EM DVD: Especial Gene Hackman

Cinco filmes para relembrar a carreira do premiado ator Gene Hackman, que faleceu na semana passada aos 95 anos.

06/03/2025 04:33 Por Felipe Brida
EM DVD: Especial Gene Hackman

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Especial Gene Hackman
Cinco filmes para relembrar a carreira do premiado ator Gene Hackman, que faleceu na semana passada aos 95 anos. Disponíveis em DVD.
Havaí   No início do século XIX, o missionário Abner Hale (Max Von Sydow) e a esposa Jerusha Bromley (Julie Andrews) viajam ao Havaí para se aproximar dos nativos e cristianizá-los. Com o passar dos dias, enfrentarão resistência daquela comunidade, que não aceita imposições do povo branco. A ida do casal até a ilha terminará em uma tragédia.   Um épico dos anos 60 que custou caro para os padrões de cinema da época e hoje caiu no esquecimento, estrelado pelo sueco Max Von Sydow, que vinha dos filmes de Ingmar Bergman, e aqui seria seu terceiro trabalho nos Estados Unidos – antes ele interpretou Jesus Cristo em ‘A maior História de todos os tempos’ (1965), e Julie Andrews, logo após os sucessos de ‘Mary Poppins’ (1964) e ‘A noviça rebelde’ (1965). É um drama sobre choque cultural, com uma bonita fotografia e longuíssima duração, baseado no livro homônimo de James A. Michener, escritor conhecido pelas sagas em territórios exóticos – é dele outro livro famoso que virou filme oscarizado, ‘Sayonara’ (1957), com Marlon Brando. A história se passa em 1820, no Havaí, um arquipélago isolado do Pacífico, habitado por nativos descentes de polinésios, 140 anos antes de se tornar um estado americano. Chega ao território um missionário religioso com a esposa, para catequizar aquele povo. O casal, distante de sua terra natal e deslumbrado pelos rituais ali praticados, encontrará dificuldades em seguir a missão. Juntos deles estarão um capitão da Marinha, Rafer Hoxworth (Richard Harris), que com o tempo iniciará conflitos com o casal, e um médico bondoso, Dr. John Whipple (Gene Hackman). Apesar das diferenças, o reverendo e a esposa conseguem uma aproximação dos nativos por meio da chefe-maior do reino do Havaí, Malama Kanakoa, chamada de ‘Ali-i Nui’ (Jocelyne LaGarde), uma espécie de rainha, tratada com toda pompa pelos súditos. Com o passar das semanas, uma crise inesperada irrompe entre os nativos e os brancos. O filme recebeu sete indicações ao Oscar: melhor atriz coadjuvante (para a polinésia Jocelyne LaGarde, que só fez esse filme e nunca mais atuou, e pelo trabalho ganhou o Globo de Ouro), fotografia, figurino, som, efeitos especiais, canção e trilha (muito boa, de Elmer Bernstein, que também ganhou o Globo de Ouro). O missionário, interpretado por Sydow (que concorreu ao Globo de Ouro), foi inspirado no verdadeiro reverendo Hiram Bingham (1789-1869), um protestante norte-americano que liderou expedições ao Havaí para levar o cristianismo para a ilha e lá viveu 20 anos com a esposa. O roteiro é de Dalton Trumbo, perseguido pelo Macarthismo, que o escreveu ao lado de Daniel Taradash, e a direção é de George Roy Hill, que depois faria dois clássicos contemporâneos, ‘Butch Cassidy’ (1969) e ‘Golpe de mestre’ (1973). Rodado em boa parte no Havaí, o drama teve uma continuação bem inferior em 1970, ‘O senhor das ilhas’, com foco no capitão da Marinha Raper Hoxworth, neste interpretado por Charlton Heston – o ator tinha sido escalado para o anterior, mas foi substituído por Richard Harris. Curiosidade: Bette Midler, natural da capital do Havaí, Honolulu, estreava aqui, aos 20 anos, como figurante, numa cena de segundos – ela é uma das passageiras que fica enjoada no barco, no início do filme. Há duas versões de ‘Havaí’: a de cinema, de 189 minutos, e a versão americana com cortes, de 162 minutos, essa disponível no Brasil em DVD pela Obras-primas do Cinema.   