Retrospectiva 2017

Rubens Ewald filho faz o balanço anual do Cinema

26/12/2017 09:26 Por Rubens Ewald Filho
Retrospectiva 2017

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À primeira vista estava supondo de que havia sido um ano muito ruim, com poucos grandes filmes, com excesso de filmes de arte europeus (no caso, quase todos foram lentos e indigestos demais) e só parecia haver alguma expectativa dentre os jovens quando se tratava de algum filme da Marvel ou DCComics (cada vez se tornando mais comédia, mais convencional). Na verdade, eles me divertem, não consigo levá-los tão a sério como faz uma legião de fãs. O que realmente me assusta é constatar que hoje quem escreve sobre cinema, tem vinte e poucos anos, não sabe nada dos filmes mais antigos (no máximo final dos anos 90) e como todo jovem tem a pretensão de se achar cheio de sabedoria e verdades (ok, suponho que também fui assim, mas ao menos a vida toda dediquei a tentar ver e entender os filmes do passado, que por alguma razão ou outra perdi). Um detalhe curioso: o êxito no Brasil cada vez maior dos filmes de terror, desta vez trazendo o melhor escritor do gênero Stephen King (voto pessoal) no estouro de It (A coisa, direção de mais um desconhecido Andy Maschietti, logo virá continuação). Voltou também o discutível Jogos Mortais (Jigsaw) dos irmãos Spierig. Particularmente no gênero prefiro Sete Minutos Depois da Meia Noite (A Monster Call) do espanhol J A Bayona com Sigourney Weaver.

Numa revisão mais detalhada já não estou tão pessimista. Antes vamos ver alguns trabalhos excepcionais, que merecem destaque e respeito:

Melhor filme de ação - Star Wars: O Último Jedi, de Rian Johnson. A revelação de um diretor quase desconhecido, num filme denso, bem estruturado e resolvido, tecnicamente notável. O curioso é que várias gerações, mas em especial os jovens, se acham donos do projeto e resultado. Mero engano. Os criadores é quem mandam e neste caso deram um passo extraordinário.

Melhor filme de arte - Poesia sem Fim (Endless Poetry), do Jodorowski. Desde quando era garoto tinha uma admiração muito forte por este artista chileno que fez El Topo, A Montanha Sagrada e agora nascido em 1929, fez este tocante e original filme poético. Isso sim que é sonhar e inovar.

Filme de maior impacto do ano - Num ano de conflitos e atentados, de racismo nunca tão exaltado, este filme Corra! (Get Out) de Jordan Peele, foi o mais original, mais ousado e porque não confessar para mim o que teve maior impacto. Começa como comédia e vai mexendo nas feridas, de maneira que vai concluindo de maneira até chocante. Uma pequena obra-prima original que reflete o nosso pobre mundo atual. Lançado em 2017, ainda deve concorrer as premiações de 2018!

Melhor documentário - um gênero que infelizmente circula pouco comercialmente (felizmente algumas televisões como a HBO mantém seu repertorio sobre os mais diversos temas e polêmicas). Mas num universo atual prefiro destacar um documentário justamente sobre o nascimento do cinema, dirigido pelo presidente do Festival de Cannes, Thierry Frémaux. Lumière, a Aventura Começa (2016) um notável registro dos primeiros grandes filmes dos inventores do Cinema, os irmãos Lumière.

 

A Lista dos Melhores do Ano

- Dunkirk (idem) de Christopher Nolan. Quem sabe foi meu passado de ter feito a Faculdade de História que me influenciou com este brilhante e original (na maneira de fazer e dirigir) de um trágico fato histórico da Segunda Guerra mundial onde o diretor Cult (vide os Batmans) da outra lição de cinema. Ainda acho que o Oscar devia pensar nele com carinho.

- Mulher-Maravilha (Wonder Woman) - Para mim, concordo com os que acham que foi o melhor filme de super-herói do ano e quem sabe até influenciou a revolta feminina na Academia do Oscar contra os abusos sexuais. O fato é que feito por uma mulher, Patty Jenkins (que deu Oscar para Charlize Theron em Monster), e estrelado por uma deusa judia Gal Gadot (e até seu galã Chris Pine tem melhorado dia a dia).

