Uma Construção Narrativa de Rigorosa Plástica

Em alguma instância, os fatos sobrenaturais de A bruxa são metáforas sutis de fatos naturais de várias famílias mundo afora

30/09/2018 23:51 Por Eron Duarte Fagundes
Uma Construção Narrativa de Rigorosa Plástica

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Tem uma beleza surpreendente na forma como o realizador norte-americano Robert Eggers encena uma história em que o elemento religioso está ao mesmo tempo tão na metafísica quanto nos signos do horror cinematográfico (no sentido lato), em A bruxa (The witch; 2015). Como obra de estreia, surpreende a maturidade das formas de que se vale o cineasta, executando precisos e lentos movimentos de câmara e enquadramentos próximos do impressionismo, tudo para mover, calculadamente, o filme para um complexo de filmar que visa à plasticidade espiritual, como no cinema bastante raro do francês Robert Bresson, no fundo as afinidades de Eggers com Bresson não passam deste conceito vago, a plástica no espírito, materialmente como filme se distanciam muito. Detalhista e reflexivo, A bruxa traz um andamento narrativo hipnótico para criar uma atmosfera e um universo próprios; misturando excertos do cotidiano de aldeões quase à maneira do neorrealismo (o pai de família que corta lenha, as brincadeiras da irmã mais velha com o bebê que depois vai sumir como efeito duma possível bruxaria que é mais simbólica que material —a moça põe e tira as mãos da frente dos olhos, dizendo para o minúsculo mano “onde está o bebê?” e, ao destapar os olhos, exclama “achou!”, até que numa destas, destapados os olhos, não vê mais a criança e corre para a mata) com tensões mágicas de fundo sobrenatural, A bruxa equilibra-se, sem perder suas formas vivas, em seus opostos e contrapontos com rara argúcia.

Ambientado na Nova Inglaterra do século XVII, extraindo muito de seu texto do velho vocabulário e da velha sintaxe dos documentos de época (crônicas, autos judiciais), A bruxa abre com uma cena de tribunal inquisitorial (a família, na pessoa de seu chefe, está sendo julgada por suas atividades religiosas fora do padrão local, e inicialmente os planos, muito escuros, evitam mostrar o réu e também seus julgadores, fazendo ecoar somente o interrogatório, as vozes, o que reforça o tom soturno da narrativa nesta elipse de imagens) e depois segue para a cena do desaparecimento do bebê diante da brincadeira da irmã (esconde o bebê, acha o bebê), da qual emerge tudo o que vem a seguir, com angústia, com medos. Em alguma instância, os fatos sobrenaturais de A bruxa são metáforas sutis de fatos naturais de várias famílias mundo afora, onde o drama bíblico de Abraão (por que sacrificar os filhos à divindade?) é reencenado amiúde e quase sem perceber.

A culpa cristã não é imune à figura do pai de A bruxa. Isto pode transportar-nos para certas coisas de A fonte da donzela (1959), do sueco Ingmar Bergman. Neste antigo clássico o pai, depois que sua filha é estuprada e morta pelos criminosos que ele acolheu em sua casa por caridade cristã, se dá uma surra de varinha nas costas e joga sobre os ferimentos água quente, para purgar seu pecado. Em A bruxa, num determinado momento, depois que o segundo filho desaparece na floresta, o pai ora a Deus, questionando a culpa paterna nos acontecimentos funestos com a família e pedindo proteção; seus filhos não teriam culpa dos pecados dos pais.

Entre a personagem de William, o pai, e de Thomasin, a virgem que desabrocha e traz em si uma crueldade que melhor se materializa nos elementos selvagens (a floresta, os animais), A bruxa conduz um processo narrativo constantemente extasiante. Neste aspecto, as interpretações marcadas de Ralph Ineson, com sua voz um pouco cavernosa e rouca, e Anya Taylor-Joy, fisicamente lustrosa e singela, caracterizam bem este processo.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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