No Corao do Sculo XIX: Sentimentos Que Decaem

No corao do sculo XIX, provavelmente o mais literrio dos sculos, o francs Alfred de Musset ele prprio uma pea de arte

26/08/2016 22:56 Por Eron Duarte Fagundes
No Coração do Século XIX: Sentimentos Que Decaem

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No coração do século XIX, provavelmente o mais literário dos séculos, o francês Alfred de Musset é ele próprio uma peça de arte. Suas emoções iniciáticas, enviesademente incautas são convertidas numa linguagem luminosa em que a densidade erótica vem da própria maneira de utilizar a língua. Para o leitor francês, trata-se duma leitura de formação; como entre nós, Gonçalves Dias ou Raul Pompeia. De Musset disse o crítico Émile Henriot: “Relire les poètes qu’on a aimés dans sa jeuneusse peut être souvent une épreuve. Si les curiosités de l’esprit vont ailleurs, si le goût est devenu plus sévère, le coeur pourtant n’a pas changé: par la vérité qu’ils expriment, ceux qui l’ont ému une fois ne cessent pas de l’emouvoir; Musset entre tous a cette chance.” (“Reler os poetas que se amou na juventude pode ser o mais das vezes uma prova. Se as curiosidades do espírito vão a outras plagas, se o gosto se tornou mais severo, o coração no entanto não mudou: pela verdade que estes poetas exprimem, aqueles que uma vez  emocionaram nosso coração não param de o emocionar; Musset entre todos tem esta oportunidade.”). Henriot age, para com Musset, um pouco como o crítico brasileiro Augusto Meyer relativamente à literatura de Eça de Queirós: as complexidades posteriores de leitura (ou de caminhada literária) não impedem o desejo de tornar às simplicidades dos contatos de formação, aos antigos amores, aos flertes com os velhos autores.

Musset é mais conhecido como poeta. Seu tema central, os sofrimentos trazidos pelo amor, a figura feminina como desejo e dor, tem alguns versos antológicos. Seu poema “Laure”, de 1832, tem uma quadra misteriosa, delirante e cheia de provocação entre espiritual e carnal: “Si l’esprit et les sens, les baisers et les larmes,/ Si tiennent par la main de ta bouche à ton coeur,/ Et s’il te faut ainsi, pour y trouver des charmes,/ Sur l’autel du plaisir profaner le bonheur:” (“Se o espírito e os sentidos, os beijos e as lágrimas,/ Se seguram pelas mãos de tua boca a teu coração,/ E se te é preciso assim, para encontrar ali encantos,/ Sobre o altar do prazer profanar a felicidade.”).

Mas nem só de poesia é feito o estro de Musset. Ele escreveu um romance que sobrevive galhardamente aos séculos. É La confession d’un enfant du siècle (A confissão dum filho do século; 1836). Novamente em cena, e em palavras, o amor e suas dores. No entanto, Musset amplia o foco de um caso amoroso para uma reflexão sobre os dilemas da existência de toda uma geração no coração do século XIX. Um retrato da burguesia europeia, jovem e vazia, diferente este retrato do que fez desta mesma burguesia outro francês, Honoré de Balzac: menos anotações de costumes que em Balzac e muito mais uma atmosfera, uma espécie de epiderme tensa e apaixonada. Nos primeiros movimentos do romance o que temos é uma recriação de uma época. Alguma coisa de Stendhal ou Balzac, mas por processos mais intimistas, menos históricos: rangentemente pessoal em Musset.

Assim se começa: “Pour écrire l’histoire de sa vie, il faut d’abord avoir vécu; aussi n’est-ce pas la mienne que j’écris.” (“Para escrever a história de sua vida, se precisa primeiro ter vivido; senão não seria a minha que escrevo.”). A situação que deflagra o nervo dramático do romance (o protagonista é traído por sua amante que tem um caso com o amigo do traído) é tributária da vivida pelo próprio Musset: amasiado com a escritora George Sand, Musset caiu doente e foi traído por sua amante, que se relacionou com o médico que tratava o escritor). Musset identifica na dor e na traição do amor o mal do século, uma doença que passa do indivíduo à sociedade atingindo um grupo de indivíduos de uma geração. “J’ai à raconter à quelle occasion je fus pris d’abord de la maladie du siècle.” (“Vou contar em que ocasião fui apanhado pela primeira vez pelo mal do século.”). Pouco depois vem a revelação seca e terrível: “L’homme que j’avais surpris auprès de ma maîtresse était un des mes amis les plus intimes.” (“O homem que eu surpreendera junto de minha amante era um de meus amigos mais íntimos.”).

