RESENHA CRÍTICA: Mulher-Maravilha (Wonder Woman)

Esta nova versão acabou sendo uma feliz e inesperada surpresa

31/05/2017 17:54 Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CRÍTICA: Mulher-Maravilha (Wonder Woman)

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Mulher-Maravilha (Wonder Woman)

EUA, 17. 2 horas e 21 min. Direção de Patty Jenkins. Com Gal Gadot, Chris Pine,David Thewlis, Robin Wright, Connie Nielsen, Elena Anaya, Ewen Bremmer, Danny Huston, Said Tamaghoui. Samantha Jo. Argumento de Zach Snyder.

Acho que foi uma boa coisa eu conhecer bem pouco da série de TV homônima de muitos anos atrás mas de certo sucesso que foi a  Mulher-Maravilha (de 1975 a 79), estrelado pela bela mas canastrona (e depois alcoólatra) Lynda Carter. Vendo hoje é extremamente ingênua e juvenil e nada tem a ver com esta nova versão, que acabou sendo uma feliz e inesperada surpresa.

É muito interessante que a Warner tenha escolhido para dirigir este filme Patty Jenkins (mulher dirigindo já é raro, mas fazendo um blockbuster é algo para festejar). Mais curioso é também o fato de que Patty, embora tenha feito episódios de séries de TV, como o piloto do sucesso The Killing, só teve um longa de sucesso e assim mesmo uma produção muito barata e particular, que foi Monster - Desejo Assassino (2003) que deu um Oscar a Charlize Theron! A escolha aparenta ter sido justamente do produtor e também autor Zach Snyder, que costuma também ser diretor (em filmes de qualidade discutível como 300, Sucker Punch, Watchmen) que largou um pouco a carreira para se recuperar da tragédia em família porque sua filha se suicidou!

O fato é que apesar da grande quantidade de aventuras baseadas em quadrinhos, esta foi aplaudida com entusiasmo pelos fãs que se comportaram entusiasmados com esta nova concepção do que poderia ter sido um desastre. Antes de tudo tem se que louvar o acerto da escolha da protagonista, a israelense Gal Gadot (foi Miss Israel, em 2004, filmou no Brasil a parte 5 de Velozes e Furiosos, Operação Rio, 11, nascida em 85, esteve também nas duas continuações). Não é uma atriz muito experiente (e até da umas poucas escorregadas quando tem cenas de tensão e não consertaram a voz) em compensação é extremamente bonita, atlética (as cenas de luta são brilhantemente encenadas, com efeitos novos e muito eficientes). Sua presença é absolutamente sedutora e além de tudo vai crescendo durante o filme. A trilha musical é das mais aflitas e altas de arrebentar tímpanos que já assisti.

Não gosto da parte inicial quando tentam mostrar como viviam as Amazonas, numa ilha muito bizarra (a verdade é que a direção de arte e também o figurino das moças, não consegue fugir do brega. Parece aqueles filmes italianos horrendos dos anos 60 do mesmo tema). Como também é um desperdício de duas atrizes conhecidas, quando disputam a filhota, no caso Robin Wright e a Connie Nielsen de mãe (ela é de Gladiador, Robin faz a generala! É a ex-senhora Sean Penn, estrela de House of Cards). Mas a sequência inicial assusta e o filme só começa a melhorar quando floresce uma história de amor bem humorada quando a heroína Diana Prince (Gal) percebe que há alguém em perigo e acaba salvando um espião confesso, Steve Trevor, que está sendo perseguido por um bando de alemães o que irá provocar uma complicada batalha que introduzirá as habilidades da heroína. É lógico que o casal ira se apaixonar (o romance deles é de porta fechadas e não mostram como eu suponha uma filha para Diana, quem sabe guardam para um próximo filme!). De qualquer forma, a luta de sexos entre o casal resulta em momentos bem engraçados e uma das melhores ações do ainda jovem galãzinho Chris Pine (ele tem cena de semi-quase nudez. Nada porém com Gal, que permanece de shorts e armas).

Felizmente o filme vai crescendo embora novamente se perca um pouco quando vai tentar mostrar um conflito passado na Primeira Guerra Mundial como os alemães como super vilões (embora se apresente ataques de gases, eles parecem mais nazistas da próxima guerra), e o conflito franco/alemão em trincheiras, embora discutível, escapa porque finalmente a mocinha vai a luta mesmo com ideias discutíveis sobre um Deus (suponho que do Olimpo) que ela acha que é um oficial maluco (papel do Huston, irmão de Anjelica) que anda com outra cientista maluca (um personagem extremamente mal desenvolvido). Mas tudo sempre se resolve com o escudo poderoso e o chicote dourado que dá bons efeitos.

