Flaubert por Sartre: As Transformaes do Ser

Sartre certamente impiedoso com sua admirada personagem. "Gustave era um pobre de esprito, de uma inverossmil credulidade patolgica"

13/05/2017 15:09 Por Eron Duarte Fagundes
Flaubert por Sartre: As Transformações do Ser

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Está na história: Gustave Flaubert, um dos maiores escritores do mundo, teve dificuldades de alfabetização. Foi aprender a ler, aos trancos e barrancos, quando entrou no liceu, aos nove anos de idade. Jean-Paul Sartre, o filósofo que se considerava o oposto de Flaubert (menos apegado ao formalismo, mais ideias que sentimentos, talvez mais “inteligente”), parte deste problema de formação de Flaubert para investigar as próprias grandezas e limitações do gênio literário, no primeiro volume de O idiota da família (L’idiot de la famille; 1971).

Segundo Sartre, este seu livro-testamento seria a continuação de seu Questão de método (1957), e seu tema estaria numa frase: “o que se pode saber de um homem, hoje em dia?” A dialética de leitura pedida por Sartre para O idiota da família é que o leiamos como romance e como verdade: um documentário de ficção, se aplicarmos uma teoria do cinema ao método literário.

Sartre é certamente impiedoso com sua admirada personagem. “Gustave era um pobre de espírito, de uma inverossímil credulidade patológica; caía com frequência em longos torpores, seus pais perscrutavam seu rosto e temiam que fosse idiota.” No fundo, o Flaubert de Sartre é o mesmo de Guy de Maupassant em Étude sur Gustave Flaubert (1884), mas os pontos de vista são muito diversos: enquanto Maupassant demonstra constantemente que os percalços iniciais do escritor foram superados por sua genialidade posterior, Sartre mantém sempre uma mira perversa, topando mesmo na trajetória mais exitosa de sua personagem laivos da idiotice na qual iniciara a vida. Nestes anos do século XXI, em que se desmonta facilmente o intelectual em suas pretensões de domínio do saber e até Sartre é desancado por autores de agora como o sociólogo Michel Maffesoli e o romancista Michel Houellebecq, se pode pensar na irreverência extraordinária de Sartre como uma antecipatória autorreferência. Seria Sartre assim tão diferente de Flaubert? Um escritor que retrata outro escritor não está, necessariamente, aqui e ali, retratando-se, assim como um romancista que inventa uma personagem-escritor? Seria O idiota da família um afresco em palavras do descalabro da mente do intelectual burguês a cuja classe, bem ou mal, todos os intelectuais pertencem, ainda quando tenham saído originalmente do povo (não é o caso —vir do povo— nem de Sartre nem de Flaubert)? Hipóteses críticas. O idiota da família, objeto deste texto de hipóteses, é, confessa-o o próprio autor, tecido assim: de hipóteses. Sartre transforma-se num rato atrás de cartas, documentos, manuscritos desconhecidos ou quase de Flaubert, relê as obras básicas do escritor, para construir seu próprio Flaubert, uma colcha de hipóteses, um Flaubert um tanto à sombra do homem Sartre.

A ambiguidade sexual de Flaubert evocada por Sartre, por exemplo. Na parte final do primeiro  volume, Sartre se detém nas relações de amizade entre Alfred Le Poittevin, tio do escritor Maupassant pela parte materna e alguns anos mais velho que o futuro autor de Madame Bovary (1857), e Flaubert. Sartre evita dizer concretamente que tenha havido contatos físicos entre Alfred e Gustave, mas deixa no ar o que ele chama hipótese. Também diz ao leitor que não interessa para a análise se o contato físico houve ou não: o que vai interessar a Sartre é uma espécie de homossexualidade espiritual, que nasce de considerações das características íntimas das duas personagens históricas. Sartre refere a passividade de Flaubert, como personalidade e como personalidade sexual. Insta com o leitor neste ponto. E aduz que não importa se a relação se dá com mulheres ou com homens. Exemplifica identificando a submissão às carícias como ato feminino, passivo; e dá um exemplo: a felação, que seria a preferência de Gustave, é um ato passivo, submetido, feminino. Contrapõe a felação à penetração, que seria o ato do macho, o comportamento ativo. Estas reflexões lá pelas tantas se estendem a Alfred, o mais velho, admirado por Gustave; morto cedo, sem produzir o que sua inteligência, segundo Gustave, lhe permitiria, Alfred sobreviveu na posteridade como o tio de Maupassant e o amigo de Flaubert. O leitor de O idiota da família nota no narrador de Sartre as delícias emocionais das descrições da personalidade sexual de Gustave, ainda que tudo esteja vazado sob uma instância cerebral; é um pouco como se Sartre, desvanecendo-se em seu próprio machismo, se metesse no meio de Alfred e Gustave para esta sarabanda sexual-intelectual que é uma das hipóteses de O idiota da família.

Um ensaio, uma biografia, umas possibilidades ficcionais e igualmente uma tentativa de, após longas digressões, resumir o que é a vida de determinado homem: “A linguagem, para Flaubert, nada mais é que a Estupidez, enquanto a materialidade verbal, deixada a si mesma, se organiza em semiexterioridade e produz um pensamento-matéria.” Depois de algum tempo, poderá o próprio ensaio de Sartre transformar-se numa autobiografia esmaecendo-se as diferenças entre escritores tão distantes em época e conceitos?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicaes de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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