Duas Mulheres. Dois Destinos?

Como sempre, o cineasta alemão Alexander Kluge desarticula a narrativa de cinema

07/03/2019 23:20 Por Eron Duarte Fagundes
Duas Mulheres. Dois Destinos?

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Como sempre, o cineasta alemão Alexander Kluge desarticula a narrativa de cinema. No perigo e na penúria, o meio-termo leva à morte (In gefahr und grösster not bringt der mittlenweg den Tod; 1974) é narrado num fosco e adrede irregular preto-e-branco para expor a Alemanha do início da década de 70 a partir das vivências de duas mulheres diferentes. Pouco antes, Kluge punha em cena, em O trabalho ocasional duma escrava (1973), uma das mais enigmáticas personagens femininas de seu universo; a lutadora social que sobrepõe as questões coletivas aos interesses individuais é captada em gestos e olhares perfeitos pela câmara de Kluge, especialmente no plano final em que dois agentes do sistema a espiam pelo binóculo a comer sanduíche. Em No perigo e na penúria Kluge inventa (quase documenta) uma prostituta que se serve do êxtase sexual dos homens (a chamada perda da consciência no orgasmo) para roubar-lhes a carteira e uma agente secreta; a prostituta ocupa uma parte menor, enquanto a espiã é mais presente na imagem, mas o caleidoscópio visual de Kluge atira para vários lados, percorrendo cenários, “perseguindo” políticos, desmanchando-se em formas que Kluge sabe compor como ninguém. Kluge parece filmar como quem respira. É o filmador por excelência. Talvez só o italiano Roberto Rossellini fosse assim. Não há um tema único, não temos nem mesmo temas, mas idéias que surgem na cabeça do realizador e devem ser organizadas em imagens. Em O poder dos sentimentos (1983) Kluge estaria contando vinte e seis histórias. Em No perigo e na penúria há duas trajetórias centrais e várias imagens paralelas. Duas ficções básicas que se alimentam de assessores documentais. Desde seu primeiro filme, Despedida de ontem (1966), que funciona como um rascunho de sua estética (assim como foi Acossado, 1959, para o francês Jean-Luc Godard), Kluge quis fazer documentários com elementos ficcionais; era uma despedida dos postulados clássicos do cinema e o filme deveria aparecer como um carrossel cujas pontas (início e fim) o espectador não poderia vislumbrar. O carrossel atinge o ponto mais delirante em O ataque do presente contra o restante do tempo (1985). Em No perigo e na penúria o carrossel ainda está em construção; extraindo o título do filme de um grafite deparado no porão de uma casa, Kluge vai despejando vários excertos documentais, um destes excertos é a filmagem impiedosa duma obscura discussão sobre astrofísica entre especialistas: Kluge é compassivo e irônico com suas próprias tiradas intelectuais.

P.S.: O filme é codirigido por Edgar Reitz, autor de um dos mais belos filmes dos anos 80 e um libelo definitivo em torno do holocausto, Heimat (1984).

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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