Adeus à Compreensão

O franco-suíço Jean-Luc Godard tem conseguido provocar rupturas dentro de sua própria realidade de filmar

12/05/2019 01:20 Da Redação
Adeus à Compreensão

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O franco-suíço Jean-Luc Godard tem conseguido provocar rupturas dentro de sua própria realidade de filmar. Ainda que ele mantenha a essência de não dar trégua ao pensamento do espectador, fazendo constantes ziguezagues formais que se reiteram, os processos de construção dos filmes trazem alterações a cada realização. É o que se vê em Imagem e palavra (Le livre d’image: 2018), um documentário, ou paradocumentário, do pensar de hoje e de como pode um cinema de autenticidade plena expor em imagem e palavra este navegar de ideias do homem do século XXI; utilizando imagens de arquivo, muitas de filmes clássicos como a estrada de Federico Fellini onde Gelsomina exclama que Zampanò chegou ou a revelação godardiana de que os signos estão entre nós, jogando imagens e palavras disparatadas em sua moviola, costurando o cérebro narrativo com uma voz-over que é o próprio sussurro intelectual do realizador, Godard transforma Imagem e palavra num dos eventos de nossa época, em cinema ou em qualquer outra coisa, uma forma estética única.

Em Imagem e palavra, talvez mais do que em todos os seus outros filmes, Godard faz um mergulho na linguagem primeira do cinema, onde se misturam amadorismos adrede de filmagens, quebras ou faltas de ritmo, tremores de câmara, desfocados nas luzes, mas também um rigor de ascetismo cerebral que torna tudo tão diverso e inesperadamente sofisticado. Se em seu trabalho anterior Godard deu adeus à linguagem, ao modo de expressão, agora Godard se despede da própria redenção do homem. Talvez o centro temático de Imagem e palavra sejam aquelas imagens e referências verbais ao mundo árabe. A voz-over sussurrada de Godard pergunta: “Les arabes profiter pour parler?” Que benefício poderá haver para os árabes falar conosco? O mundo ocidental não entende o mundo muçulmano. Godard mostra imagens da pobre gente árabe no cenário do deserto. Observa a voz: “Eles costumam lançar bombas; que mais poderiam fazer?” Tergiversando aqui e ali, Godard e o ego de sua voz confessam: “Estou ao lado das bombas.” Radicaliza dentro de seu radical: que mais poderia fazer?

Em Imagem e palavra topamos Robert Bresson e Roberto Rossellini, os primeiros balbucios de filmar e a crueza das grandes cenas clássicas na guerra. Há o visual literário, como em O livro de cabeceira (1996), do inglês Peter Greenaway. E há o prosseguimento das pesquisas de construção de imagens e montagens que o alemão Alexander Kluge interrompeu no cinema há vários anos, ou reaparecendo ciclicamente. Como esta gente toda, Godard está no topo: e no entanto propõe uma forma de compreender que é um adeus à compreensão. Compreensão de um filme ou do próprio ser humano? Há motivos nas notícias atuais para este adeus.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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