É interessante também o fato de que o roteiro utilize amigos/ parceiros de nacionalidades diferentes e no diálogo acaba surgindo referências sempre oportunas e críticas aos nativos (índios) americanos, o inglês bêbado e o árabe esperto mas sofredor (não me lembro de ter visto isso antes em filmes do gênero). Enfim, Gal arrasa (detalhe: não teve a cena no final dos letreiros como estava se tornando costume e tradição). Esse lado até filosófico chega a crescer mais ainda quando o vilão maior (não vou dizer quem) irá tomar outro rumo. E também no abre e fecha do filme quando Diana também filosofa bastante sobre futuro, bem e mal.

Um último detalhe: com ou sem chatices de critico, o novo  Mulher-Maravilha funciona bem e até me provocou uma inesperada emoção fina. Como sempre lá eu vou ver de novo!

 

 

A Trajetória da Mulher Maravilha
Por Adilson de Carvalho Santos

Poucos personagens dos quadrinhos se igualam ao histórico da Mulher Maravilha, apesar dela não ter sido a primeira super-heroína das HQs. Já haviam aventureiras como “Sheena, a rainha da selva” (1937) do mestre Will Eisner e “Dale Arden”, a destemida namorada de “Flash Gordon” (1934) de Alex Raymond. Depois ainda viriam personagens como “Phantom Lady” da Quality Comics e “Black Cat” da Harvey Comics (ambas de Agosto de 1941). Contudo, estas embora tivessem tido um impacto em seu momento, não mantiveram uma repercussão contínua no meio. Muitas personagens femininas ficavam estereotipadas como a eterna moçinha em perigo, ou com um apelo apenas sensual para o público masculino. A mulher buscava um papel mais relevante na sociedade: sufragistas defendiam seus direitos já nas primeiras décadas do século XX, em 1912 Jane Addams tornou-se a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel da Paz, e na década de 30 Amelia Earhart abriu os horizontes com seus feitos. O mundo clamava por um símbolo capaz de guiar gerações de mulheres, e mostrar aos homens do que elas são capazes.

Era outubro de 1940, o psicólogo norte-americano William Moulton Marston (1893-1947) escreveu um artigo na qual reconhecia que os quadrinhos tinham um potencial educativo. Esse artigo chamou a atenção de Max Gaines, dono da All-American Comics, editora que anos depois formaria a DC Comics. A proposta de Gaines era que Marston, criador de um componente que levaria à criação do polígrafo (o detector de mentiras), atuasse como consultor, o que daria prestígio às suas publicações. Além disso, Marston era um ferrenho defensor da superioridade da mulher, bem como defensor de ideias muito à frente de sua época, como o sexo livre e a poligamia, tendo ele mesmo vivido com duas mulheres. Marston aceitou o cargo e, usando o pseudônimo Charles Moulton, apresentou a proposta de um novo personagem que seria a essência de suas crenças e de seu trabalho: Uma heroína representante de uma sociedade matriarcal, as lendárias amazonas da mitologia. Na história, a deusa Afrodite dá vida a uma estatueta de barro, esculpida por Hipólita, a rainha das Amazonas. Estas se isolaram do mundo dos homens há séculos na ilha Paraíso. Quis o destino que o piloto norte-americano Steve Trevor chegasse acidentalmente à ilha onde homens não poderiam permanecer ou as amazonas perderiam sua imortalidade. É feito um torneio para decidir qual das amazonas ficaria incumbida de levar Steve Trevor de volta e defender o mundo do patriacardo de um grande mal que ameaça a todos, no caso a ascensão do nazismo. A estreia da personagem foi em uma história secundária de 8 páginas publicada no título bimestreal “All Star Comics” #8, datada de dezembro de 1941, mesmo mês e ano do ataque japonês a Pearl Habor. Na capa os heróis da Sociedade da Justiça, primeira superequipe de justiceiros uniformizados. No mês seguinte, a Mulher Maravilha já ganhava mais evidência ao aparecer na capa de “Sensation Comics” #1, com a arte de H.G.Peter mostrando a princesa amazona desviando as balas com seus braceletes, trajando as cores da bandeira americana em seu uniforme sexy de corpete amarelo e vermelho ostentando o desenho de uma águia e uma longa saia azul estrelada.

