O Pensamento Literario de Antonio Candido

Brigada Ligeira se volta quase todo para a literatura brasileira dos anos 30 e 40

18/01/2026 03:38 Por Eron Duarte Fagundes
O Pensamento Literario de Antonio Candido

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Brigada ligeira (1945) é uma geografia fundamental de pensar a literatura na pena de um dos maiores do século XX, o crítico literário Antonio Candido. No prefácio, ele, modestamente, ou cônscio da momentaneidade da leitura de contemporâneos, adverte: “Os capítulos deste livro não são propriamente ensaios, mas artigos de circunstâncias, feitos para atender às exigências do rodapé semanal que escrevo para a folha da Manhã, de São Paulo.” Sim: toda crítica duma obra de arte, lida anos depois, parece sempre datada; tem o perfume de seu tempo; mas quando se trata dum espírito iluminado como o de Candido (que divide com Alvaro Lins e Otto Maria Carpeaux o cume do pensar literário entre nós), este retrato de época chega a ser extasiante, ainda que tenham passado muitas décadas.

Ao dizer que “Oswald de Andrade é um problema literário”, Candido logo põe em cena os neurônios estéticos da literatura. Embora incomodado ideologicamente pelo jeito literário de José Geraldo Vieira, seu fascínio a contragosto por um romance como A quadragésima porta se evidencia diante de quem souber ler os paradoxos críticos de Candido, a despeito daqueles que usaram o texto crítico para mergulhar no esquecimento os livros de Vieira. “A quadragésima porta de José Geraldo Vieira, pertence a uma certa atmosfera literária que não foi perturbada pelo movimento renovador de 1930, tendo tido a sua origem na década de 1920. Atmosfera espiritualista e de tendência fortemente estética, em que se nota o fervor pela cultura europeia.”

Sua leitura de Jorge Amado é característica. “Em Terras do sem-fim, chegamos como que à solução do movimento dialético assinalado: chegamos, por assim dizer, à fórmula estética de Jorge Amado. Documento e poesia se fundem harmoniosamente através do romance histórico, como procurarei indicar. Para o autor, diga-se desde agora, não poderia haver solução melhor.” Sua intimidade com o universo de José Lins do Rego também é um dado: “Quanto à composição, Fogo morto é um dos romances de planos, no sentido geométrico.” Sua defesa de Erico Verissimo num tempo em que o romancista fora muito esnobado pela crítica, é posta sem exaltação: “Se há um escritor popular no Brasil, é Erico Verissimo. Razão suficiente para as nossas elites torcerem o nariz ante a sua obra.”

No entanto, mais que tudo, sua agudeza e identidade crítica se estabelece quando Candido se debruça sobre O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, um equilíbrio de linhas que correspondem perfeitamente ao seu espírito crítico. “O acabamento, a segurança, o equilíbrio, a realização quase perfeita revelam o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios do seu ofício, possuidor de uma visão pessoal das coisas, lentamente cristalizada no decorrer de longos anos de meditação e estudo.”

Brigada ligeira se volta quase todo para a literatura brasileira dos anos 30 e 40. Mas em seu capítulo final vai ao francês Georges Bernanos e seu romance Monsieur Ouine, escrito na década de 40 quando Bernanos viveu no Brasil. “Creio não exagerar ao apontá-lo como um dos romances capitais do nosso tempo, como uma grande obra que é necessário ler, pelo que tem de permanente no seu sentido apocalíptico e no seu admirável estilo.” Brigada ligeira, com ser um autorretrato de Candido, é também uma breve história de nossa maneira de ler nas décadas de 30 e 40.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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