RESENHA CRÍTICA: Mia Madre (Idem)
É bom avisar que não se trata de uma comédia ou mesmo sátira como o diretor está acostumado a fazer
Mia Madre (Idem)
Itália, 15. 106 min. Direção e roteiro de Nanni Moretti. Co-roteirista Valia Santella, Francesco Piccolo. Com Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti, Beatrice Mancini., Stefano Abbati.
É bom avisar que não se trata de uma comédia ou mesmo sátira como o diretor está acostumado a fazer. Mas um drama lento e pouco bem humorado que é também autobiográfico. Embora Moretti esteja no elenco como de costume, aqui seu papel é secundário, faz o irmão da protagonista que é uma diretora de cinema (feita pela já veterana estrela italiana Marguerita Buy) que está em plena filmagem (a cena inicial é bem interessante uma multidão em protesto avança contra os policias armados e alguns tentam invadir a fábrica. É quando se revela que tudo não passa de uma filmagem). Segundo ele o lado mais autobiográfico de todos é o sentimento que Margherita sente, de não ser competente para o trabalho, não conseguir se comunicar com os outros e pior, nem se interessar pelos outros, incluindo a filha adolescente. E é assim que ele se sente quando dirige um trabalho.
Moretti aproveitou o que sucedeu realmente com sua mãe, para a situação básica. Mas durante uma filmagem a diretora jamais teria tempo para ficar visitando a mãe, jantar com o ator convidado americano que fala mal italiano e se acha no dever de fazer piadinhas sem graça (o papel é de John Turturro, um dos poucos americanos que falam italiano!). O grande problema para mim é que se torna difícil para o espectador se identificar ou mesmo gostar da diretora, que esta sempre chorando, com cara de entediada. Ou seja, ela seria uma má diretora e o filme resultaria numa droga (não ficamos sabendo do que ela teria feito antes). Não é uma figura admirável mas uma chata, que acarinhada por todos não sabe corresponder.
Nanni tem o papel do irmão que é ainda mais ingrato, fornecendo informações ao espectador mas sofrendo do mesmo bloqueio de sensibilidade. A gente pensa nos antigos filmes italianos, em Rocco e Seus Irmãos, onde todos se expunham e gritavam e choravam se agarrando uns aos outros. Francamente prefiro isso do que este filme morno e ate aborrecido que tem medo de comover e resolver situações. De qualquer forma, Moretti parece ter feito paralelos com sua vida. Sua mãe Agata, morreu em 2010 quando ele terminava Habemus Papam. Era professora de línguas clássicas latim e grego. O carro que Margherita dirige é do próprio Moretti, os livros nas estantes são da família e Guilia, que faz a mãe, usa nos hospital as roupas da mãe Agata. Para ele o momento mais comovente é a cena em que a neta ouve a chamada do hospital entende o que houve mas prefere se esconder como cobertor.
Madre Mia ganhou em Cannes apenas um prêmio ecumênico. Levou o premio David de Donatello de atriz Margherita e coadjuvante Giulia (a mãe). E teve mais 8 indicações. Marguerita também foi melhor atriz dos críticos italianos.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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