Retrospectiva Luchino Visconti no Cinesesc em São Paulo

Leia as críticas de todos os filmes do cineasta, por Rubens Ewald Filho

22/02/2018 09:56 Por Rubens Ewald Filho
Retrospectiva Luchino Visconti no Cinesesc em São Paulo

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São Paulo terá uma Retrospectiva com os filmes de Luchino Visconti, um dos maiores cineastas italianos, precursor do Neo-realismo. Veja a crítica de TODOS os filmes dirigidos por ele, por Rubens Ewald Filho. Confira aqui a programação da Mostra.

 

Obsessão (Ossessione) ****

Italia, 1943. 135 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Clara Calamai, Massimo Girotti, Dhia Cristiani, Elio Marcuzzo, Vittorio Duse, Michele Riccardini, Juan de Landa.

Sinopse: Gino, um jovem que vaga sem destino, se envolve com Giovanna, uma mulher casada com um sujeito mais velho, dono de uma hospedaria. Resolvem então matar o marido dela.

Primeiro longa-metragem de Luchino Visconti (1906-76), que o fez ser considerado um dos precursores do movimento Neo-Realismo. Como era a época da Guerra, ele adaptou o romance “O Carteiro Bate Sempre Duas Vezes”, de James Cain, sem pagar os direitos autorais - o que fez com que o filme não pudesse ser exibido em certos países durante muitos anos. Daí a semelhança com as duas versões de O Destino Bate à sua Porta, extraídos da mesma obra. Na época, o filme foi muito cortado pelos nazistas, e estreou em Paris, em 1959, com uma versão de 112 minutos. Nessa versão completa e restaurada, observa-se o notável trabalho do diretor ao criar um clima de sensualidade sem esquecer o ambiente social. Girotti está especialmente bem no papel do herói. Uma trama que poderia ser banal, brilhantemente executada, num clássico que não envelheceu.

 

A Terra Treme (La Terra Trema: Episodio del Mare) ****

Itália, 1948. 160 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Pescadores e Moradores de Acutrezza, Sicilia. Narração de Luchino Visconti e Antonio Pietrangeli.

Sinopse: Logo depois da Segunda Guerra, num pequeno porto da Catania, uma família de pescadores tenta escapar dos patrões (canotieri) que os exploram. Hipotecam a casa para se estabelecerem por conta própria, mas acabam arruinados.

Custou a passar comercialmente no Brasil este segundo filme de Visconti que é o mais Neo-Realista de seus trabalhos, ou seja, interpretado por amadores, em locais autênticos, mas também seu maior fracasso de bilheteria (mesmo no Festival de Veneza foi mal recebido). Sua produtora Universalia faliu (não por causa desta fita) e em geral foi mostrado em versão reduzida e dublada em italiano (ela é falada em dialeto siciliano), por vezes modificando seu sentido. Era para ser o primeiro de uma trilogia (daí o título original). Por causa disso, fora Bellissima Visconti não faria outro filme por dez anos se dedicando ao Teatro. Alguns críticos acham que o filme se difere de outros do Neo-Realismo, porque tem pretensões à Grande Ópera, ou seja, é quase um épico, refletindo não a vida como era, mas colocando nela a proposta socialista e até poética do diretor. Ainda resiste bem a uma revisão. Francesco Rosi e Franco Zeffirelli foram assistentes de Visconti na produção.

 

Belíssima (Idem) ****

Itália. 1951. 100 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Anna Magnani, Walter Chiari, Alessandro Blasetti, Tina Apicella, Tecla Scarano, Carlo Bragaglia, Gastone Renezelli.

Sinopse: Madalena Cecconi faz de tudo para que sua pequena filha, Maria, consiga se tornar estrela de cinema. É quando uma produtora procura por uma atriz infantil para sua nova produção. Os testes são em Cinecittá e a aventura está cheia de vigaristas, humilhações, problemas e conflitos.

Apenas o terceiro longa-metragem de Luchino Visconti (1906-76), que o fez por amizade e admiração à grande Anna Magnani. Na época ele já era considerado um grande realizador de Óperas e Teatro, além de ser considerado um dos precursores do movimento Neo-Realista. Ele contou com a ajuda de velhos amigos, como a amiga Suso Chechi D’Amico (que fez quase todas suas fitas), os futuros diretores Francesco Rosi e Franco Zeffirelli (como assistentes). Mas não há como esconder de que é uma fita menor, apenas um veículo para uma atriz, essa sim magnífica, capaz de passar do Drama para a Comédia, como um verdadeiro monstro sagrado, uma força incontrolável da natureza. Assistir La Magnani passar por todos os problemas no retrato, até hoje atual, da chamada Stage Mother (como em Gypsy, aquelas que desejam realizar seus sonhos através da filha, forçando elas a seguirem carreira artística). Também é curioso por revelar os bastidores da Cinecittá da época (que no final das contas não mudou tanto assim).

 

Nós, as Mulheres (Siamo Donne) ***

Itália, 1953. 97min. Filme em Episódios. Diretor: Alfredo Guarini (Quatro Atrizes: Uma Esperança), Alida Valli, por Gianni Franciolini; Ingrid Bergman, por Roberto Rossellini; Isa Miranda, por Luigi Zampa; Anna Magnani, por Luchino Visconti. Elenco: Alida Valli, Ingrid Bergman, Isa Miranda, Anna Magnani, Anna Amendola, Emma Danieli.

Sinopse: Cinco episódios mostrando o comportamento de quatro estrelas famosas, no que seria seu cotidiano e uma espécie de prólogo, onde duas jovens são escolhidas num teste nos estúdios da Titanus.

Foi o roteirista Cesare Zavattini, um dos papas do Neo-Realismo, que teve a ideia deste filme em episódios - especialidade italiana! - mais curioso do que bom. No primeiro, acompanhamos várias moças que fazem testes para cinema e apresentam as duas vencedoras (ambas fariam pequena carreira no cinema e já não eram estreantes na época). Depois é a vez da ainda belíssima Alida fugindo de uma festa publicitária e indo para uma festa na casa de sua massagista. O caso de Ingrid é o mais estranho, porque ela fala diretamente para a câmera, contando um caso trivial sobre um galo do vizinho que vem comer as rosas de seu jardim. É visível a intenção do diretor Rossellini, então seu marido, em desmistificar a então ex-estrela de Hollywood. O episódio de Isa é o que soa mais fácil, mostrando que ela teria se arrependido em não ter sido mãe. O último com o amigo Visconti fazendo um sketch para La Magnani, onde ela briga com taxista, vai parar na polícia e no final canta uma música no teatro-revista (coisa rara na tela, foi onde ela começou seu estrelato). Pelo prazer de ver as grandes musas, vale conferir.