- O Apartamento (Forushande) de Asghar Farhad, - O melhor diretor do atual Irã, que ganhou o Oscar (e mesmo assim foi proibido de viajar para os EUA para receber o prêmio).

- La La Land - Cantando Estações de Damien Chapelle. Uma interessante tentativa de fazer um filme musical rodado em Los Angeles, com uma deliciosa trilha musical e um romance envolvente. Levou Oscars de atriz (Emma Stone), direção, foto, trilha musical, canção City of Stars, desenho de produção. Mas será que já não esquecemos dele?

- Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) - Sou fã do diretor Edward Wright desde os tempos de Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso, mas acertou em cheio neste divertido e cínico policial de perseguição (com ótimo elenco destacando o jovenzinho Ansel Elgort que consegue convencer num grupo de outros famosos). Quem não assistiu procure descobrir o filme.

- Moonlight (Idem) - A confusão dos papeis do Oscar com este filme e La La Land foi constrangedor e difícil de perdoar. Na verdade, ele foi bastante rejeitado aqui e lá fora por se tratar de uma ousada história de um tema pouco comum (e normalmente descartado pelos negros que não gostam de abordar o tema). Dirigido por Barry Jenkins, quase estreante dividido em alguns episódios, é corajoso, forte e muito emocionante.

- Planeta dos Macacos - a Guerra - Foi o diretor Matt Reeves e a interpretação do sempre surpreendente Andy Serkis (que também brilhou como o vilão de Star Wars). Nunca pensei que iria ainda gostar da série, que parecia tão abusada demais. Mas o diretor é super competente e contou ou melhor renovou a velha história num filme forte, inteligente e os efeitos nunca estiveram melhores.

- Logan de James Mangold - O diretor já e um veterano de filmes como Garota Interrompida, Johnny & June, Os Indomáveis, e Wolverine o Imortal. Mas foi com esta nova aventura com o astro Hugh Jackman que ele caiu no gosto do público que o consagra como um dos melhores do gênero. Estão certos.

- Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha - Por alguma razão não despertou o público que merecia. Feito por um excelente veterano britânico Stephen Frears tem uma extraordinária interpretação da veterana e querida Judi Dench. Uma história real e ainda até agora desconhecida da amizade da Rainha Vitória da Inglaterra com um indiano. Oscar possível para Judi!

- Borg vs McEnroe de Janus Metz - Já sei que ninguém iria acreditar que eu fosse gostar e aplaudir este filme pessimamente lançado aqui. A história real de dois rivais campeões de tênis muito bem dirigidos por um sueco (nome acima) e também bem interpretados por Sverrir Gurnadson e até Shia LeBoeuf (surpreendente!). Quem gosta de esporte não pode perder!!

- Doentes de Amor (The Big Sick) de Michael Showalter. Esta foi uma das raras comédias românticas que fez sucesso este ano nos EUA, e Holly Hunter tem sido indicada a prêmios. Infelizmente foi ignorada por aqui, pelo fato de tratar de uma cultura que mal conhecemos e entendemos, os paquistaneses. A comédia é doce, agradável e romântica sem deixar de levantar os problemas raciais e sociais entre as sociedades.

- Patti Cake$ (Idem) - Direção e roteiro de Geremy Jasper. De tempos em tempos, surge um filme norte-americano independente com desconhecidos, que faz inesperado sucesso. Uma história diferente, que sabe falar de gente pobre e gorda, mas nem por isso perde a garra, a força de viver e a própria simpatia. Vale experimentar.

- Extraordinário (Wonder) - Nesse mundo caótico e trágico em que vivemos até que é uma boa ideia finalmente fazerem um filme positivo de boas intenções e lições, que vem de um “Best-seller” norte-americano. A história de um garoto que tem seu rosto deformado e é interpretado por Jacob Tremblay de O Quarto de Jack com Julia Roberts sua mãe. Bom trabalho do diretor Stephen Chobsky que antes fez o talentoso As Vantagens de Ser Invisível. Experimente.

- Fragmentado (Split) de Shyamalan - Quem diria que o diretor de O Sexto Sentido iria conseguir dar a volta por cima e finalmente acertar com um bom thriller de suspense, bastante violento com uma excelente interpretação do subestimado James McAvoy. Vai ter até continuação...

