40 Anos sem Alfred Hitchcock

Poucos cineastas conseguiram alcancar o prestigio de ser reconhecido por um estilo tao peculiar que cria um genero em torno de suas obras

30/04/2020 14:13 Por Adilson de Carvalho Santos
40 Anos sem Alfred Hitchcock

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Poucos cineastas conseguiram alcançar o prestígio de ser reconhecido por um estilo tão peculiar que cria um gênero em torno de suas obras, cultuado, imitado, parodiado mas jamais superado. Dia 29 de abril lembramos os 40 anos de sua morte com um legado invejável de obras vistas e revistas constantemente.

Alfred Joseph Hitchcock nasceu em Londres em 13 de agosto de 1899, destinado a se tornar o mestre do suspense, do thriller psicológico. Mesmo já contando com 24 títulos em sua fase inglesa, foi subestimado e ignorado pelos críticos americanos quando chegou a Hollywood no final dos anos 30, contratado por David O’Selznick para dirigir “Rebecca – A Mulher Inesquecível” (1940) com Lawrence Olivier e Joan Fontaine.

Influenciado pelos expressionistas alemães como Fritz Lang, Hitchcock desenvolveu seu próprio estilo peculiar, marcado pela manipulação do medo e mergulhado nas teorias psicanalíticas. Seus personagens têm a inocência e a culpa confundidos como Robert Cummings em “O Sabotador” (1941) e Cary Grant em “Intriga Internacional” (1959). O diretor trabalhava obsessões e perversões como Anthony Perkins em “Psicose” (1960) e James Stewart em “Um Corpo que Cai” (1956) e a cada trabalho aperfeiçoou sua técnica dominando o set de filmagem e todo o processo de pós-produção. Hitch entendeu cedo que o filme era resultado de uma fotografia e iluminação em perfeita sincronia com uma história, talvez até simples, mas conduzida com uma trilha sonora impressionante, a cargo de seu usual colaborador Bernard Herrman. Como esquecer dos acordes que acompanhavam os passos de James Stewart, Anthony Perkins ou Cary Grant a medida que mergulhavam em uma espiral de eventos sem consciência da real dimensão em que estavam inseridos. Os personagens Hitchcockianos são objetos de análise profunda, o que o diretor repudiava em seus trabalhos. Costumava se definir como “um pintor de flores” e negava qualquer intenção de emitir alguma moral profunda ao final de seus filmes.

Hitchcock brincava com a expectativa do público com elementos cênicos que carregam um efeito motivador para o desenvolvimento da narrativa, Chamava de “MacGuffin”, uma piada que certa vez contou em entrevista ao cineasta François Truffart em 1966. Disse que MacGuffin era um aparelho para apanhar leões nas montanhas escocesas, quando na verdade não há leões lá, logo concluiu “então não existe MacGuffin !!” O mestre do suspense usava de sua característica fina ironia para desmistificar a força motriz por traz da ação, era como um mágico que jamais explicava seu truque, enquanto fazia da montagem a essência de seu trabalho criando uma atmosfera envolvente e sedutora.

A constante ajuda de sua esposa Alma Reville era vital para seus filmes como pode ser conferida no filme semi biográfico “Hitchcock” (2013) em que o mítico diretor foi vivido por Anthony Hopkins, retratando os bastidores de um de seus maiores triunfos comerciais “Psicose”. A relação de Hitch com seus astros é no mínimo controversa rezando a lenda de que desprestigiava seus atores chamando-os de “gado” (Dizia “Nunca os chamei de gado, mas que deviam ser tratados como gado”) e assediava suas belas estrelas, simulacros de uma repressão sexual que parecia nortear a escolha dos papeis e sua conduta nos bastidores. Até hoje se fala que era apaixonado por Grace Kelly com quem filmou “A Janela Indiscreta” (1954), “Disque M para Matar” (1954) e “Ladrão de Casaca” (1955), mas foi a ex modelo Tippi Hedren quem protagonizou uma história de assédio que só veio à tona após a morte do diretor. Segundo a atriz, que trabalhou em “Os Pássaros” (1963) e “Marnie – Confissões de uma Ladra” (1964), Hitchcock a perseguia e ameaçava durante as filmagens como um carrasco inspecionando corte de cabelo, roupa e maquiagem como um tirano.

 Recentemente a filmagem em plano sequência de “1917” de Sam Mendes foi aclamada, mas em 1944 Hitchcock teve efeito surpreendente ao fazer o mesmo no clássico “Festim Diabólico”, chegando a fazer marcações no chão para que os atores se posicionassem diante da câmera. A verdade é que sua personalidade extrema e controladora convivia com genialidade inegável e um senso infalível para alcançar o apelo popular, mesmo na Tv onde apresentou durante 7 anos o show de antologia “Alfred Hitchcock Presents”.

Os atores, embora maravilhosos, eram mero adereço para a visão cinematográfica do mestre. Um filme de Hitchcock é um filme de Hitchcock, que adorava fazer aparições inesperadas como que imprimindo uma marca registrada, ou simplesmente contando mais uma piada irônica para a tela, fosse entrando em uma loja de animais em “Os Pássaros”, aparecendo em uma foto em “Disque M para Matar” (1954) ou em um ônibus ao lado de James Stewart em “O Homem que sabia demais” (1955). Este foi filmado duas vezes, uma em 1936 e vinte anos depois com James Stewart e Doris Day. Revelou certa vez em uma entrevista “A primeira foi feita por um talentoso amador. A segunda por um profissional”. Ainda assim, nunca ganhou um Oscar competitivo apesar de suas 5 indicações. Mas a posteridade lhe fez juz e não há como negar que suas obras são referência não apenas para um gênero, mas para a arte cinematográfica que muito deve a esse pintor de flores capaz de dominar imagem, roteiro, edição; e o mais importante, dominar o nosso medo.

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Sobre o Colunista:

Adilson de Carvalho Santos

Adilson de Carvalho Santos

Adilson de Carvalho Santos e' professor de Portugues, Literatura e Ingles formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela UNIGRANRIO. Foi assistente e colaborador do maravilhoso critico Rubens Ewald Filho durante 8 anos. Tambem foi um dos autores da revista "Conhecimento Pratico Literatura" da Editora Escala de 2013 a 2017 assinando materias sobre adaptacoes de livros para o cinema e biografias de autores. Colaborou com o jornal "A Tribuna ES". E mail de contato: adilsoncinema@hotmail.com

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