 

Sedução da Carne (Senso)

Itália, 1954.123 minutos. Com Alida Valli (1921-2006), Farley Granger, Heinz Moog, Massimo Girotti, Rina Morelli, Christian Marquand, Sergio Fantoni, Marcella Mariani.

Lendário filme do mestre Visconti (1906-76), que sofreu um processo de restauração altamente preciso, que lhe deram novo de o esplendor do Technicolor (esta parece ser a cópia definitiva dos que os críticos europeus chamam de um dos mais belos filmes de todos os tempos). Sedução da Carne chegou a passar em nossos cinemas na época, mas não provocou a mesma polemica que na Itália, onde foi massacrado primeiro pela censura (que lhe cortou cinco minutos de cenas de batalha que foram perdidas, dizendo que era antipatriótica, não se entende porque já que conta uma história do Ressorgimento, isto é, de antes de existir a Itália, sua unificação!). Aqui chegou a sair ainda em VHS (mas era sua versão reduzida para o exterior falada em inglês, que é conhecida com The Wanton Countess, de qualidade inferior). Percebe-se a excepcional cenografia de interiores (Visconti era obsessivo com isso e exigia que tudo fosse autêntico, as vezes levando material de sua família, já que os Visconti eram os príncipes de Veneza, que só perderam o poder justamente com essa ação de Garibaldi). Para não falar da impressionante escolha de ambientes externos nas ruas envelhecidas de Veneza (o canal aparece muito pouco) em 1866, na Itália então ocupada pela Áustria.

O filme começa no famoso palco da casa de Opera La Fenicia (que pegou fogo em 96 e as cenas do filme serviram para ajudar na reconstrução até 2003) e deve ser entendido todo como a homenagem de Visconti à ópera, sua grande paixão (embora só por aquela época que ele começou a dirigir óperas e Maria Callas é quem deveria fazer a cena de abertura que é uma cena de La Traviata). Toda a história do filme é uma paráfrase a história dessa ópera e da La Tosca que tinham temas patrióticos e momentos parecidos (inclusive o fuzilamento final, uma sequência em que tiveram que usar um dublê já que o ator Farley Granger, ainda vivo, estava fazendo outro filme nos EUA e não podia retornar à Itália). Embora baseado oficialmente no livro de Camillo Boito, de 1883, o roteiro foge bastante dele ao se fixar na heroína que é a Condessa Livia Serpieri (Valli, conhecida com a Garbo italiana) casada com um fazendeiro rico e oportunista, mas que participa da Resistência ao invasor através do apoio a um primo (o grande Massimo Girotti, em plena forma. Ele fez o primeiro filme de Visconti, Obsessão). Atraída por um oficial austríaco (o tema do colaboracionismo muito atual então, a própria Valli perdeu sua mãe assassinada como colaboracionista, embora a atriz tivesse se recusado a trabalhar para os nazistas). Perdidamente apaixonada, ela trai o marido, sua classe e sua nação, sacrificando tudo ao homem que ama, um inimigo. Não é um personagem simpático, já que por paixão se destrói numa obsessão sem saída.

Foi um escândalo na época quando Visconti, que havia sido precursor do Neo-Realismo, teve a ousadia de contestar o movimento, realizando um drama histórico/ romântico, assumidamente operístico, em tudo: trilha musical, os gestos, postura, a movimentação de câmera. A própria interpretação é propositalmente exagerada, não a ponto do ridículo, mas o suficiente para dar impacto a uma trilha musical impactante do compositor Anton Bruckner (o filme é um exemplo raro do verdadeiro Melodrama, ou drama enfatizado pela música!). A palavra título “senso” tem o mesmo sentido que em português, como em bom senso.

É uma perfeição de enquadramentos, tratamento de cor, bom gosto em cenários e figurinos. Mesmo assim, foi um lendário fracasso. Visconti resolveu situar a ação na época da Reunificação, pintando um retrato da paixão trágica, levada às últimas consequências. Foi pena não poder contar com os atores que pretendia, Ingrid Bergman (que não quis largar o marido Rossellini) e Marlon Brando (chegou a fazer testes, mas foi preterido pelos produtores que preferiram Farley. Por outro lado, os agentes o preveniam do perigo dele trabalhar com Visconti que era chamado de o Conde Vermelho, por ser marxista/comunista). Mas a belíssima Alida, aos 33 anos, ainda é uma boa substituta. Com profundos olhos azuis, perfil aristocrático, faz par com o americano Granger, (efeminado como o tenente mulherengo e vigarista logo depois sua carreira se estagnou quando ameaçaram revelar seu homossexualismo, que hoje assume. Mas falta-lhe vigor e carisma para o papel). A ideia era dar o título de “Custozza” (o nome de uma grande derrota da Itália, mencionada na história), já sua intenção era mostrar uma guerra, feita por apenas uma classe social, e por isso um desastre. Mas a censura não deixou. Perseguiram o filme, o classificaram de reacionário. O produtor também exigiu mudanças no final. Mas o tempo se encarregou de fazer justiça. Além de servir de ensaio para o outro filme de Visconti, o parecido O Leopardo (1963). Uma curiosidade: a versão falada em inglês tem seus diálogos creditados a dois celebres amigos de Visconti, Tennessee Williams e Paul Bowles (O Céu que nos Protege). A bela Marcella Mariani que faz a prostituta nas cenas finais era Miss Itália e morreu em 55, aos 19 anos, num desastre de aviação no Lazlo. Na cena da Ópera no começo dá para ver a primeira fila do teatro o muito jovem Terence Hill (Mario Girotti). O depois diretor Francesco Rosi (então assistente de Visconti junto com Franco Zeffirelli e Giancarlo Zagni, que era o namorado de La Valli na época e depois virou diretor), o grande figurinista Piero Tosi, Caterina D´Amico (filha da roteirista Suso), e do fotografo Giuseppe Rottuno (ele era o operador da câmera mas assumiu o filme quando o fotografo G. Aldo morreu num acidente de carro durante a filmagem e Visconti brigou com o substituto, o inglês Robert Krasker).

 

Noites Brancas (Le Notti Bianche) ****

Itália, França, 1957. 97 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Maria Schell, Marcello Mastroianni, Jean Marais, Clara Calamai, Corrado Pani , Dirk Sanders, Maria Zanolli, Marcello Rovena.

Sinopse: Na cidade portuária de Livorno, durante o Inverno, Mario encontra na rua Natalia (Schell), que vive na angústia de esperar o retorno do homem por quem se apaixonou e prometeu voltar. Mas os dois acabam por se enamorar.