- Um Limite Entre Nós (Fences) - Difícil adaptação de uma peça teatral, também interpretado pela grande dupla de Denzel Washington, e Viola Davis. Na verdade, ele deveria ter levado o Oscar (mais um) para fazer parceria com Viola (que levou o dela). Pena que a temática humana e universal não tenha cativado o público brasileiro.

- Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) de Theofore Melfi - Não ganhou nada no Oscar passado o que foi uma injustiça porque foi o filme mais interessante e positivo da seleção. Um adorável elenco negro se expondo com coragem e simpatia, numa história real de mulheres que trabalharam no projeto americano de viagem as estrelas. Até Kevin Costner convence.

- Assassinato no Expresso Oriente - Mesmo já conhecendo bem a versão anterior, achei um prazer assistir duas vezes esta aventura de época baseada em livro clássico de Agatha Christie (que muda bastante a versão anterior) com ótimo elenco mas quem brilha desta vez é o diretor do filme Kenneth Branagh e que também faz o papel do detetive Hercule Poirot que tenta solucionar o mistério. Ótimo elenco incluindo a maravilhosa Michelle Pfeiffer. Mas há também o bônus de ter sido feito em sistema de 65 milímetros provocando imagens notáveis.

- Armas na Mesa (Miss Sloane) - Outro que poucos viram. Embora não tenha maior simpatia por Jessica Chastain, ela está em seu melhor momento neste drama judicial interessante e surpreendente. Bom trabalho do diretor John Madden.

- Um Homem Chamado Ove - Direção de Hannes Holm. Indicado para 2 Oscars, filme estrangeiro e maquiagem. E agora Tom Hanks vai fazer uma refilmagem já que o papel é bem para ele. Uma discreta comédia humana sobre um aposentado que não consegue se tornar amigo dos vizinhos! Uma boa pedida.

 

Os Outros

Alguns outros filmes merecem ao menos uma atenção. Vamos lá: Moana desenho da Disney foi apenas convencional e dentro do padrão do estúdio. Eu, Daniel Blake, do mestre Ken Loach ganhou outra Palma de Ouro em Cannes mas não é dos melhores filmes do realizador octogenário. Lion - Uma Jornada Para Casa de Garth Davis podia ter conquistado maior público, mas quase passou em branco. Quem diria Mel Gibson depois dos delírios alcoólicos e desprezo dos judeus conseguiu voltar com Até o Último Homem (Hacksar Ridge), onde demonstrou que era bom realizador. Ninguém desmentiu isso, não gostamos dele porque é mau caráter. Grande parte da crítica fez questão de detonar o segundo Kingsman, que mesmo foi assim foi sucesso mundial. A mim me divertiu muito (Kingsman, o Circulo Dourado, The Golden Circle, de Matthew Vaughan). Outro diretor que admiro é o Park Chan Wook da Coreia do Sul. Ele brilhou com A Criada (Ah ga-ssi). Não curto muito Manchester a Beira Mar (Manchester by the Sea) de Kenneth Lonergan em parte por causa do premiado com o Oscar, várias vezes acusado de estupro e ainda assim saindo liberto, o irmão mais novo de Ben Affleck, o sem talento Casey. Os fãs de Robert Pattinson acham que ele surpreendeu no Bom Comportamento (Good Time). O que conseguiu foi tornar famosos os Irmãos Safdie, já veteranos do gênero. Detroit em Rebelião da Kathryn Bigelow não teve grande repercussão. O britânico Lady Macbeth de William Oldroyd não me convenceu, mas virou Cult na Inglaterra. Possível candidato ao Oscar de filme estrangeiro, o chileno Uma Mulher Fantástica de Sebastian Lello já é totalmente Cult. O grande diretor polonês Wajda apresentou seu último trabalho, o tocante After Image.

