamos de apoiar um filme com essa temática mas esbarra-se na trama mal alinhavada, história mal contada. Embora Julia Lemmertz se esforce muito, nem ela como mãe adotiva da criança consegue amarrar o resultado – eles se conhecem numa das viagens e se tornam muito amigos, passando a cuidar da menina. Na verdade, o foco central da história e a figura mais marcante é uma excelente atriz irlandesa, Fionulla Flanagan, que no papel da avó legitima (mãe do pai) praticamente rouba o filme. Fionulla é maravilhosa e já fez mais de 123 trabalhos em teve e cinema (Os Outros, Sim Senhor, Quatro Irmãos, Transamérica, Lágrimas do Sol, A Fortuna de Ned, Divinos Segredos).
Não acredito porém que o filme venha a seduzir a Academia.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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