Foi lançado no Brasil com outro título: Um Rosto na Noite, mas é sempre a mesma obra-prima do mestre Visconti, com roteiro dele e sua habitual parceira Suso Checchi D´Amico. E na parte técnica, a presença de grandes mestres (os mesmos que ajudaram depois Fellini): Fotografia de Giuseppe Rotunno. Musica de Nino Rota. Figurinos de Piero Tosi. Foi premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza. Maria Schell (1926-2005), irmã de Maximilian Schell, era uma atriz austríaca de grande prestígio na época (ela esteve em filmes de Hollywood como Os Irmãos Karamazov e Cimarron, mas sua carreira foi encurtada porque foi vítima do Alzenheimer). Foi o primeiro filme de Mastroianni (1923-96) com Visconti (1906-76), com quem já tinha trabalhado antes no palco e voltaria em O Estrangeiro. O francês Jean Marais (1913-98) faz pouco mais do que uma participação especial por amizade a Visconti (que era muito amigo dele e de seu mentor e parceiro Jean Cocteau). Na trilha musical, uma estranha música de origem brasileira, “O Cangaceiro”, de Nascimento! Clara Calamai que aqui faz uma velha prostituta estrelou o primeiro filme de Visconti (Obsessão).

Visconti procurou na fita retornar ao cinema de Mélies, declarando: “Me criticam porque meus filmes são teatrais e minhas montagens teatrais são cinematográficas. Não vejo nenhum inconveniente nisso, todos os meios são bons. Talvez aqui tenha exagerado um pouco usando recursos que as pessoas não estão mais acostumadas a ver no cinema”. O filme foi todo rodado em estúdio (justamente no mesmo que Fellini usava habitualmente em Cinecittá, onde construíram uma verdadeira cidade). Visconti era antes mais conhecido por seus filmes precursores do neo-realismo da primeira fase (La Terra Trema) ou rebuscados da fase final (Morte em Veneza), mas poucos se lembram desta pequena obra-prima, que ele fez,com grande orçamento, 400 milhões de liras. Embora a Itália estivesse em pleno “boom” econômico, ele fez uma fita contra a corrente, contra a moda, adaptando quase com um grande espetáculo teatral, a obra de Dostoewiski. Que resultou num trabalho de grande beleza e poesia, uma história de amor apaixonante. A trama é muito simples: um homem solitário (Mastroianni, já com seu ar de herói felliniano) encontra uma mulher angustiada, que sofre muito porque acha que o homem que ama, pode nunca mais retornar. Os dois passam a se encontrar, se envolvem e quando finalmente parecem se entender, o amante retorna. Uma história muito simples, delicada, valorizada pela estilização dos cenários, com ruelas, ponte, riachos, mais tarde a queda da neve (um dos pontos altos da fita). Bonito, refinado, romântico, uma pequena joia para ser redescoberta.

 

Rocco e Seus Irmãos (Rocco e i suoi Fratelli) *****

Itália, 1960. 190 min. Produzido por Goffredo Lombardo para Titanus e Les Films Marceau Cocinor). Direção de Luchino Visconti. Roteiro de Luchino Visconti, Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Claude Brulé, Vasco Pratolini e Enrico Medioli a partir do romance “Il Ponte della Ghisolfa” de Giovanni Testori. Fotografia de Giuseppe Rotunno. Música de Nino Rota. Elenco: Alain Delon, Annie Girardot, Renato Salvatori, Katina Paxinou, Roger Hanin, Paolo Stoppa, Suzy Delair, Claudia Cardinale, Spiros Focas, Max Cartier, Corrado Pani, Rocco Vidolazzi. Preto e branco.

Sinopse: Uma família do sul da Itália é obrigada a se mudar para Milão em busca de trabalho e onde já está um irmão mais velho. A mãe Rosaria (Katina) procura controlar os cinco filhos, que tomam caminhos diferentes. Um deles se torna boxeador profissional, outro quer se tornar operário especializado, o mais novo ainda vai à escola e Rocco, que sonha em voltar à sua Terra é de todos o que tem melhor coração. Mas também acaba se tornando boxeador e se apaixona pela mesma mulher Nadia, que seu irmão, uma jovem prostituta.

Vencedor do Prêmio Especial do Júri de Veneza, esta é geralmente considerada a obra-prima de Luchino Visconti (1906-76). Assim como foi ele um dos precursores do Neo- realismo parece também chegar ao clímax do movimento e dali em diante partir por outros caminhos (com o mesmo Delon faria em 63 outra grande fita, O Leopardo, uma alegoria sobre o fim da era da aristocracia na Itália). Ele reuniu um elenco internacional (como sempre as fitas italianas eram posteriormente dubladas e cada um podia dizer o texto em sua própria língua), com a grega Paxinou como a mãe, a jovem Claudia Cardinale num papel pequeno. Durante as filmagens o italiano Salvatori e a francesa Annie Girardot se conheceram e se casaram (por uns tempos).

É difícil descrever o impacto deste filme, que não envelheceu (ao contrário, melhorou ao ser distribuído em cópia integral) e que continua a ter uma força telúrica (por isso menos acessível aos que não estão familiarizados com a cultura italiana), com Katina (Oscar por Por quem os Sinos Dobram) como uma ”Mãe Coragem”, que às unhas e dentadas, tenta manter sua família unida, enquanto a cidade e o progresso, anseia destruir sua prole. Alain Delon é uma figura de plácida beleza (e que o conhece de papéis de gangsters posteriores custa a acreditar nisso) totalmente convincente como uma pessoa boa demais para sobreviver nas selvas das cidades. Embora Visconti fosse comunista de partido, o filme nem sequer é esquemático ou simplificado. Faz apenas um grande painel de uma sociedade doente (e que desde então só piorou). Todo o elenco é perfeito, mas é o trio central, Salvatori, Girardot (a quem o filme transformou em estrela) que nos envolvem. Este é daqueles filmes que nos trespassam a alma, nos emocionam, até acima das meras lágrimas. Vai direto ao coração.

 

Boccacio ‘70 (Idem).

Itália, 62. 3h25min (versão completa). Filme em episódios por Federico Fellini (La Tentazioni del Dottor Antonio), Luchino Visconti (Il Lavoro), Mario Monicelli (Renzo e Luciana), Vittorio de Sica (La Riffa).