Havaí (Hawaii). EUA, 1966, 162 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por George Roy Hill. Distribuição: Obras-primas do Cinema (em DVD)     Sem rumo no espaço   Uma falha no sistema de propulsão de uma nave deixa três astronautas americanos (Gene Hackman, Richard Crenna e James Franciscus) presos no espaço ao retornar para a Terra após meses em órbita. A base espacial na Terra, comandada por um chefe linha dura (Gregory Peck), terá pouco tempo para uma missão de resgate.   Produzido e lançado no ano em que o homem chegou à Lua (1969), ‘Sem rumo no espaço’ é um admirável ‘filme de sobrevivência’, que iria inspirar o cineasta mexicano Alfonso Cuarón em ‘Gravidade’ (2013). Entre os anos cruciais da Corrida Espacial, em plena Guerra Fria, de 1960 a 1973, muitos filmes americanos e soviéticos se debruçavam no tema, com aventuras mirabolantes no espaço sideral. Esse aqui é um exemplar digno do gênero e que reconstitui bem os avanços tecnológicos da época. Na história, três astronautas ficam presos na nave enquanto retornam para a Terra de uma missão espacial. O oxigênio fica rarefeito, eles começam a enlouquecer e entram em conflito. Na base espacial terrestre, um grupo de cientistas corre contra o tempo para uma missão de resgate; resolvem lançar um outro astronauta para buscar o trio perdido (em inglês, o título do filme, ‘Marooned’, significa ‘Abandonados’). Baseado no livro de Martin Caidin, o longa traz aventura com drama e ficção científica, tudo misturado de uma maneira coerente e empolgante para quem se identifica com histórias como essa. Traz um elencão de premiados do cinema, como Gregory Peck, Richard Crenna, Gene Hackman, Lee Grant, David Janssen, James Franciscus e George Gaynes. Ganhou o Oscar de melhor efeitos visuais, ainda indicado nas categorias de fotografia e som. Originalmente da Columbia Pictures, o filme foi rodado em grande parte no verdadeiro Cabo Canaveral, na Flórida, onde a Nasa lança seus foguetes. Quem dirige é o nome forte do cinema western e ação John Sturges, de ‘Sem lei e sem alma’ (1957), ‘Sete homens e um destino’ (1960) e ‘Fugindo do inferno’ (1963). Há duas versões do filme – a original de cinema, de 134 minutos, e uma com cortes, de 128 minutos, essa disponível no Brasil. Saiu em DVD pela Classicline e também em DVD no box da Versátil ‘Clássicos Sci-fi volume 10’, contendo mais cinco filmes, como ‘O dia em que a Terra se incendiou’ (1961) e ‘No assombroso mundo da Lua’ (1967).   Sem rumo no espaço (Marooned). EUA, 1969, 128 minutos. Aventura/Ficção científica. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por John Sturges. Distribuição: Classicline e Versátil Home Vídeo (em DVD)     Tudo em família   George Dupler (Gene Hackman) é um executivo de meia-idade que tem uma crise de estresse no trabalho, agride o chefe, destrói a sala dele e pede as contas. Dias depois, arruma um novo emprego, como gerente de uma loja de departamentos. Novamente estressado, descobre que o filho está se relacionando com uma prima distante, Cheryl Gibbons (Barbra Streisand). Só que George acaba se apaixonando por ela também e inicia um relacionamento escondido do filho. Quando a esposa de George, Helen (Diane Ladd), é informada da traição do marido, uma confusão em família é instalada.   