Uma Bela História de Amor: Tab e Anthony Perkins!

Confira a história dos atores em uma época em que o romance era proibido

11/07/2018 18:06 Por Rubens Ewald Filho
Uma Bela História de Amor: Tab e Anthony Perkins!

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O falecimento recente de Tab Hunter (agora, 8 de julho, aos 86 anos) acabou por confirmar uma das lendas vivas de Hollywood. Que Rock Hudson o que! (na verdade, fiquei sabendo há pouco tempo, os gays de Hollywood em sua época não gostavam do ator, que era considerado frio e distante, preocupado apenas com si próprio). Os amores difíceis e complexos são certamente mais estranhos tanto que antes de falar do casal, quero contar historinhas que li agora no recentíssimo livro biográfico do filho de Debbie Reynolds, Todd Fisher,”My Girls a lifetime with Carrie and Debbie” (que tem 388 páginas e eu recomendo). Como fã de Debbie o que mais me tocou foi um ato de amor. No fim da vida ela teve um derrame que esconderam e que foi piorando e culminando no dia seguinte com a morte no dia seguinte da filha. Mas quando estava no fim, Debbie chamou Todd e lhe pediu “meu filho, eu nunca tive coragem de confessar antes, mas o homem que eu mais amei na vida foi Robert Wagner, que eu namorei quando era bem jovem. Saímos muito juntos (não houve sexo), mas acho que ele nunca ficou sabendo disso... Agora quando partir queria que lhe contasse...” E como o mundo em Hollywood é pequeno, Bob é o mesmo acusado de ter matado sua mulher Natalie Wood (ou quase, quando ela caiu do iate onde estava com Christopher Walken que fazia um filme como ela no momento!). Ambos também costumeiramente acusados de serem bissexuais! Esse foi outro que fiquei hora entrevistando, mas não tive coragem de perguntar se ele tinha matado a então esposa! Seria muita cara de pau e Bob ainda era um sujeito bonitão, muito educado (e a mulher até hoje ainda rondava a casa rústica, era Jill St John que foi até estrela de James Bond, é sua mulher desde 1990). Mas com certeza a triste lenda não termina nunca!

Só agora foi que me dei conta que por golpe da sorte eu tive a sorte de conhecer, entrevistar e até conviver um pouco com justamente os dois Tab (o nome dele foi usado como marca de refrigerante!) e Perkins, com resultados diferentes. Encontrei Tab num mercado de produção de TV em New Orleans. Estava com o Roberto Rios diretor da HBO quando ele me chamou a atenção e levou-me para conversar com Tab, que estava sozinho no momento, meio esquecido (Tab foi perseguido pela imprensa marron americana que o acusou de homossexual já que o nome gay não existia então! Foi um golpe terrível que eventualmente o levou a ser despedido do estúdio Warner, onde era o maior astro e amigo do coração também de Natalie, mencionada logo acima). Tab eu me lembro bem de quando eu era bem criança, ele ficou famoso com um filme de praia com a bela Linda Darnell, o chamado A Ilha do Desejo (Island of Desire, 52 e não como diz o IMDB,  a Ilha do deserto! Que é total absurdo), em que ele era um fuzileiro naval que fica isolado numa ilha do Pacífico com Linda! Um amor proibido! Claro que tudo era muito discreto, mas solar e do cinema americano imagino eu este deve ter sido o primeiro a mostrar um rapagão com o peito de fora (Linda ao contrário se cobria quase toda). Era uma bobagem, mas também o surgimento do erotismo praiano até então proibido! Tab não era nem nunca foi um grande ator, mas tinha uma qualidade enorme, era sincero. Em tudo que dizia, encarava, ou conversava. A conversa foi bem livre e eu lhe lembrei que ele tinha feito fotos no Rio para uma revista americana semi gay e naturalmente recordou com saudades as cenas praieiras, jogando vôlei com os cariocas. E obviamente elogiando a beleza da cidade. Mas o que mais guardei de lembrança foi o fato dele contar que era um criador de cavalos e que essa foi justamente sua vocação. Tinha um grande rancho e lá treinava, desenvolvia os animais. Como a vida é sempre cruel, naquela altura já passando dos sessenta, não tinha mais a mesma beleza. Mas era verdadeiro, olhava no teu olho, apertava a mão de jeito forte, deixou uma boa impressão. Era uma pessoa honesta, eu seria capaz de apostar... Nâo demorou a assumir-se, escreveu autobiografia, mas não morreu de Aids, ao menos que a gente saiba, como seu antigo namorado Anthony Perkins (1932-82).