Inspirado vagamente nos contos de Boccacio, este filme em episódios produzido por Carlo Ponti e Tonino Cervi, foi antes de tudo uma brincadeira entre amigos com um elenco excepcional. Fellini em seu primeiro filme a cores, logo depois de La Dolce Vita estava irritado com a censura e reação católica ao filme e resolveu fazer uma sátira usando novamente a estrela Anita Ekberg no auge de sua forma. Ela faz uma mulher de anuncio de outdoor, também chamada Anita que sai do lugar para assustar e aterrorizar um falso hipócrita (o grande comediante Peppino di Filippo). A trilha musical é do mestre Nino Rota (inclusive o tema Bevette piu Late) não apenas aqui para Fellini para todo o projeto. Igualmente memorável é o episódio com Romy Schneider, detonando sua imagem de Sissi, a imperatriz. Agora está casada com um homem rico (o italiano de origem cubana, Tomas Milian) que ela seduz, mas em troca de dinheiro! Tudo muito chique e sensual.

O Episódio do mestre Mario Monicelli não chegou a ser exibido no exterior por não ter astros famosos. Apenas Marisa Solinas e Germano Gilioli como o casal central,

Pobre, que só falta um mês para se casarem, mas tem que esconder do chefe dela e procurar um lugar para morarem. Ainda fruto do Neo-realismo, o filme saiu aqui depois em Vídeo. Vittorio De Sica trabalha novamente com sua afilhada e amiga Sophia Loren como Zoe, que trabalha num parque de diversão pobretão aproveitando para se vender sexualmente para o vencedor de uma rifa! Os homens do filme são mais fracos (Luigi Giuliani, Alfio Vita). Giuliano Gemma faz ponta como Hercules. Paolo Stoppa está em ponta no Lavoro. Longo de ser um grande clássico é um delicioso exercício de estilo e humor dos grandes mestres italianos.

 

O Leopardo (Il Gattopardo) *****

Itália, EUA, 1963. 185 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Burt Lancaster, Claudia Cardinale, Alain Delon, Paolo Stoppa, Rina Morelli, Romolo Valli, Terence Hill (Mario Girotti), Giuliano Gemma, Pierre Clémenti, Ida Galli, Ottavia Piccolo, Marino Masé, Serge Reggiani, Marie Bell, Lou Castel.

Sinopse: Em 1800, na Sicília, o Príncipe Salina percebe que o movimento chamado de Risorgimento, a guerra de unificação de Garibaldi, irá diminuir seu poder e influência. Através de seu sobrinho, Tancredi que ficou noivo de uma jovem vinda da burguesia, aceita a mudança dos tempos.

A obra-prima de Luchino Visconti (1906-76), certamente um dos filmes mais bem realizados de todos os tempos, uma perfeição de direção de arte, figurino e fotografia. Uma adaptação de um best-seller autobiográfico do Príncipe Giuseppe De Lampedusa (que foi modificado em vários momentos pelo diretor) que retrata a queda da aristocracia feudal italiana substituída pela nova burguesia surgida com a unificação da Itália liderada por Garibaldi. É um momento histórico pouco comum para o espectador normal (e por isso pode ser confuso). Mas o americano Lancaster se adapta perfeitamente ao personagem do velho nobre siciliano autoritário mas lúcido, que controla a família de sete filhos, a mulher religiosa e todo o séquito (e era seu papel favorito). Rodado em esplêndidas locações, com imagens inspiradas em quadros famosos, com bela trilha musical do mestre Nino Rota (das fitas de Fellini), utilizando por vezes temas de Verdi. O clímax é a sequência do baile que durante praticamente uma hora (e foi rodado no verão durante 40 dias!). Certamente um dos filmes mais belos do cinema, premiado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Indicado ao Oscar de Figurino. Os jovens Delon e Cardinale resplandecem de beleza num elenco que tem também os futuros astros Hill, Gemma e Clémenti.

O filme certamente melhorou muito. Ele foi rodado com cada ator falando em sua língua e depois tudo foi dublado para italiano (ou seja, Lancaster não fala com sua própria voz. Os Making-Ofs dos lançamentos em home vídeo confirmam que ele não foi desejado por Visconti mas que os dois acabaram virando grandes amigos e voltariam a trabalhar de novo em Violência e Paixão).

 

Vagas Estrelas da Ursa (Vaghe Stelle dell´Orsa) ****

Itália, França, 1965. 100min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Claudia Cardinale, Jean Sorel, Marie Bell, Michael Craig, Renzo Ricci, Fred Williams,

Sandra volta a sua terra natal Volterra, na Toscania, com o marido estrangeiro para a doação de um jardim em nome do pai, falecido em campo de concentração. Reencontra o irmão Gianni com que teve uma ligação incestuosa, a mãe louca num sanatório e o padrasto que pode ter denunciado o pai judeu para os nazistas.

Vencedor do Leão de Ouro de Veneza, este é um dos filmes menos exibidos do grande diretor Visconti (1906-76) (porque havia sido vendido a Columbia internacionalmente mas sai agora licenciado pelo produtor original). Um roteiro original de Suso chechi D´Amico, Visconti e Enrico Medioli, usando como epigrafe um trecho de um poema de Leopardi (Vagas estrelas da Ursa, cintilando no jardim paterno, não acreditaria voltar a encontra-las, nem a refletir com vocês das janelas desta morada onde vive como criança e vou findar minhas alegrias). Na trilha musical música clássica com especial ênfase a obras de César Franck ao piano. Um drama familiar muito denso, inspirado na tragédia grega Electra, com excepcional fotografia preto e branco e a dupla central no auge da beleza e talento (em particular o francês de origem nobre Jean Sorel, que nunca mais antes ou depois esteve tão bem). Claudia se comporta amuada e irritada o tempo todo, ao retornar a mansão familiar ainda mais quando descobre que o irmão escreveu um livro autobiográfico sobre a relação dos dois. Mas tudo é um pouco empolado, estilizado e não neo-realista. O filme é prejudicado por uma mania do diretor (que também atrapalha Morte em Veneza) que é o uso da lente zoom (mudança de lenta dentro de uma própria cena, aproximando ou se afastando rapidamente do objeto ou pessoa). Como é um recurso que não temos na vista humana, isso perturba (mesmo inconscientemente) chamando atenção para o truque e não para o que está sendo mostrado. A decadência da antiga Volterra, que existia ainda no tempo dos etruscos, é o palco certo para a decadência familiar. Companheiro em outro dom de Os Deuses Malditos outro grande filme de Visconti sobre a decadência da aristocracia.