Comédia romântica agridoce, uma típica fita das antigas ‘sessões da tarde’, com Gene Hackman muito à vontade, brilhando em cena como sempre – essa semana o ator foi encontrado morto, aos 95 anos, ao lado da esposa, na mansão do casal no Novo México, e a polícia investiga o caso. É um filme leve, engraçadinho, cheio de confusões em torno de uma família nada normal. O marido estressado trai a esposa com uma prima que estava se relacionando com o filho dele, e quando os fatos vêm à tona, o circo é armado! Na época, Barbra Streisand já tinha dois Oscars e estava parando de fazer filmes para se dedicar à carreira musical – só faria mais dois na década de 80, ‘Yentl’ (1983) e ‘Querem me enlouquecer’ (1987), e cinco nas décadas seguintes. Consta que ela recebeu o maior salário do elenco, exorbitante pra época, de U$4 milhões – ela faz um papel ingênuo e debochado, com cabelos curtos loiros, par romântico de Hackman – e recebeu indicação ao Razzie, os piores do ano... Com jeito de comédia slapstick e momentos farsescos, o filme é rápido e funcional. Tem uma trilha sonora legal de Ira Newborn em parceria com Richard Hazard, e duas participações notáveis, de Dennis Quaid no início de carreira, com 26 anos, como o filho do protagonista, e Annie Girardot, como uma professora de francês. Foi o único longa americano do francês Jean-Claude Tramont (1930-1996), que fez só mais dois trabalhos em seu país. Do roteirista W.D. Richter, que adaptou o livro ‘Invasores de corpos’ para o cinema, e depois dirigiria a amalucada comédia scifi ‘As aventuras de Buckaroo Banzai’ (1984). Em DVD pela Classicline.   Tudo em família (All night long). EUA, 1981, 87 minutos. Comédia romântica. Colorido. Dirigido por Jean-Claude Tramont. Distribuição: Classicline (em DVD)     Gerônimo: Uma lenda americana   O líder apache Gerônimo (Wes Studi) enfrenta a cavalaria norte-americana no fim do século XIX para proteger suas terras e seu povo.   Reconstituição em tom heroico (mas sob a perspectiva dos americanos) da trajetória do líder apache Gerônimo (1829-1909), que por duas décadas travou intensa batalha com o exército dos Estados Unidos para proteger seu território no sul do país. Faroeste classe A, foca nos últimos dois anos da caçada a Gerônimo, pela cavalaria, que mobilizou cinco mil homens no Oeste selvagem. Quem liderou a missão para encontrar os apaches foi o comandante Charles Gatewood (Jason Patric), que sob sol escaldante e uma paisagem arenosa de vales e deserto, perseguiu Gerônimo de maneira incessante. Em setembro de 1886, o líder indígena foi rendido com 35 membros do grupo, no Arizona, próximo à fronteira do Mexico. Consta na História que entre Gatewood e Gerônimo nasceu uma admiração mútua e respeito, negociaram bastante até a rendição. É um típico épico feito com rigor e com pontos técnicos positivos, desde a trilha sonora de Ry Cooder à impressionante fotografia – rodado na região de Utah. O ator Wes Studi está bem no papel central, e no filme outras figuras reais aparecem, como o general Crook, que ordena a missão da cavalaria, interpretado por Gene Hackman; o experiente militar que rastreia foragidos Al Sieber (Robert Duvall), e o jovem soldado Britton Davis (Matt Damon, em início de carreira). Em tom de crônica, mostra como ocorreu o apagamento do povo indígena nos Estados Unidos, entre o fim do século XVIII e o início do XX, com o exército e seu alto poderio bélico aniquilando apaches, comanches, sioux, navajos e cheyennes, no chamado Velho Oeste. Indicado ao Oscar de melhor som, tem roteiro de John Milius, de ‘Apocalypse now’ (1979) e ‘Conan, o bárbaro’ (1982 – também o diretor do filme). Custou caro e não foi bem de bilheteria, sendo exibido na TV muitas vezes. Diretor, roteirista e produtor famoso, Walter Hill dirige – ele fez filmes de ação famosos, como ’48 horas’ – partes 1 e 2 (1982 e 1990), e westerns como ‘Cavalgada dos proscritos’ (1980), ‘Wild Bill – Uma lenda do oeste’ (1995) e ‘O último matador’ (1996). Relançado em DVD pela Classicline – em 2002 o filme saiu em DVD nas primeiras edições no Brasil, pela Columbia.   Gerônimo: Uma lenda americana (Geronimo: An american legend). EUA, 1993, 115 minutos. Faroeste/Drama. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Walter Hill. Distribuição: Classicline (em DVD).     Rápida e mortal   Ellen, uma misteriosa pistoleira, apelidada de ‘The lady’ (Sharon Stone), chega à cidadezinha de Redenção, no Velho Oeste, para participar de uma competição anual de tiros. Ela está lá também por outro motivo: encontrar o responsável que acabou com sua família quando era pequena.   Faroeste explosivo com violência nos padrões dos antigos ‘westerns spaghetti’, repleto de personagens carismáticos e um final absurdamente barulhento. Na época do lançamento teve repercussão negativa da crítica, e assistindo hoje, 30 anos depois, o filme merece uma chance – é divertido, bem montado, com enquadramentos frenéticos com zoom e cenas empolgantes de duelo a dois, em que um sempre irá morrer. Sharon Stone é a pistoleira enigmática que chega a uma pequena cidade do Velho Oeste para uma competição de tiros e também para se vingar da morte do pai. Ela não dará paz para ninguém até encontrar seu alvo. Tudo é construído com suspense e boas doses de adrenalina. Personagens secundários auxiliam o andar da trama, como Russell Crowe, um pastor forçado a lutar, Leonardo Di Caprio em início de carreira, com 21 anos, como um menino prodígio que sabe atirar, Pat Hingle como o dono do saloon, Lance Henriksen e Tobin Bell como dois pistoleiros maus, Roberts Blossom como um ancião, e claro, Gene Hackman, o sádico vilão, o manda-chuva da cidade, num papel que até no figurino lembra Henry Fonda em ‘Era uma vez no oeste’ (1968) – aliás, há outras referências do clássico de Sergio Leone, como uma cena de enforcamento, sem contar os ângulos e o clima. O veterano Woody Strode, ator do mencionado western, fez sua última aparição no cinema aqui – ele morreu no final das gravações, em 1994. Há uma intrigante mistura de épocas, perceba, quebrando a diegese do filme, em especial o figurino de Sharon – as roupas e os óculos dela são modernos demais para aquele período, dando uma pitada de originalidade na concepção visual do longa. Trilha de Alan Silvestri, fotografia e montagem dos italianos premiados Dante Spinotti e Pietro Scalia, respectivamente, e uma direção vibrante de Sam Raimi, mestre do terror, que fez ‘A morte do demônio’ (1981) e depois filmes bem mais comerciais. Os momentos escrachados de tiros varando as pessoas é diversão total – tudo realçado agora em bluray, em alta definição lançado pela Classicline.   Rápida e mortal (The quick and the dead). EUA/Japão, 1995, 108 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Sam Raimi. Distribuição: Classicline (em bluray).
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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista e especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp. Pesquisador na área de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades. Professor de Semiótica e História da Arte no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva) e coordenador do curso técnico de Arte Dramática no Senac Catanduva. Redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL). Apresenta o programa semanal Mais Cinema, na Nova TV Catanduva, e mantém as colunas Filme & Arte, na rede "Diário da Região", e Middia Cinema, na Middia Magazine. Escreve para o site Observatório da Imprensa e para o informativo eletrônico Colunas & Notas. Consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canadá). Criador e mantenedor do blog Setor Cinema desde 2003. Como jornalista atuou na rádio Jovem Pan FM Catanduva e no jornal Notícia da Manhã. Ex-comentarista de cinema nas rádios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003), e participa como júri em festivais de cinema de todo o país. Contato: felipebb85@hotmail.com

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