A heroína, em quatro meses, ganhou seu título próprio, e ao longo das décadas seguintes expandiu sua importância para muito além das páginas da HQ. Durante o tempo em que esteve à frente deste, Marston usou suas teorias sobre a emancipação da mulher, e suas ideias de liberdade sexual e da independência feminina, inserindo esses elementos nas histórias, o que diferenciava as aventuras da Mulher Maravilha dos outros heróis publicados na época. Era a figura de uma mulher que salvava o homem (Steve Trevor) do perigo, desafiava a truculência masculina e libertava-se dos grilhões impostos às mulheres. Era comum naquelas histórias imagens de mulheres amarradas ou acorrentadas, o que deixava sugerido ideias sobre perversão e masoquismo. Ainda assim a maior arma da Mulher Maravilha era o laço de Héstia, um artefato místico que obrigava aqueles nele envoltos a falar somente a verdade. A intenção de Marston era provar a superioridade feminina, e o visual da arte de H.G.Peter explorava como podia a sensualidade da princesa Diana sem, no entanto, jamais cair na vulgaridade. As vendas eram altas e Marston continuou no título até o número 27, quando ele morreu. A personagem, no entanto, se manteve ininterruptamente publicada graças a uma cláusula no contrato de Marston com a National Periodic que determinava que se o título parasse de ser publicado, seus direitos reverteriam em definitivo para Marston e seus herdeiros. Em 1968, por exemplo, Diana foi privada de seus poderes divinos e tornou-se uma lutadora de artes marciais, mas 25 edições depois retomou seu status-quo. A heroína foi retratada em belíssimos traços pelo artista argentino Garcia Lopez nos anos 70, e na década seguinte o renomado George Perez que reinventou sua origem explorando a riqueza dos elementos da mitologia grega. Em seguida, vários artistas trabalharam com a personagem como John Byrne, o brasileiro Mike Deodato, Phil Jimenez, Greg Rucka, J.G.Jones e Brian Azzarello, cada qual mantendo vivo o legado de Marston.

Em 1967, o produtor William Dozier, que levou Batman para a TV encomendou um piloto de 5 minutos entitulado “Who’s afraid of Diana Prince?”, com esta retratada como uma adolescente desajeitada, controlada pela mãe, e que se transforma em uma super-heroína, vivida pela desconhecida Ellie Wood Walker. O projeto não foi para frente, e os planos de uma versão live-action ficaram na geladeira até 1974 quando a ABC produziu “Wonder Woman”, estrelado por Cathy Lee Crosby e encenado no presente. Descaracterizada no piloto, a heroína não usa seu uniforme clássico, e nada em seu visual remete à personagem de Marston, sendo retratada apenas como uma espiã bem treinada (no estilo da fase marcial de Denny O’Neal publicada nas HQs no fim dos anos 60) e enfrentando o ameaçador Abner Smith (Ricardo Montalban). O fracasso do piloto não desanimou o produtor Douglas S. Cramer que em 8 meses fez um segundo piloto, “The New Original Wonder Woman”, fiel às origens das HQs e estrelado pela ex Miss America Lynda Carter, que havia sido inicialmente recusada. Carter, então com 24 anos, tinha os exatos traços da personagem das HQs e seu piloto agradou a audiência norte-americana. A série ganhou 14 episódios pela ABC com a heroína vivendo suas aventuras durante a Segunda Guerra, e a partir de 1977, foi transferida para a CBS com as histórias passando para o presente. O sucesso durou até 1979, mas as reprises subsequentes fizeram a personagem extremamente popular, especialmente no Brasil onde a série da Mulher Maravillha foi inicialmente exibida pela Rede Globo, e depois TVS (atual SBT). A série teve vários momentos antologicos com passagens de astros de renome como o cowboy Roy Rogers, John Saxon, Robert Loggia, Roddy McDowell, Mel Ferrer e Debra Winger, que interpretou a Garota Maravilha, irmã de Diana, em dois episódios. Com o passar do tempo, o personagem Steve Trevor (Lyle Waggoner) foi ficando cada vez menos recorrente nas histórias, alimentando histórias de que este não mantinha uma relação amistosa com a atriz, embora Lynda Carter tenha sempre negado. Em 2011, uma tentativa de trazer de volta a Mulher Maravilha para a tv foi feita, sendo mal-sucedida, com a personagem vivida pela atriz Adrianne Palicki, e roteiro do renomado roteirista David E.Kelly.

 A atriz Gal Gadot torna-se agora a nova responsável por mostrar a atual geração o ideal de uma personagem cuja importância já lhe conferiu, ainda que temporariamente, um cargo de embaixadora honorária das Nações Unidas, estampou a capa da revista feminista Ms por duas vezes, e ganhou nos Estados Unidos um dia dedicado a ela, o “Wonder Woman Day” (3 de Junho). Não há dúvida que o mundo está mais do que pronto para ela.

 

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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