 

As Bruxas (Le Streghe) **

Itália, França, 1967. 111min. Direção: vários. Elenco: Silvana Mangano e depois por episódio: 1) A Bruxa Queimada Viva de Luchino Visconti. Com Annie Girardot, Massimo Girotti, Francisco Rabal, Clara Calamai, Veronique Vendell, Marilu Tolo e Helmut Steinbergher (depois apenas Berger). 2) Senso Cívico de Mauro Bolognini. Com Alberto Sordi. 3) A Terra Vista da Lua de Pier Paolo Pasolini, com Totó, Ninetto Davoli, Laura Betti. 4) A Siciliana de Franco Rossi. 5) Uma Noite como as Outras de Vittorio De Sica com Clint Eastwood.

Comentários: O produtor Dino de Laurentiis (1919-2010) foi o descobridor e marido da estrela Silvana Mangano (1939-1980) cuja carreira ele sempre patrocinou e para quem produziu este filme em episódios, todos celebrando sua beleza e talento. Silvana, uma das musas do cinema italiano desde Arroz Amargo era, na vida real, uma pessoa depressiva (o que foi se tornando pior desde quando o filho do casal morreu em desastre de aviação). Mas aqui no auge da popularidade das comedias italianas ele reuniu 5 grandes diretores (todos amigos ou fãs dela), vários roteiristas (os melhores disponíveis), dois grandes compositores (Piero Piccioni e Ennio Morricone) e um amigo (Sordi) com um resultado irregular. Dois dos episódios são meras anedotas passageiras. Em Senso Civico, Silvana faz uma mulher que dá uma carona para homem que sofreu acidente de carro, mas ela tem segundas intenções. Já em A Siciliana, é praticamente um solo onde retrata a mentalidade ignorante da mulher siciliana. Pasolini fez o episódio do meio, o mais bizarro, teatral e fabulista, com a moral de que tanto faz estar vivo ou morto (com maquiagem teatral, Totó e Ninetto fazem pai e filho que procuram a esposa ideal). Diferente do tom dos outros, pode encantar ou assustar. Talvez o melhor episódio seja o primeiro de Visconti, o mais dramático passado numa estação de esqui na neve, na Áustria, ande chega uma estrela super famosa (o filme é um retrato de sua época, começando com os letreiros iniciais em animação e caricaturas). Ela chega em crise e o motivo só se revela ao final (o roteiro é do mestre do neo-realismo Zavattini e o dramaturgo Patroni Griffi). Annie Girardot faz a amiga dona do lugar e são famosos os homens de meia idade que dão em cima dela (o espanhol Rabal e o italiano Girotti que por sinal foi o astro de um dos primeiros filmes de Visconti, Obsessão, 43, junto com Clara Calamai, que aqui faz uma das convidadas, a ex-atriz). Muito curiosa é a aparição em ponta marcante (o filme abre com ele) da nova paixão do diretor, como um empregado do hotel, que depois o transformaria em astro Helmut Berger (usando seu nome verdadeiro). É visível como Visconti criou um papel especial para ele e o favorece em algumas cenas. No último episódio, De Sica satiriza os filmes de seu amigo Fellini, inclusive parodiando La Dolce Vitta e Boccacio 70. Este também foi o único filme italiano que o americano Clint Eastwood fez depois de ter se consagrado com os spaghetti westerns de Sergio Leone (inclusive brinca com sua imagem de cowboy). Ele está jovem e bonito mas nada à vontade fazendo comédia , com trejeitos que não lhe caem bem como o marido que despreza a esposa. Conclusão: um filme irregular a partir de sua concepção, já que Silvana pode ser exótica e atraente, mas nunca versátil.

 

O Estrangeiro (Lo Straniero)

Itália França, 67. 1h44 min. Roteiro de Suso Chechi D´Amico, Georges Conchon, Visconti, Emmanuel Roblàs.Baseado no livro de Albert Camus. Música de Piero Piccioni. Produção de Alfredo de Laurentiis. Foto de Giuseppe Rottuno. Montagem de Rugero Mastroianni (irmão de Marcelo). Com Marcello Mastroianni, Anna Karina, Bernard Blier, Alfred Adam, Jacques Herlin, Mimmo Palmara, Bruno Cremer, Georges Wilson, Jean Marc Bory.

Provavelmente este foi o filme menos bem-sucedido crítica e comercialmente de Visconti, apesar de ter sido indicado ao Globo de Ouro de filme estrangeiro, concorreu em Veneza, mas não ganhou. Mesmo o extraordinário Mastroianni teve má repercussão ao fazer o protagonista (Visconti pensou também em Alain Delon, Tony Curtis e George Chakiris que seriam ainda piores) chamado de Arthur Mersault (para começar um tipo e um nome muito francês para um ator essencialmente italiano!). A proposta foi adaptar um escritor de muito prestigio na época, 1913-60, que morreu em acidente de carro. Mas era argelino de nascimento (o que tem a ver com esta sua obra), foi do partido comunista, cobriu a Segunda Guerra Mundial durante a Ocupação escrevendo para o jornal Paris Soir, mas mudou-se para Bordeaux onde terminou os livros O Estrangeiro, e o Mito de Sisyphus, onde discutia o suicídio e o absurdo da existência numa luta sem sentido! Depois de entrar na Luta como Partisan, guerrilheiro, acabou ficando amigo de Sartre, e membro de seu grupo de intelectuais. Chegou a visitar o Brasil para fazer palestras, em 1949, mas pela região acabou ficando tuberculoso e quase suicida. Ganhou o Prêmio Nobel em 57 e rejeitou o comunismo. Embora hoje esquecido teve enorme influência na França em todo tipo de cultura (escreveu por exemplo a peça Calígula). Suas citações de textos dele no IMDB em inglês são muito interessantes (entre os livros que foram adaptados para o cinema temos ainda A Peste!).

A história do filme se passa ainda na época em que a França dominava a Argélia (ou Algiers) como protetorado e colônia. Embora já estivesse começando a revolta local por sua independência. Um argelino é morto na praia e um francês que viveu lá toda sua vida, é preso por assassinato. Acontece um julgamento e uma das testemunhas é a mãe do herói. E Mersault provoca inimigos quando não registra qualquer emoção. Muita gente reclamou na época que Visconti seguiu o livro na integra e o excesso de reverencia atrapalhou. E para o público o problema é que a trama não importa tanto porque se trata de mostrar o desinteresse e fraqueza de um homem que não se interessa pela vida. Não tanto pelo assassinato, mas pela reação apática sem emoção, até passiva. Ou seja, Mastroianni tem a difícil e triste tarefa de não demonstrar qualquer emoção ou sentimento. Também não tem grandes chances a bela Anna Karina (recém-saída do casamento com Jean-Luc Godard). Mas o filme mesmo com problemas reflete bem a obra e as intenções de Camus. Um pouco esquecido hoje em dia, mas um escritor do primeiro time. Aliás, como o próprio filme.

