Inglaterra, uma Literatura de Mulheres

Mais do que tudo, Jane Eyre é um grande romance pré-proustiano

25/10/2017 07:46 Por Eron Duarte Fagundes
Inglaterra, uma Literatura de Mulheres

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Charlotte Brontë vem engrossar o caldo segundo o qual a literatura inglesa teve muitas mulheres no primeiro plano (e não é por acaso que um dos altiplanos desta literatura é ocupado por uma mulher, Virginia Woolf). Jane Eyre (Jane Ayre, an autobiography; 1847) é o romance mais conhecido de Charlotte e, como usava acontecer na escola romântica do século XIX, apresenta o que é ficção como se fora uma autobiografia da protagonista; assim, a narrativa na primeira pessoa passa a ser um artifício falsamente autobiográfico, visando a dar uma linearidade de autenticidade ainda longe das complexidades do francês Marcel Proust, onde a primeira pessoa é polissêmica, variando dos tons íntimos à impessoalidade. Mais do que tudo, Jane Eyre é um grande romance pré-proustiano. Demais, como acontecia com as mulheres-escritoras da época, Charlotte assina seu trabalho sob o pseudônimo de homem, Currer Bell.

“Não havia qualquer possibilidade de fazer uma caminhada naquele dia. Na verdade, estivéramos perambulando durante uma hora, pela manhã, sob as árvores nuas. Mas desde o almoço (Mrs. Reed almoçava cedo, quando não havia visitas) o vento frio do inverno trouxera nuvens tão pesadas e uma chuva tão penetrante, que qualquer exercício ao ar livre estava fora de cogitação.” Assim se dá o primeiro parágrafo do romance, onde a protagonista vai contar suas peripécias de vida de governanta dum nobre por quem se apaixona (e ele por ela), os impedimentos do amor, a fuga, o reencontro nostálgico-trágico, o fim abotoadamente romântico. Como outra inglesa anterior, Jane Austen, Charlotte oscila entre lugares-comuns do cotidiano britânico da época e certas exaltações da fantasia criativa que fazem seu romance sobressair do chão. Diversamente de Austen, Charlotte faz sua heroína mais independente dos homens. Quase como um diário de época, Jane Eyre pode ser lido hoje com o encantamento que as coisas primitivas trazem. Acompanhamos os corações ingênuos das personagens como se um vento (brisa) antigo batesse de leve em nossa face. Aplica-se a esta relação autor do século XIX e leitor do século XXI certos movimentos e sentimentos descritos no interior das relações entre as personagens do romance. “Esses detalhes representavam para mim as mais puras e doces fontes de prazer, assim como acontecia com elas. Os ventos fortes e a brisa suave, a dureza e a suavidade do dia, os homens do nascer do pôr do sol, o luar e as noites brumosas tinham para mim o mesmo fascínio e o feitiço que as encantava.” Enfim, um pequeno (no sentido elevado) deslumbramento literário.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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