O Senso Cinematográfico em Malle

Rendo-me inteiramente a Atlantic City, mais um daqueles filmes de Malle em que a provocação é pura simplicidade formal

13/04/2018 16:12 Por Eron Duarte Fagundes
O Senso Cinematográfico em Malle

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É pelo olhar seduzido e experiente do ator Burt Lancaster que a câmara igualmente seduzida e experiente do cineasta francês Louis Malle espia o denso erotismo do corpo da atriz Susan Sarandon, uma grande intérprete que sempre soube exalar todos os sentimentos humanos, inclusive o sentimento do sexo. À janela de seu apartamento, um discreto Lancaster vê uma jovem Susan passar limão em seus braços, tirar a blusa, mostrar seus ombros e seus seios; a câmara mostra a ação de Susan e contrapõe a esta imagem enfeitiçada o contraponto do olhar calmo mas ferino de Burt. Esta sequência abre Atlantic City (1980), talvez o melhor filme americano de Malle, a despeito de Menina bonita (1978) ser também excelente; como a ação de Susan e o olhar de Burt são gestos do cotidiano das personagens, Malle reintroduz esta sequência mais adiante, no corpo da narrativa, depois que Lou Pascal (Burt) e a criatura de Susan, tendo morrido o trambiqueiro marido dela (que fugira com a irmã da mulher e agora voltava tendo engravidado a cunhada), se conhecem. A voracidade da cena elaborada por Malle é refinadíssima e denota grande senso cinematográfico; certamente um dos mais fortemente sensuais planos do cinema da década de 80 (em sua sutileza e sugestões simbólicas) e uma frase cinematográfica chave de Atlantic City.

De uma certa maneira, a personagem de Burt é uma espécie de reflexo envelhecido do jovem marido de Susan; ambos acabam por encontrar-se, juntam-se em suas falcatruas e funcionam como complementos etários. O jovem morre, vítima de uma falcatrua mal elaborada; falta energia ao velho para criar à sua volta um violento universo de gângsteres com que sempre sonhou; mas no final explode em virilidade ao atirar contra os mafiosos que o perseguem e à viúva do trambiqueiro (agora amante do velho) e exubera ao aparecer nos noticiários televisivos: isto envaidece o instinto marginal que habita Lou Pascal.

É bom reencontrar a maturidade extraordinária de Lancaster, que foi o inesquecível nobre decadente do italiano Luchino Visconti em O leopardo (1963) e um dos maravilhosos profissionais em Os profissionais (1966), do norte-americano Richard Brooks. Também Susan está fascinante em seu frescor da juventude, mas sua potência interpretativa é parece eterna em celuloide. Atlantic City não deixa de ser uma reverência de Malle a um dos mitos do cinema, Lancaster, e um tributo amoroso e físico a Susan, com quem Malle teve um breve caso nos anos que se seguiram a esta realização. Deve-se ressaltar ainda a participação ligeira mas sempre marcante do ator francês Michel Piccoli como um agitador dos cassinos da cidade; é Piccoli quem inicialmente requesta Susan, que todavia cairá mesmo nas malhas matreiras e mais silenciosas de Burt.

Rendo-me inteiramente a Atlantic City, mais um daqueles filmes de Malle em que a provocação é pura simplicidade formal. Longe da tensão existencial de Trinta anos esta noite (1963) e ocultando suas insinuadas polêmicas que em O sopro no coração (1970) e Lacombe Lucien (1973) se expunham mais visivelmente, Atlantic City mostra como a objetividade americana influenciou seu cinema sem deformá-lo. Esta objetividade ianque vai determinar inclusive a maneira como filma um de seus grandes filmes franceses da última fase, Adeus, meninos (1987): um rigor intelectual francês contracena com uma limpidez de narrar que nasceu em sua passagem pela América.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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