 

Os Deuses Malditos (Götterdämmerung/ The Damned) ****

Itália, Alemanha, 1969. 158 min. 1969. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Helmut Berger, Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Florinda Bolkan, Renaud Verley, Helmut Griem, Umberto Orsini, Reinhard Kohldehoff, Charlotte Rampling.

Sinopse: Alemanha ,1933. Após o assassinato de seu patriarca, o Barão Von Essenbeck, suas industrias provocam uma disputa entre seus herdeiros. Que preferem aderir ao governo nazista.

Nunca se entendeu porque a Warner nunca lançou no Brasil em DVD este filme clássico, escandaloso e pouco revisto, que vai provocar a curiosidade de todos os admiradores do grande diretor italiano Luchino Visconti ( 1906-76), que demonstra aqui outra faceta. Além de precurssor do neo-realismo, Visconti era diretor de teatro e principalmente de ópera (foi com ele que seu assistente Zefirrelli aprendeu). Nesta época ele fez um contrato com a Warner (com quem fez depois Morte em Veneza, aliás, foi aqui que nasceu o projeto com o astro britânico Dirk Bogarde) e parte de uma trilogia alemã que prosseguiria com Veneza e Ludwig. O filme teve censura X na época (e ainda hoje é bastante forte ainda que nada explicito) e só depois em DVD que os americanos viram cenas gays da Noite das Facas Longas que haviam sido cortadas nos cinemas. Fassbinder era um grande admirador do filme que considerava tão importante na história do cinema quanto Shakespeare na história do teatro. Foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado, Globo de Ouro de revelação (Berger). Então foi inspirado nas obras de Wagner, para contar a história de uma família alemã verdadeira, os Von Krupp que realmente colaboraram com os nazistas, participando da produção de aço e armamentos. O filme basicamente é uma grande alegoria sobre a decadência dessa família acompanhando a ascensão ao poder do nazisocialismo. Basicamente é um veículo que Visconti encontrou para seu muso, o homem que amava (que segundo contam o tratava mal), o alemão Berger (ainda vivo, ainda trabalha na Alemanha). Ele sob a orientação do mestre foi se tornando um ótimo ator, fazendo aqui uma imitação de Marlene Dietrich e depois se envolvendo com incesto. Há uma espécie de primeira parte que é justamente a mais inspirada quando Visconti retrata o golpe que Hitler deu, mandando matar a tropa de elite que era homossexual, num grande massacre. Não é porem um filme fácil de seguir, a história se perde em personagens e situações misteriosas, momentos escuros, sendo melhor como clima e ambientação, do que narrativa. Melhor achar tudo aquilo alegórico (de certa maneira lembra o Cabaret de Bob Fosse) de tal forma que Rogert Ebert o considera um “magnificent Failure” (considerando que o filme durava quatro horas e que Visconti teve que reduzi-lo). Mas é um filme de grande paixão, coisa rara de se encontrar no cinema atual. Marcou a estreia no cinema da brasileira Florinda Bolkan que era amiga do diretor e que dali em diante teve uma bem-sucedida e longa carreira principalmente no cinema italiano.

 

Morte em Veneza (Morte a Venezia/ Death in Venice)***

Itália, França, EUA, 1971. 130 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Dirk Bogarde, Romolo Valli, Mark Burns, Nora Ricci, Marisa Berenson, Carole André, Björn Andresen, Silvana Mangano, Leslie French, Franco Fabrizi.

O compositor Gustav von Aschenbach, depois de ficar viúvo, vai passar uma temporada em Veneza. Nas praias do Lido, sente-se atraído por um adolescente que lhe desperta desejos homossexuais, que desculpa como um ideal de beleza, e a vontade de rejuvenescer. Mas ele pode ser também uma espécie de “anjo da morte”.

Todo mundo sempre lhe entoou loas. Permita-me discordar neste caso. Não gostava do filme na estreia e revendo-a entendo por que. Primeiro Dirk Bogarde era jovem demais para o personagem (Sir Bogarde, um bom mas afetado ator faleceu em 1998, na época tinha apenas 49 anos, quando se maquia parece normal e não patético como deveria), depois a primorosa direção de arte e figurinos (este último indicado ao Oscar) acaba sendo excessiva (quando Silvana Mangano aparece pela sexta vez com um vestido exagerado, bate qualquer drag-queen, caso elas fossem finas) e ao mesmo tempo nunca mostra direito o bendito Hotel des Bains do Lido (lugar onde se transcorre grande parte do Festival de Cinema de Veneza, a sala central inclusive agora leva o nome de Visconti), que é mais bonito do que o filme apresenta. O mais grave, porém, é que o diretor sucumbiu ao modismo da época que era usar a recém descoberta lente zoom (que modifica o foco dentro de uma mesma cena). É um efeito datado que incomoda porque a vista humana não é capaz de fazer o mesmo, portanto chama a atenção para a artificialidade do recurso. E toma zoom na hora errada! O resto, também como era moda naquele momento da filmagem, é com lentes de longo alcance, as tele-objetivas. O fato é que nem mesmo o garoto que faz Tadzio é um acerto. Longe de ser um efebo, parece mais uma boneca muito bem penteada e maquiada, nunca o anjo da morte que se supunha (cada vez que para e dá uma olhada, parece estar posando para uma foto na passarela). Há ainda muito papo furado sobre a função da arte e a repressão na vida (o livro de Thomas Mann também é por demais discursivo, mas o ângulo homossexual é muito discreto, ao contrário do filme). O filme se sustenta curiosamente pela escolha da música de Mahler. O homem que inventou o Neo-Realismo, que dirigiu Rocco e Seus Irmãos, não podia ter caído em modismos que ficaram velhos.

 

Ludwig (Idem)****

Italia, França, Alemanha, 1972. 247 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Helmut Berger, Romy Schneider, Silvana Mangano, Trevor Howard, John Moulder Brown, Gert Frobe, Helmut Griem, Umberto Orsini, Sonia Petrovna, Isabella Telezynska, Adriana Asti, Marc Porel, Mark Burns, Nora Ricci, Maurizio Bonuglia.

Sinopse: A vida do rei Ludwig II da Baviera, de sua coroação em 1864 até a morte misteriosa em 86, mostrando como mandou construir palácios suntuosos, foi explorado pelo compositor Wagner e sua mulher, foi amigo de sua prima Sissi, Elizabeth da Áustria.

