A Representação Social na Literatura

Estudo básico para a compreensão dos movimentos ideológicos brasileiros, constantes ao longo do séculos, Itinerário de uma Falsa Vanguarda está cheio de achados

22/02/2018 15:20 Por Eron Duarte Fagundes
A Representação Social na Literatura

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A Semana de Arte Moderna de 1922 envelheceu, assim como qualquer movimento revolucionário envelhece, mas o exame de suas realidades deve sempre tornar à pauta, pois em suas formas de manifestação a questão social brasileira se acha representada, ainda que o objeto da semana seja a arte, que é uma parte somente do social e no entanto é, como queria o escritor francês Stendhal, um espelho dos demais elementos sociais. Bem conhecida, por sua sobrevivência, pela contribuição desmistificadora à nossa cultura, pelas ações literárias de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, esta Semana teve um lado mais obscuro, que nas décadas seguintes foi passado ao largo, e que era um retrato do que é a essência de nossos embriões sociais, o conservadorismo: nomes como Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Ronald de Carvalho, Elísio de Carvalho não são hoje tão evocados, mas carregam em si uma colagem à vanguarda da Semana que parece paradoxal e contraditória, um conflito que é a própria alma do conservadorismo brasileiro até hoje.

Itinerário de uma falsa vanguarda; os dissidentes, a Semana de 22 e o integralismo (2010), de Antonio Arnoni Prado, conquanto seja uma primorosa análise literária das questões desta facção retrógrada da Semana, expande-se para o universo social e antropológico com rara felicidade. Por artes de um escrever pensando, Arnoni vai compondo uma história brasileira (estética e ideológica) que ainda está em aberto e vai permanecer aberta no final, pois a História é contínua e os livros são fisicamente finitos. O estímulo deste ensaio que teve suas origens num opúsculo de 1983 nascido duma defesa de tese universitária é captar também estas relações entre um livro e suas limitações e o fluxo histórico que teve um ponto fixo (a Semana de 22) mas não pode ser visto como um  ponto estático fora do fluxo.

Estudo básico para a compreensão dos movimentos ideológicos brasileiros, constantes ao longo do séculos, Itinerário de uma falsa vanguarda está cheio de achados que, à medida da leitura e de acordo com e generosidade do leitor que levanta os olhos para a realidade, se tornam curiosamente pragmáticos, passando do lúdico (o prazer de desfrutar um texto de elevada força literária) para a teoria estética aplicada ao real em torno, algo como uma tese antropológica travestida de tergiversações sobre literatura. Eis: “É nesse registro que devemos pensá-lo, uma espécie de clichê fragmentado imposto pela retórica facciosa das minorias dirigentes, um produto metaforizado da consciência dependente, capaz de compensar, com a ferocidade verbal das ideias da moda, a índole retrógrada de seu espírito.”

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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