Nada Faz Sentido Senão Sentir

Império dos Sonhos (Inland empire; 2006) nasce do mais alto grau de demência de seu realizador, o norte-americano David Lynch

28/12/2017 07:44 Por Eron Duarte Fagundes
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Império dos sonhos (Inland empire; 2006) nasce do mais alto grau de demência de seu realizador, o norte-americano David Lynch; desde o título original em inglês, ele avisa que estas fantasias de visão são pedaços de seu “inland empire”, império interior, onde o imperador (autoritário, rabugento) é seu ego. Um artista tão pouco interessado na realidade objetiva: o que surpreende é que tal ser tenha nascido numa sociedade pragmática e utilitária como a americana. Quem o acusou de precisar urgentemente de um tratamento psiquiátrico —e não foram poucos os espectadores dos festivais mundo afora que o fizeram— tem razão, mas ao mesmo tempo revela uma absoluta falta de sensibilidade para uma apreciação artística. Lynch levou sua doidice (onde o homem e o esteta não se distinguem facilmente) muitos pontos adiante de seu trabalho anterior, Cidade dos sonhos (2001), que já era bastante indistinto em seus signos. A loucura de Lynch é ainda mais realçada porque ele faz suas experiências tresloucadas no ambiente de superprodução, com os compromissos comerciais e a exposição à mídia que poderiam gerar um certo encabular na maioria dos cineastas; mas nada é impedimento para que Lynch faça o filme que lhe apraz. Sem freios, Lynch chega em Império dos sonhos a um estado de absurdo cinematográfico que espanta pela força impressiva da imagem diante de tanta incoerência e desvios injustificados de mais um falso roteiro do diretor.

Semeando quadros delirantes que parecem saídos de gravuras cubistas, deixando no interior da imagem frases mínimas e enigmáticas tão sem sentido quanto aqueles miméticos diálogos dos filmes do francês Jacques Tati, Lynch roda três horas de intensa descarga elétrico-visual; em certos momentos parece que o fundo digital-cinematográfico se transforma em fagulhas de eletricidade que saltitam na tenebrosa escuridão que é o filme. Se o cinema habitualmente procura estabelecer uma relação entre as imagens (contínua no norte-americano Martin Scorsese, descontínua no alemão Alexander Kluge), em Império dos sonhos estas relações se desmancham, desmanchando o espaço fílmico; é bem possível que estas relações entre imagens retornem à tela sob a forma de excertos inconscientes no tempo-espaço que vai entre o que é jogado na tela e a cabeça do espectador. Império dos sonhos torna difusas e descontínuas as relações entre cenários dentro do filme, mas alarga estas características para uma outra relação: entre os diversos cenários do filme e aquele cenário escuro do espectador, a sala de cinema e as perturbações interiores do assistente; os limites e as fronteiras entre o que está na tela e o que somos nas poltronas dos cinemas se tornam mais problemáticos do que nunca.

Lynch, americaníssimo apesar de tudo em usar até ritmos populares para revolucionar a composição da imagem, faz a coisa girar com extrema lentidão. Mas é uma lentidão não-européia e pós-moderna. Assim, as dificuldades que Lynch impõe ao público nasce não-somente das excentricidades não explicadas de situações soltas mas ainda da carruagem-linguagem que ele edifica com muita paciência e que provoca a paciência do espectador, que sempre que o diretor vivido por Jeremy Irons grita “Ação!” espera uma ação e não vê ação nenhuma, ao menos aquela ação de sempre do cinema de sempre. Interminável, exasperante, barroco, criptográfico (o número 47 na porta dum quarto, um agrupamento esotérico de letras ou caracteres numa parede, pessoas fantasiadas de bichos na cabeça recitando desdramaticamente algumas orações um pouco à maneira do dramaturgo Samuel Beckett), Império dos sonhos se distancia terrivelmente de O homem elefante (1980), uma experiência do fantástico em que Lynch não havia endoidecido mas já anotava os sinais de sua doença.

Além do desprezo de Lynch pela construção dramática, o que acentua a obscuridade em Império dos sonhos é a preferência pela imagem escura, aquele noturno onde não se distingue muitas vezes o que está em cena; há lá pelo final uma panorâmica (movimento lateral da câmara em torno de seu eixo) onde a escuridão é tanta que o próprio movimento é mais sentido do que percebido e só algumas chispas de luz agitam de vida este vagar do filme de Lynch que é no fundo um zumbi-estético. Lynch fez um filme de deliberada confusão, que joga com a perplexidade do observador; mas nunca poderá ser confundido com, por exemplo, a incompetência do diretor venezuelano Jorge Hernandez Aldana, que converte o intrincado roteiro do mexicano Guillermo Arriaga em notas confusas em O búfalo da noite (2007). O confuso escuro de Império dos sonhos é construído por um talento revolucionário que ataca incrivelmente os sentidos.

Império dos sonhos é um quebra-cabeças jogado diretamente dentro do cérebro do espectador. Ali, se torna um filme remontável. Vira uma obra aberta em sua estrutura, como o romance O jogo da amarelinha (1968), do argentino Julio Cortázar. A personagem vivida por Laura Dern (que contém várias criaturas em uma, pois há um filme dentro do filme que está dentro de outro filme e assim por diante, como se vê na cena que monta a mesma cena numa televisão que contém uma outra televisão com a mesma cena que está no filme que estamos vendo) é esta personagem, ou a figura física da atriz (verifica-se que a personagem ou suas sósias, bem, tudo é muito nebuloso), que dá uma inesperada unidade ao disparate todo. Busco remontar o filme sem Laura e tento mergulhar agressivamente no caos de Lynch. Em Cidade dos sonhos ele já namorava o cinema e o filme-objeto. Em Império dos sonhos as ilusões do cinema são outra vez seu assunto. Imaginemos que ele retirasse em seu próximo filme o ser etnocêntrico, que é sempre um tênue fio de ligação na narrativa: poderia aí alguém resistir a situar-se nesta beira caótica de imagens?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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