Tudo é Teatro

Imitação da Vida, dirigido por Douglas Sirk, é baseado em um livro escrito por Fannie Hurst e já havia sido levado para as telas nos anos 30

04/12/2017 07:09 Por Bianca Zasso
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Meu primeiro contato com a obra do diretor Douglas Sirk se deu quando uma amiga, após eu comentar que havia assistido Sublime Obsessão, chamou os filmes do realizador de “novelas de duas horas”. Havia verdade nesta opinião, já que para um espectador brasileiro os melodramas são uma tradição no formato televisivo e não se pode negar que os sentimentos são a mola propulsora dos trabalhos de Sirk. Sua estreia aconteceu em 1943, mas foi a partir de 1954, justamente com Sublime Obsessão, que ele iniciou o que a crítica chama de segunda fase de seus melodramas. Era um filme mais emocionante e passional que o outro, sempre repleto de simbolismos criativos ao ponto de nem o temido Código Hays percebê-los. Mas ouso dizer que o trabalho mais bem acabado de Sirk foi também o último de sua vida.

Imitação da vida é baseado em um livro escrito por Fannie Hurst e já havia sido levado para as telas nos anos 30, sob a direção de John M. Stahl. Mas o toque singular de Sirk transformou a história sem deixar de ser fiel à obra literária que a originou. Lana Turner, numa das melhores atuações de sua carreira, interpreta Lora Meredith, talvez a personagem feminina mais completa dos filmes de Sirk. Viúva e com uma filha pequena, ela junta as economias e vai morar em Nova York para realizar seu sonho de ser atriz. A cena inicial de Imitação da Vida é uma amostra da habilidade cênica de Sirk. Numa praia lotada, Lora procura por sua filha Susie e acaba encontrando pela primeira vez os três personagens que serão seus companheiros na condução da trama. Steve, um bonitão aspirante à fotógrafo, será sua paixão por toda a vida. Já Annie, desesperada para conseguir um lugar para morar junto com a filha Sarah Jane, será sua amiga mais fiel.

A passagem do tempo dentro de Imitação da Vida ocorre de forma rápida, já que o objetivo principal não é acompanhar de perto a jornada rumo ao estrelato de Lora, mas sim perceber o modo como ela o atinge. Ainda em seu período de vacas magras, onde Annie cuida de sua casa apenas em troca de um teto para morar, ela tenta manter mais que a dignidade, mas a pose de artista bem-sucedida, enquanto sua amiga que age como empregada se contenta com as idas à igreja. Detalhe: Annie parece mais feliz e satisfeita que Lora, mesmo quando esta conhece a fama e as festas regadas à champanhe. Durante uma entrevista com um agente teatral, figura comum nos Estados Unidos, ela sofre assédio e percebe, pela primeira vez, que a Broadway não perdoa e logo ela inicia um relacionamento com o dramaturgo que lhe dá o primeiro grande personagem. Nem um pingo de amor e litros de sucesso profissional.

Em paralelo, Annie vê crescer a aversão de sua filha por ela, já sentida pelo espectador desde o início da trama. Sarah Jane tem pele clara e não quer que as pessoas saibam que sua mãe é negra. Sirk fala de racismo com vozes fortes, em diálogo incríveis e ousados para os anos 50. A brilhante cena em que Sarah Jane serve os convidados de Lora imitando o sotaque dos negros do sul dos Estados Unidos marcou o cinema. Poucas vezes um personagem disse com todas as letras se sentir propriedade de alguém. Susan Kohner, que interpreta Sarah Jane conquista desde sua primeira aparição em cena, conseguindo tirar o foco da estrela adolescente da época, Sandra Dee, que torna Susie uma menina rica de voz manhosa que parece ter sido colocada na história apenas para bancar a Lolita.

O público alvo do cinema de Sirk eram mulheres da classe média e alta. E ele, inteligente que era, sabia atraí-las para as salas de exibição pelo visual. Lana Turner é o destaque nos cartazes de divulgação de Imitação da Vida, mas divide a tela com equilíbrio com Juanita Moore, indicada ao Oscar pela sua atuação doce de Annie. Lora desfila figurinos elegantes mesmo na fase de crise financeira e tudo é bem decorado e iluminado. O mundo da mulher rica está na tela, mas o racismo, as relações amorosas por interesse e os desencontros entre mães e filhas é que circulam pelos corredores.

A cada diamante envolvendo o pescoço, Sirk joga uma pedra para incomodar seu público, avesso a encarar os próprios defeitos desde sempre. Os mais desatentos podem nem perceber e interpretar Imitação da Vida como um conto de fadas com doses de drama familiar. Mas é muito mais do que isso. É como as mesas postas com dezenas de talheres de prata e taças de cristal que escondem pés que se roçam outras coisas “proibidas”. Sirk sabe que a vida é um teatro e que as melhores cenas acontecem nos bastidores.

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Sobre o Colunista:

Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Durante cinco anos foi figura ativa do projeto Cineclube Unifra. Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Ama cinema desde que se entende por gente, mas foi a partir do final de 2008 que transformou essa paixão em tema de suas pesquisas. Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands. Como crítica de cinema seu trabalho se expande sobre boa parte da Sétima Arte.

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