Esta é a versão integral e reconstituída do épico de Visconti, que ele produziu para seu afilhado e amante Berger (que na versão italiana é dublada por Giancarlo Gianini). Na verdade, o ator segura um personagem complexo, numa fita de extraordinária beleza e refinamento, rodada em locais autênticos, castelos espetaculares e figurinos deslumbrantes. Nem por isso deixa de ser bastante lenta e estática (não ajuda muito também a mania que o diretor tinha de utilizar lentes zoom). Só mesmo os de gosto mais requintados serão capazes de avaliar esta excelente edição de um filme lendário (e certamente impossível de ser feito hoje em dia). Só alguém tão meticuloso quanto o diretor italiano Visconti (relatam o caso dele ter esperado um pouco para rodar, para a champanhe ficar mais gelada), poderia fazer esta biografia de um rei excêntrico e louco, apaixonado pela prima imperatriz da Áustria, Elizabeth (Romy Schneider por amizade a Visconti voltou a representar o personagem que criou e a consagrou na trilogia Sissi) e que se casou com a irmã mais nova dela. Foi um desastre que acentuou suas inclinações homossexuais, sua obsessão por financiar as óperas de Wagner e construir castelos suntuosos. Até sua morte causada aparentemente por seus próprios amigos. O inglês Trevor Howard faz Wagner e Silvana Mangano sua terrível mulher Cosima. Foi indicado ao Oscar de Figurino e ganhou os Davids de Donatello de Filme e Diretor.

 

Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in um Interno/ Conversation Piece) ****

Itália, 1974. 121min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Burt Lancaster, Silvana Mangano, Helmut Berger, Dominique Sanda, Claudia Cardinale, Claudia Marzani, Stefano Patrizi, Elvira Cortese, Philipe Hersent, Romolo Valli, Giu Trejean, Enzo Fiermonte.

Sinopse: Professor de meia-idade, intelectual e colecionador de arte (Burt 1913-94), vive sozinho rodeado de quadros e tem sua paz perturbada quando família nobre mundana e turbulenta aluga o apartamento de cima. Mas aos poucos despertam nele novos sentimentos.

Originalmente teve cortes pequenos da censura tirando dois ou três instantes de nudez de Helmut Berger, o namorado de Visconti. A versão era falada em inglês, por causa de Burt Lancaster, seu astro principal (não se esqueçam que naquela época, todo o cinema italiano era dublado, não havia som direto por lá - hoje em dia já sucede isso - e então era comum atores de diferentes nacionalidades falarem sua própria língua e a dublagem posterior igualava tudo. Por isso havia tantas coproduções e a presença frequente de astros de Hollywood em decadência e em busca de trabalho).

Este foi o penúltimo filme de Visconti, que já estava muito doente (fez O Inocente, 76, em cadeira de rodas, mas morreu antes de completar a sua montagem). Por isso que optou por esta história intimista, que rodou toda em interiores (em estúdio o que fica muito claro aqui, parece peça de teatro) e basicamente em dois ou três cenários (foi rodada uma única versão falada em inglês, como uma compensação para o amigo de Visconti, Burt Lancaster, por este ter sido dublado em italiano em O Leopardo/ Il Gattopardo, 1963. Por causa disso é que esta que foi restaurada). É um bonito drama sobre a solidão e as relações humanas, sobre o contraste entre a intelectualidade vazia e a mundanidade efervescente de vida. Há também um sutil subtexto político, bem ao gosto de Visconti, em que discute abertamente a política da época (Industrias de Direita lutando contra comunistas e intelectuais que afirmam ser de Esquerda mas nada fazem para demonstrar isso). Lancaster tem uma excepcional interpretação, muito sutil, controlada como o professor anti-social, que foge das pessoas substituindo-as pelas pinturas de grupo que o rodeiam (do gênero típico da pintura inglesa do século XVIII “conversation pieces”, daí o título em inglês e o italiano se refere a mesma coisa), cujo conteúdo pode também servir como uma metáfora do grupo familiar em que ele acaba sendo inserido à força. Mas todo o elenco está muito bem, em especial Silvana Mangano (1930-89), que tem uma participação muito forte e bastante longa, como uma nobre, mulher de industrial e que sustenta um gigolô jovem feito por Helmut Berger (o “muso” e companheiro do diretor na época, mais contido do que de hábito e cuja ambigüidade e mistério enriquecem bastante o papel).

É muito curioso ver o embate dos inspiradores de Visconti que ele procurou reunir num mesmo filme. La Mangano era sua velha amiga e cúmplice (uma mulher difícil, depressiva, morreu cedo de câncer no pulmão, abalada pela morte de um filho (único varão) em desastre de avião, que teve com o marido Dino de Laurentiis que a tornou estrela, mas se divorciou dela. Ficaram casados desde 1949 a 88 e tiveram 8 filhos. Foi Dino quem a transformou em estrela inclusive com seu filme de marca, Arroz Amargo, 49. A neta de Silvana hoje é a grande estrela da culinária italiana nos EUA, Giada de Laurentiis como programa no Food Network). Helmut Berger (1944-, que voltou recentemente muito envelhecido, marcado pela bebida e drogas, a trabalhar no cinema europeu) é austríaco, foi descoberto por Visconti quando era garçon num restaurante e foi selecionado como figurante para Vagas Estrelas da Ursa que depois o colocou numa ponta em As Bruxas. Não era pobre, mas vinha de uma família de Salzburg que lidava com hotelaria. Ficaram juntos 12 anos e Visconti fez para ele filmes como Os Deuses Malditos e Ludwig, onde se saiu muito bem. Mas a relação dos dois era conturbada, sendo que Berger era muito cruel com o mentor, só lhe dando o valor depois de morto. Publicou uma autobiografia Ich (Eu) em 98, onde trata a relação como casamento e se diz a viúva de Visconti. Em 94, casou-se com Francesca Guidato (de quem está hoje separado). Claudia Marsani (1973-) que faz a filha de Silvana, Lietta, havia sido Miss Teen age Italy no ano anterior, nasceu no Quênia e fez só mais quatro filmes para então sumir. Stefano Patrizi (1950- ) que interpreta Stefano fez outros 19 filmes (alguns famosos como Esposamante, Leão do Deserto, A Travessia de Cassandra), mas preferiu se tornar produtor de importante e bem sucedida produtora de filmes publicitários, New Ways de Milão. Voltou a representar em 2006 com Quale Amore e em 2008, com Chi Nasce Tondo.