Esse veio ao Brasil trazido pela Paramount para apresentar aqui a nova versão de Psicose (naturalmente em Hitchcock) e que foi dirigido pelo próprio Perkins. Só que este era o oposto de Tab, atrevido, pretensioso, era promíscuo e morreria de Aids. Contam que era uma pessoa difícil porque perdeu seu pai ator (Osgood Perkins, 1982-1937, ator do clássico Scarface!) muito cedo e foi criado por uma mãe libertina. Com uma vida muito irregular, também estreou cedo no cinema fazendo o namorado de Jean Simmons, em Papai Não Quer (The Actres, 53, na Metro, dirigido por George Cukor, com Spencer Tracy) na biografia da futura estrela Ruth Gordon. Infelizmente foi um fracasso e veio fazer televisão, mas logo veio a descoberta pelo genial diretor William Wyler, para ser filho de Gary Cooper em Sublime Tentação (Friendly Persuasion, 56) que lhe daria sua única indicação ao Oscar, acreditam que ele nunca foi indicado nem mesmo por Psicose? Vá-se falar em injustiça...

Foi por essa época que dois acontecimentos importantes aconteceram. Primeiro Tony foi contratado pela Paramount estúdio aonde fez vários filmes (Desejo com Sophia Loren, que foi sua amiga pelo resto da vida, A Mercadora da Felicidade que é uma versão de Alô, Dolly com Shirley MacLaine, e faroestes como O Homem de Olhos Frios e O Bandoleiro Solitário). Mas o notável foi o romance que nasceu entre Tab e Tony, que mal escondiam o fato da imprensa, até porque na época nem se pensava no assunto de ligação homossexual e se fosse o caso, a própria imprensa comprada por Hollywood apoiava e ajudava. Foram sem dúvida o casal mais bonito de sua era e geração. Só que como sempre acontece, os contos de fadas terminam mal. Nos próximos anos os encontros serão mais discretos e cada vez mais amigos, menos amantes.

Por outro lado, Perkins virou super astro no cinema europeu e foi descoberto por Hitchcock que o escolheu para Psicose sem outra alternativa. O mestre sabia o que estava fazendo, o filme ainda hoje é um clássico no gênero que mudou todas variantes de um gênero até então tabu! E onde o herói, espero não estar revelando nada, se travestia de mulher! Eu o encontrei em São Paulo, quando veio apresentar uma continuação Psicose III de 86 que foi dirigido por ele (teve um anterior, o II de 83 que foi sucesso de bilheteria feito por Richard Franklin, mas este aqui se deu mal e por isso que fez a viagem). A conversa comigo foi longa, mas era visível que estava aborrecido e desinteressado (mesmo quando pedi para assinar um LP de um show da Broadway que ele estrelou) nunca pareceu muito interessado e olha que fiz o possível (mais tarde ele foi com outros jornalistas explorar a vida noturna gay de São Paulo, então já fervente). Não teria sucesso em outros filmes que tentou fazer, sua mão era pesada e a visão ácida. O que achei curioso que nessa época ele já tinha mudado de vida e havia se casado com a atriz Berry Berenson, que era irmã da estrela européia Marisa Berenson (Cabaret) e esteve em filmes como A Morte da Pantera e Morte no Inverno. De qualquer forma o casal foi feliz com dois filhos (Oz que é ator e diretor de dois longas e Elvis Perkins, é músico e compositor). O final mais triste não foi a morte de Tony (1932-91), mas a de sua amada Berry (o amor parece ter sido sincero), quando ela tomou um avião para Nova York, sem imaginar seu destino. Era um dos aviões onde todos morreram quando foi atacado por terroristas árabes (Berry 1941-2001). Tab continuou vivendo em Santa Bárbara, produziu filmes e teve uma relação estável até o final de sua vida com o produtor Alan Glaser. Morreu de enfarte. Logo depois se anunciou que iria ser feito um filme sobre a vida dos dois astros. Hollywood só torce para que seja humano e sincero, justo merecimento a uma das histórias de amor mais românticas de Hollywood.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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