Retrato de um Arrivista

Guy de Maupassant é bastante conhecido por seus contos. Mas não perde o pique nem amolece o ritmo quando se entrega a narrativas longas

28/12/2017 07:53 Por Eron Duarte Fagundes
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Guy de Maupassant é bastante conhecido por seus contos. Mas não perde o pique nem amolece o ritmo quando se entrega a narrativas longas. É o que está demonstrado em seu romance Bel-ami (1885), que já teve algumas versões cinematográficas, a última delas, de 2011, com o astro americano Robert Pattinson no papel-título, um desastre, uma visão (em termos de visual mesmo, de imagem do quadro) mofada dos salões do século XIX na França. Mas o livro de Maupassant é outra coisa: topa a linguagem mais adequada para seduzir o leitor nas sinuosidades dos movimentos das personagens por cenários fugidios em seus arcaísmos.

Esta sedução de Maupassant, que nasce de sua escrita particular e tem cruzado os séculos, não se dá inicialmente sem algum espanto para o observador. Ocorre que o texto de Maupassant adota um classicismo de narrar pré-balzaqueano, embora Maupassant escreva seus livros bem depois de Honoré de Balzac; contemporâneo do rigor paraclássico de Gustave Flaubert e das exigências duma linguagem intelectual de Joris-Karl Huysmann, Maupassant faz um processo de retorno que, por felicidade, não tem o mofo, nem o já visto, é uma senda particularíssima: é um cronista de seu tempo a que ele empresta um narrador, poético e criativo, os lugares-comuns da vida têm em Maupassant um olhar enfeitiçado, como se o autor, mesmo sem se pôr dentro da narrativa, estivesse disfarçando suas próprias vivências, suas próprias características dentro das situações e criaturas que expôs.

Maupassant morreu louco e sifilítico aos 43 anos. Não é o caso do protagonista de Bel-ami, um dândi bem-sucedido, hedonista e mulherengo, na Paris da segunda metade do século retrasado. Georges Duroy, que na segunda metade do romance assume o disfarce (humano, profissional e linguístico de Du Roy), é um arrivista; arrivista origina-se do verbo francês “arriver”, que quer dizer “chegar”: isto é, dar-se bem, ascender socialmente a qualquer preço. Como o jornalismo naqueles anos era o que estava em alta, pois o jornalista aparecia para toda a sociedade, Duroy busca as redações; com sua dificuldade inicial para compor um texto, todavia ele vai em frente, persiste, pois “precisa chegar”; ao longo da narrativa, recheada de relacionamentos variados com diversas mulheres, fica claro que um dos métodos de chegar é relacionar-se com as mulheres certas, unindo então lascívia e sua ascensão; lá pelas tantas, ele já não consegue separar uma coisa da outra e no fim une as duas, como amante a tensão erótica, como esposa a subida social. No fim da história ele arma o casamento com Suzanne, que lhe dará o topo financeiro, mas não esquece os arrepios proporcionados pelas evocações carnais de Clotilde de Marelle, sua fêmea por excelência. O parágrafo final do romance deixa evidenciada esta dualidade do protagonista; em plena efervescência de seu êxtase pelo casamento com Suzanne, ele dá, na cerimônia, com Clotilde, a amante. E então, seu espírito:

“Il descendit avec lenteur les marches du haut perron entre deux haies de spectateurs. Mais il ne les voyait point; sa pensée maintenant revenait en arrière, et devant ses yeux éblouis par l’éclatant soleitl flotait l’image de Mme. de Marelle rajuntant en face de la glace les petits chaveux frisés de ses temps toujours défaits au sortit du lit.” (“Ele desceu com lentidão os degraus da alta escada entre duas fileiras de espectadores. Mas ele não os via; seu pensamento naquele instante tornava para trás, e diante de seus olhos nublados pelo sol cintilante flutuava a imagem da Senhora de Marelle ajeitando diante do espelho os pequenos fios de cabelo frisados de suas têmporas, sempre desfeitos quando ela saía do leito.”). Eis a imagem na cabeça do arrivista-hedonista: os aplausos da festa de casamento, a cena lúbrica da imagem da outra, a amante. No século XX, no Brasil, os contrapontos morais de Maupassant foram exacerbados pelo dramaturgo Nélson Rodrigues; no próprio fim do século XIX, o romancista português Eça de Queirós tem mais a ver com Maupassant que com Émile Zola ou Gustave Flaubert, digamos, em termos de clima narrativo e proposta moral.

Algum ponto antes deste final irônico e perverso, em Bel-ami, se dá um dos muitos reencontros entre a Senhora de Marelle e Georges Duroy. Eles tinham brigado por causa duma das mulheres de Georges, que fizera um escândalo nas dependências dum teatro, e mais adiante nova briga diante do casamento do protagonista. Reencontram-se por acaso. O que se dizem é próprio de significar a eternidade de certas relações.

“—Combien j’ai pensé à vous, dit-il.
—Et moi, dit-elle.
Ils s’assirent. Ils se souriaient, les yeux dans les yeux avec un envie de s’embrasser sur les lèvres.
—Ma chère petite Clo, je vous aime.
—Et moi aussi.
—Alors… alors… tu ne m’en as pas trop voulu?
—Oui et non. Ça m’a fait de la peine, et puis j’ai compris ta raison, et je me suis dit: ‘Bah! Il me reviendra un jour ou l’autre.
—Je n’osais pas revenir; je me demandais comment je serais reçu. Je n’osais pas, mais j’en avais rudement envie.”

“—Quanto eu pensei na senhora, disse ele.
—E eu então, disse ela.
Sentaram-se. Sorriam um para o outro, olhos nos olhos com uma vontade de se beijar nos lábios.
—Minha querida pequena Clo, eu a amo.
—Eu também.
—Então... então... tu não me quiseste muito mal?
—Sim e não. Tudo me fez penar, mas depois compreendi tua razão, e disse para mim: ‘Ora! Ele voltará para mim um dia ou outro.
—Eu não ousava voltar; perguntava-me como serei recebido. Eu não ousava, mas o desejava fortemente.”

Esta identidade erótico-sentimental entre Georges e Clotilde —identidade cíclica— fecha-se em seu significado na cena do parágrafo final: ainda diante do casamento do arrivista, o hedonismo carnal, sempre tão bem descrito por Maupassant dá suas caras.

Quando a primeira frase-parágrafo de Bel-ami anuncia um gesto comum da personagem, saindo do restaurante após receber o troco de sua moeda de cem sous (“Quand la caissière lui eut rendu la monnaie de sa pièce de cent sous, Georges Duroy sortit du restaurant”, “assim que a caixa lhe devolvera o troco de sua moeda de cem sous, Georges Duroy deixou o restaurante”), o leitor já pode vislumbrar os caminhos até a alta escada (“haut perron”) que a personagem desce no seu gesto que encerra a narrativa, de um lado “deux haies de spectateurs”, duas fileiras de espectadores para serem sua descida que é na verdade uma subida, de outro a imagem da Senhora de Marelle diante do espelho cuja sutileza é dada pela vista nublada por um sol forte (“les yeux éblouis par l’éclatant soleil”). Se Georges venceu, o possível arrivismo de seu autor, Maupassant, sucumbiu diante dos escrúpulos morais do artista: a paixão pelas mulheres, em Maupassant, só lhe trouxe sífilis e loucura e uma morte aos 43 anos. Antes, talvez tenha realizado seus desejos secretos na arte, numa figura como Georges Duroy.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

 

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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