O filme tem ainda duas participações especiais não creditadas bem marcantes, primeiro de Claudia Cardinale que faz a mulher de Lancaster. Claudia (1938- ) trabalhou com Visconti em Rocco e seus Irmãos, Vagas Estrelas da Ursa, e naturalmente em O Leopardo. Continua trabalhando e ativa. A outra é Dominique Sanda (1948- ) foi descoberta por Robert Bresson, mas se tornou estrela nas mãos de Bernardo Bertolucci (que a usou em O Conformista, 1900) e De Sica (O Jardim dos Finzio Contini). Embora linda e comparada com Garbo, era apenas fotogênica e péssima atriz o que demonstrou no resto da carreira que durou até 2001. Retornou ao cinema em 2007 com Suster N, um filme da Indonésia! Possivelmente foi chamada para a ponta pelo produtor deste filme Giuseppe Bertolucci (1940-2005) que fez O Conformista e era primo de Bernardo.

Um detalhe curioso é que em momento nenhum no filme Helmut disfarça sua condição de homossexual efeminado, o que espanta o espectador menos avisado. Aliás bem antes de A Gaiola das Loucas ele diz a frase” Eu sou o que eu sou”.

Eis um caso raro no cinema, só houve antes um precedente semelhante, foi com Jean Marais (1913- 1998) que era ainda mais assumido, na época em que foi o grande amor da vida do diretor e poeta Jean Cocteau (1889-1963), o que também revelou em autobiografia. Só que o público na época do apogeu deles era mais ingênuo e não percebia muito. De qualquer forma, as duas duplas tiveram importância na história do movimento gay nas artes.

Conclusão: numa revisão, o roteiro por vezes parece meio antiquado em particular na discussão após o jantar, mas nos deixa a certeza de ser muito autobiográfico (história de Enrico Medioli, script dele, Visconti e a habitual parceira dele, Suso Cecchi D´Amico) o que não deixa de ser estranho porque no DVD brasileiro saiu um featurette sobre Mario Praz (1896-1992), um professor na vida real que teria inspirado o protagonista (o que é assumido pelo próprio Praz).

A fama de Visconti de ser detalhista e um grande conhecedor de cenografia e arte se confirma na decoração espetacular do apartamento (Visconti na verdade era filho do Duque de Modrone e descendente da família real dos Visconti, que eram os príncipes da região de Milão (não esqueçam que eles só perderam o poder na reunificação da Itália que sucedeu há apenas 150 anos atrás, antes era um monte de principados). Ou nos figurinos extremamente cuidados dos homens e mulheres (já com marcas famosas). E na trilha musical (com muito Mozart, Sinfonia Concertante k 364 e Vorrei SpiegarVi, Oh Dio! Cantada por Emilia Ravaglia) e uma curiosidade espantosa, de repente na cena da orgia sexual está tocando uma música de Roberto Carlos em versão italiana! (creditada como Testarda/La Mia Solitudine, cantada por Iva Zannichi).

Conclusão Filosófica (colaboração de Germano Pereira): O anti-social representado pelo professor é o ponto de vista privilegiado, aquele que pode se distanciar das confusões imperantes do modo político e econômico que as pessoas viviam naquela época. E por que não dizer, ainda nos dias de hoje? Através da perspectiva da arte, como um transeunte que perpassa no museu de quadros da vida, o professor, como aquele que nos ensina, apresenta ao público a dicotomia das extremidades (a luta interna do indivíduo ou dos coletivos querendo cada um à sua maneira defender o seu desejo, status político sem, no entanto, enxergar o Outro. A luta eterna entre intolerâncias de esquerdistas e burgueses reacionários. Ou dos desejos e repressões).

Outro tema do filme: o surgimento da libido adormecida deste velho intelectual. Que se encontrava refugiado em suas obras de artes e lembranças do passado idealizado faz renascer uma esperança da libertação deste velho e de certa forma de nós mesmos.

O que ele vive é um fenômeno particular do processo da morte. Que acontece justamente em seu próprio reconhecimento de estar próximo da morte, reconhecer as limitações do processo da vida e dizer sim a sua velhice, a sua finitude, ao seu desfalecer. Isso mostra um lado positivo no filme quando reconhece neste intelectual esta possibilidade de devir. O filme reconhece na obra de arte (pois tudo na verdade, enquanto símbolo, só existe na cabeça deste professor) o caminho para a descoberta de todo tipo de conhecimento, seja ele, intelectual, apreciativo, de afecção, sexual, familiar, problemático e por último, estético.

 

O Inocente (L´ Innocente) ***

Itália/ França, 1976. 125 min. Diretor: Luchino Visconti. Elenco: Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, Marc Porel, Jennifer O’Neill, Rina Morelli, Massimo Girotti, Didier Haudepin, Marie Dubois, Claude Mann.

Sinopse: No século 19, na alta sociedade italiana, o aristocrata Tullio despreza a esposa Giuliana, preferindo manter um caso com a bela Teresa. Mas não suporta a ideia de que a esposa tenha um filho de um amante.

Saiu nos cinemas como O Inocente de Visconti mas nos cinemas e até em vídeo, houve um corte da nudez frontal de Marc Porel, que era importante porque faz o amante da mulher que Gianini observa no banho, enciumado mas também curioso. Quando fez este filme, Luchino Visconti (1906-76), já estava muito doente, vítima de um derrame. Dirigiu numa cadeira de rodas e a montagem foi feita por outro, o amigo Ruggero Mastroianni (irmão de Marcello). Ou seja, é um filme póstumo onde logicamente não conseguiu ter o mesmo controle dos anteriores, o mesmo rigor. Mesmo assim é uma bela produção de época (direção de arte, figurinos, impecáveis). Foi curioso ele ressuscitar uma obra do escritor D’Annunzio, que estava em desgraça por ter sido admirado pelo Fascismo de Mussollini. Visconti não conseguiu os atores que pretendia, Alain Delon (preso a outro contrato) e Romy Schneider (que estava grávida). O roteiro muda bastante a história (onde o herói confessava a culpa escrevendo o romance) mas não a estraga. Giannini, que fica melhor em comédias, não é o ator ideal para dar intensidade ao papel do marido infiel que fica com ciúmes da esposa, a quem passa a dar valor apenas depois que ela tem um amante ocasional, um escritor (Porel, que morreu em 1983, mas já era viciado em drogas e na época namorado de Jennifer). Tem um final bastante cruel seguido por um longo diálogo com final trágico. Fica-se com a impressão de que se tivesse vivo, Visconti teria dado mais vivacidade e força à narrativa. Resulta num filme bonito, que tem até certo impacto. Mas também é morno. A bela Laura Antonelli estragou sua carreira nos anos 80, quando foi vítima de uma operação plástica que deixou seu rosto deformado. Jennifer, que faz a amante, é nascida no Rio de Janeiro de família americana.

 

 

 

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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