A África Mágica de Mia Couto

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002) é uma expressão densa da magia de escrever do moçambicano Mia Couto

28/08/2018 00:47 Por Eron Duarte Fagundes
A África Mágica de Mia Couto

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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002) é uma expressão densa da magia de escrever do moçambicano Mia Couto. Quem narra o romance é na verdade uma espécie de veículo poético, um carro de metáforas, uma ambulância sintática que parece sempre atravessar alguma coisa, que pode ser uma floresta. Tudo isto está representando um homem que tem um corpo, uma comunidade que tem histórias. Mas no fundo o protagonista de Mia é puro verbo: ou verbo quase puro. Eis-me então como um signo que pensa o romance.

O título meio barroco do romance, mas não tão barroco quanto os mais recentes romances do português António Lobo Antunes, vai desviando o senso mágico que se abate sobre o leitor durante esta narrativa extremamente depurada e cheia de achados.

“Doença que lhe pegou com a idade. Começou por deixar de ver o azul. Espreitava o céu, olhava o rio. Tudo pálido. Depois foi o verde, o mato, os capins-tudo outonecido, desverdeado. Aos poucos lhe foram escapando as demais cores.”

O tempo em verbo flui; por isso é rio. A habitação é a terra. Como se no planeta os rios (que são a maior parte) fossem estradas: o homem em trânsito, dificilmente alguém mora no rio ou no mar. Chega-se à terra firme, onde habitamos. Chamamos tempo à água: ela vai passando. Chamamos terra à casa em que moramos: fixamo-nos.

Mia tece sensações. Perscruta sua estilização de escrever. Estuda as reações das palavras quando postas umas diante das outras. O cineasta francês Robert Bresson fazia algo parecido no cinema: reações de entre-imagens. Num determinado momento o narrador, apaixonado por livros, é confrontado com a forma como seus livros desapareceram. E lhe revelam que foi seu pai quem fez os livros desaparecerem. “Foi mesmo assaltado por súbita visão: ele esvoava, cruzando nos céus com outros homens que, em longínquas nuvens, também sobraçavam livros.” Um filho, um pai e entre eles, dividindo-os, os livros. “Você agora, deve ensinar o seu pai. Lhe mostre que ainda é filho. Para que ele não tenha medo de ser pai. Para que ele perca um medo ainda maior: a de ter deixado de ser seu pai.” Sabe-se agora que Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra é sobre estas relações ancestrais, os cruzamentos de gerações, e as toca magicamente.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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