Musset faz uma radiografia maravilhosa do amor no século XIX. Um êxtase, como é praxe no grande escritor. Ele sabe pôr em literatura as dissimulações e as sutilezas da fêmea humana. Romântico, exaltado, mas verbalmente criativo, ele antecipa as visões mais realistas do fim do século. O doloroso mal do século vai converter-se em melancolia cínica nos autores posteriores. Já a há um pouco no texto de Musset.. “Je la trouvai assise devant sa toilette, immobile et couverte de pierreries. Sa femme de chambre la coiffait; elle tennait à la main un morceau de crêpe rouge qu’elle passait légèrement sur se joues. Je crus faire un rêve; il ne paraissait impossible que ce fût là cette femme que je venais de voir, il y avait un quart d’heure, noyée de douleur et étendu sur le carreau. Je restai comme um statue. Elle, entendant sa porte s’ouvrir, tourna la tête sourriant. —Est-ce vous? dit-elle. Elle allait au bal et attendait mon rival qui devait l’y conduire. Elle me reconnut, serra ses lèvres et fronça le sourcil.” (“Eu a encontrei sentada diante de seu toucador, imóvel e coberta de pedrarias. Sua criada a penteava; ela trazia na mão um crepe vermelho que passava ligeiramente sobre suas faces. Cri então estar sonhando; me parecia impossível que se tratasse da mesma mulher que eu acabava de ver, havia um quarto de hora, afogada de dor e estendida no chão. Permaneci como uma estátua. Ela, ouvindo a porta abrir-se, volveu a cabeça sorrindo. ‘É você?’ disse ela. Ela ia ao baile e esperava meu rival que devia levá-la. Ela me reconheceu, apertou os lábios e franziu a sobrancelha.”).

Mais adiante na narrativa, um novo amor e novas dores. A amante traidora que não tinha nome é substituída por Brigitte, que tem um companheiro. Otávio, o protagonista, é o outro. Sofre-se igualmente. Sofrer emocionalmente é a doença do século imaginada pela alma de Musset. Há aspectos desmaiantes no texto deslizante e antigo de Musset. “Lorsqu’elle reprit connaisance, elle se plaignit d’une extreme langueur et me pria d’une voix tendre de la laisser pour qu’elle se mit au lit.” (“Quando ela recobrou a consciência, ela se lamentou com um extremo langor e me suplicou com uma voz tenra que a deixasse para que pudesse deitar-se.”).

A melancolia final do afastamento é ditada por uma mudança que virá mas não se sabe. “Elle frappa sur son coeur avec force; ils pressèrent le pas et disparurent dans la foule. Une heure après, une chaise de poste passa sur une petite colline, derrière la barrière de Fontainebleau. Le jeune homme y était seul; il regarda une derrière fois sa ville natale dans l’éloignement et remercia Dieu d’avoir permis que, de trois êtres qui avaient souffert par sa faute, il ne restât qu’un malhereux.” (“Ela bateu no seu coração com força; apressaram o passo e desapareceram na multidão. Uma hora depois, uma carroça passou sobre a pequena colina, atrás da barreira de Fontainebleau. O jovem estava sozinho ali; olhou uma derradeira vez sua cidade natal ao longe, e agradeceu a Deus ter permitido que, de três seres que sofreram por sua culpa, não restou senão um infeliz.”). A infelicidade como parte do processo amoroso. A felicidade do que isto gera em Musset: a explosão dos sentidos em formas espirituais de linguagem. Como diz nuns versos: sob o altar do prazer, profanar a felicidade.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicaes de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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