A Morte na Pena de um Cronista

Hoje eu venci o c?ncer tem seu grau de interesse como leitura

09/06/2022 12:05 Por Eron Duarte Fagundes
A Morte na Pena de um Cronista

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Antes do escrito: O texto que agora publico eu o escrevi em 2018. Escrevi como faço com tudo quanto é livro: se publicam, se me cai nas mãos, escrevo sobre eles. Na época, pudores e receios me levaram a ter o texto nas gavetas, como uma anotação sobre algo que li e participa de meus processos de aprendizado de leitura. David Coimbra, o autor  do livro que analiso, faleceu no último dia 27.05.2022, vitimado por complicações do câncer que ele descreve em sua obra e que, segundo a medicina, deveria matá-lo ainda ali por 2013. Por que o trago à luz agora? Não sei bem. David assim faz o último parágrafo de suas “memórias da morte”: “Quantos dias mais me cabem? Não sei. Felizmente não sei. Mas, sejam quantos forem, o que espero deles é poder terminá-los olhando o sol que se põe, talvez sorrindo para alguém que amo, talvez fazendo um brinde à vida, ou apenas dizendo para mim mesmo: tem sido bom.” Sim: não há nada de novo na morte de todos nós. Mas mesmo o acúmulo de experiências em minhas mais de seis décadas, com coisas que se reiteram (já perdi gente importante na minha vida que foi embora muito cedo), ainda conservo esta primitiva capacidade de chocar-me com mortes precoces, em pleno voo de suas possibilidades humanas e profissionais. David escrevia de maneira limpa (talvez limpa demais) e estava na grande mídia; e ao longo dos anos foi atraindo iras e desconfianças e imputações fáceis e algumas míopes. Os contemporâneos somos sempre os mais falhos para determinar a verdade e a grandeza dos indivíduos de nossa época. Augusto Meyer escreveu sobre Machado de Assis que no dia de sua morte começava mesmo sua vida. Com a morte de David será possível enxergar as conquistas, os dasacertos e as limitações de sua escrita e de seu jornalismo? Claro: não agora, não à beira do túmulo. Observação; este “antes do escrito” é um pouco um comentário em torno e à margem do texto abaixo, escrito em 2018, falando de morte mas ainda longe da morte. (Junho de 2022)

 

A Morte na Pena de um Cronista

(Novembro de 2018)

 

 

David Coimbra é um dos bons cronistas do sul do país. Não chega a transcender muito este conceito de bom cronista. Mas escreve com a graça de dar algum prazer ao leitor que busca uma leitura distraída e de sensibilidade.

De uns anos para cá David enfrentou uns percalços. Teve um câncer que poderia matá-lo e, após idas e vindas, foi parar nos Estados Unidos, onde se submeteu a um tratamento experimental. Atualmente vive nos Estados Unidos e de lá observa o Brasil, inclusive com alguns textos irônicos sobre o PT, que têm irritado muita gente por aqui. Como a maioria, David usa as superfícies jornalísticas para falar superficialmente de coisas complexas.

Em Hoje eu venci o câncer (2018) David mantém a coerência de seu estilo. Ao falar de coisas tão complexas quanto estar gravemente doente e estar para morrer, David não é nenhum Leon Tolstoi ou Gustavo Corção, que fizeram ficção sobre personagens que sabiam que iam morrer. Nem evoca o que fez nos anos 90 o escritor gaúcho Caio Fernado Abreu, vítima da AIDS. É um cronista diante da morte: faz um relatório jornalístico no qual mal podemos adivinhar o tumulto de seu interior. “Eu tive câncer com metástase.” É uma frase difícil, dura, certamente a que David escreve. Mas às vezes o leitor mais afeiçoado à literatura que ao jornalismo pode sentir falta de alguma outra coisa. A trajetória da morte, ou da luta contra a morte, é um espaço de crônica no texto de David, frases cultas e elegantes, controladíssimas e boas de ler, ainda que eivadas de um certo despojamento que não é aquele de Graciliano Ramos (com seu ranger sintático) ou da francesa Leïla Slimani (com sua agudeza progressiva das orações). Mas é o jeito de David: e está bem, naturalmente.

Em termos de relato duma doença particular, David pode aproximar-se daquilo que fez Hiltor Mombach em Quando o corpo grita: síndrome do pânico (2017). O que torna o livro de Mombach mais inteiriço é que todas as referências se encaixam no texto-depoimento sem romper o ritmo; em Hoje eu venci o câncer há as longas citações de crônicas de época do próprio David e o caso da briga com o falecido jornalista Paulo Sant’Ana que estorvam a tensão daquilo que verdadeiramente interessa, como David vê, retrospectivamente, o que se passou com ele. Mesmo assim, Hoje eu venci o câncer tem seu grau de interesse como leitura.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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