A Cor Púrpura: Entre Irmãs

A Cor Púrpura é um melodrama envolvente e inspirador, primeiro "filme adulto" de Spielberg, como se disse à época

22/01/2018 12:46 Por Jorge Ghiorzi
A Cor Púrpura: Entre Irmãs

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Na metade dos anos 80 a carreira de Steven Spielberg como diretor chegava a um impasse. Após 10 anos de bem sucedidas obras voltadas para um cinema de fantasia e entretenimento, o realizador sentiu necessidade de experimentar novas histórias e abordagens mais realistas. A imposição não vinha do mercado, mas de sua motivação pessoal em busca da legitimidade da crítica e da Academia para um tardio reconhecimento para suas capacidades como um cineasta completo. O aval da indústria seria fundamental para colocá-lo no time dos maiores realizadores norte-americanos. A virada aconteceu em 1985 quando dirigiu A Cor Púrpura (The Color Purple), seu primeiro “filme adulto”, como se disse à época. A produção foi um sucesso e recebeu 11 indicações para o Oscar. Mas, incrivelmente o nome de Steven Spielberg ficou de fora da disputa. Ele não foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor, num flagrante erro histórico da Academia. Mas, o mais surpreendente ainda estava por vir: o filme não recebeu nenhuma estatueta sequer.

Além de arriscada, a primeira experiência de Spielberg fora da zona de conforto trouxe um desafio adicional. A história de A Cor Púrpura trata essencialmente de discriminação racial contra os negros, violência doméstica contra as mulheres e repressão sexual. Como convencer o público de que um cineasta branco, judeu e conservador poderia dar conta de temas tão difíceis? A solução foi lançar mão de um artifício infalível para conquistar corações, que Spielberg utiliza com habilidade: a emoção.

Baseado no romance epistolar de Alice Walker, lançado em 1982 e vencedor do prêmio Pulitzer, A Cor Púrpura se passa no meio rural do sul dos Estados Unidos. A história inicia em 1909 e acompanha por quatro décadas a vida de duas irmãs, Celie (interpretada por Whoopi Goldberg, na fase adulta) e sua irmã mais nova, Nettie. Separadas à força na adolescência pelo pai alcoólatra, a sorte lhes reservou destinos completamente diferentes. Nettie aprende a ler e escrever, é adotada por pastores religiosos e vai morar na África, onde se casa e constitui família. Celie, por sua vez, é forçada pelo pai a casar-se com um viúvo, Mister / Albert (Danny Glover), que se mostra um homem violento e abusador que trata a própria esposa como escrava. A pouca instrução de Celie não a impede de encontrar consolo nos livros. Submetida às agressões físicas e morais do marido, Celie só encontra razões para continuar vivendo pela esperança de receber cartas com notícias da irmã. Cartas estas que serão decisivas para o desfecho da história e fator de redenção da sofrida trajetória de Celie.

O imenso arco dramático da história das irmãs dá contornos de épico para o filme de Spielberg, com suas mais de 2 horas e meia de duração. Misto de panorama social de uma época e drama intimista da luta de uma mulher em busca da felicidade, A Cor Púrpura é um melodrama envolvente e inspirador. A trágica história da protagonista provoca empatia imediata da plateia, graças ao comovente desempenho da então iniciante Whoopi Goldberg (indicada ao Oscar). Igualmente contribui para este resultado a sensível direção de Spielberg, ainda que por vezes ele erre a mão no seu afã de arrebatar o público com sequências de forte impacto emocional.

Dois exemplos deste tropeço podem ser citados. Um pelo excesso, outro pela carência. O primeiro deles é a sequência da desesperada cena da separação das duas irmãs, executada de forma histriônica, teatral e exagerada, mas de grande carga de sentimentos, reconheça-se. Curiosamente a separação das irmãs, daquela forma, não existe no livro. Foi apenas um recurso dramático proposto pelo roteiro. No outro episódio onde Spielberg erra a dosagem da emoção, o diretor peca pela timidez ao não aprofundar todo o potencial da cena. Na sequência onde a sexualidade da reprimida Celie é despertada por um momento de intimidade com a cantora Shug Avery, amante de seu marido, Spielberg apenas sugere, meio envergonhado, um momento de relação sexual lésbico, limitando-se apenas a um casto selinho das duas. Anos depois o próprio Spielberg declarou que se arrepende de não ter sido um pouco mais explícito e ousado naquele momento tão crucial para a protagonista.

Após a resolução das trajetórias das irmãs Celie e Nettie, o final de A Cor Púrpura ainda nos brinda com uma bela sequência que faz uma homenagem a dois gêneros musicais nascidos nas comunidades negras norte-americanas. Artistas, músicos e cantores do cabaré da região partem em procissão cantando Blues rumo à igreja da cidade, onde corais religiosos entoam canções Gospell, criando um momento magnífico de interação musical. A música também é um caminho para encontrar o sublime.

Uma das personagens mais carismáticas de A Cor Púrpura é a impetuosa e brava Sofia, que não leva desaforo para casa, interpretada por Oprah Winfrey, em sua estreia no cinema. Por este desempenho ela recebe uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante.

 

Assista o trailer: A Cor Púrpura

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Sobre o Colunista:

Jorge Ghiorzi

Jorge Ghiorzi

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Marketing. Redator, roteirista e produtor de eventos culturais. Editor da publicação “Cine Guia Preview” (1995 – 2000) e do newsletter “Cine Guia Preview” (2009 – 2011). Produtor do Festival de Cinema de Gramado por 17 anos. Colaborou com críticas de cinema para jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já publicou textos de cinema em diversos blogs e sites, como “Papo de Cinema”, “Facool” e “Movi+”, e também para a revista “Voto”. Criou a produtora cultural “Cine UM”, em 2009, que desenvolve uma programação de cursos livres de cinema em Porto Alegre e no interior do estado. Contato: jghiorzi@gmail.com

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