Temos mais: O francês Ozon continua fazendo filmes de pouco impacto mas bastante charme e interesse, o mais recente foi Frantz. Achei curioso e divertido o pouco visto Fome de poder (The Founder) com Michael Keaton dirigido por John Lee Hancock. Também foi melhor do que o anterior, o Alien Covenant de Ridley Scott. Dupla Explosiva (The Hitman´s Bodyguard), de Patrick Hughes teria funcionado melhor se não tivesse o exagero de palavrões traduzidos para português! Até Nunca Mais (A Jamais) bom drama do francês Benoit Jacquot. Feito na América (American Made) de Tom Cruise dirigido por Doug Liman foi pouco visto, mas é para descobri-lo depois! Gostei muito de outro filme da Coréia do Sul, muito violento mas empolgante: A Vilã (The Vilainess/ Ak-Nyeo), com Oki-bin Kim. Podia ter sido melhor a biografia Churchill do diretor Jonathan Teplitzky. Bom filme italiano mas pouco visto foi O Fantasma da Sicilia. Ri bastante com a comedia italiana Algo de Novo, de Christina Comencini. Também com a aventura Thor Ragnarok (como ator Chris Hemsworth evoluiu!). Fãs de cinema podem se divertir muito com O Formidável de Hazanavicious satirizando a vida do polêmico mestre da Nouvelle Vague, Jean Luc Godard na época em que foi casado com uma jovem atriz Anne Wiazensky! Foi uma surpresa também a comedia Pai em Dose Dupla 2 (Daddy´s Home 2) de Sean Anders. Com ótimo elenco onde se destaca o genial (as vezes) Will Ferrell! Terra Selvagem (Wind River) do novato Taylor Sheridan tem seus defensores, não eu. Também não consegui me envolver com Jackie, do chileno Pablo Larrain com Natalie Portman. O público não gostou e não embarcou, mas é interessante este Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes), da dupla Jonathan Dayton/ Valerie Faris, a dupla de Pequena Miss Sunshine. Um fato real esportivo com a boa dupla Emma Stone e Steve Carrell. Com Amor Van Gogh é mais uma curiosidade do que outra coisa, mas é diferente ver a obra do autor toda reproduzida em quadros revividos. Quem não gostava de Kristen Stewart vai se surpreender com o belo trabalho dela em Personal Shopper de Assayas.Tem se o que falar de A Bela e a Fera? Não, apenas que foi o alerta da invasão Disney que vem por ai...

 

Os Dois Escandalosos e Polêmicos Filmes do Ano

Houve dois momentos difíceis para os admiradores e o público em geral que não conseguiu dissecar e aceitar dois dos mais polêmicos e também interessantes trabalhos do ano. Que estão sendo esnobados em premiações, até porque ambos a sua maneira são bizarros. Mãe! (Mother!) de Darren Aronofsky (o filme foi tão odiado que até fez acabar o romance dele com a estrela do filme, Jennifer Lawrence!). E na imprensa brasileira vi algo também inédito, um artigo sobre o filme escrito a meu pedido por meu sócio Germano Pereira que explicava bem o filme. O texto foi espalhado pela imprensa que o absorveu sem dar qualquer crédito. No mínimo falta de educação! Para não dizer pior. É verdade porém que o filme é tão complexo que pode provocar momentos de raiva e ódio do público já que o diretor simplesmente não explicou praticamente nada. Mas apesar de tão pesado e estranho, deveria ter sido feito para Cannes e atingir outra plateia. Não rendeu mais do que 17 milhões para orçamento de trinta e poucos! Ou seja, nem se pagou. Só faltou botarem fogo nas salas!

O outro fracasso parecido é logicamente Blade Runner 2049 (Idem). Foi um pouco melhor já que chegou a render mais de 91 milhões de dólares (mas seu orçamento foi 150 milhões de dólares). Sendo que o primeiro Blade Runner, aquele de 1982, foi Cult mas também não fez sucesso de público e até a crítica custou a descobri-lo. Neste caso fica mais difícil ir contra este remake porque é tecnicamente esplendoroso, com uma fotografia brilhante e uma direção de arte espetacular. Talvez sua história seja confusa, a maneira de questionar o futuro do planeta e apresentar determinadas questões acabam se perdendo. Mas há momentos notáveis no trabalho do diretor canadense Dennis Villeneuve. E até o retorno de Harrison Ford e Sean Young. O fato é que não satisfez o espectador. Uma pena.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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