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Novamente nos Cinemas: Os Pássaros

Revisitando Os Pássaros agora nos cinemas! Oportunidade rara e única. Eis um pouco a história deste clássico.

21/03/2014 14:06 Por Rubens Ewald Filho
Novamente nos Cinemas: Os Pássaros

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Os Pássaros
(The Birds) EUA, 1963. 120 min. Universal. Diretor: Alfred Hitchcock. Elenco: “Tippi” Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Veronica Cartwright, Charles McGraw, Richard Deacon, Elizabeth Wilson,Ethel Griffiths.

Sinopse: Melanie, uma rica mulher da Sociedade de San Francisco vai até a cidadezinha de Bodego Bay, na Costa Norte da Califórnia, entregar um casal de periquitos para um possível admirador como fosse uma piada. Mas é atacada por uma gaivota, no que parece ser o primeiro de uma série de ataques sucessivos e inexplicados contra os humanos.

 

Na sua estreia original, este filme do mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899-80) não provocou grande reação no Brasil, nem nos EUA. Foi indicado a apenas um Oscar® (de efeitos visuais, que perdeu para Cleópatra!). Foi o primeiro que ele fez depois do grande êxito de Psicose (60), mas nesse meio tempo se dedicou mais a produzir, apresentar e ocasionalmente dirigir episódios da série de TV de grande sucesso chamado Suspense (Alfred Hitchcock Presents), que teve sua consagração por aqui quando foi apresentado pela TV Tupi no final dos anos 70, em horário nobre e teve enorme audiência. No dia seguinte só se falava nisso e na cena final que todo mundo achava que havia sido cortada pelo canal (que tinha essa má fama). Foi depois reprisado igualmente com êxito e assim sem tornou um dos filmes favoritos do brasileiro.

Este relançamento nos cinemas e a edição em Blu-Ray (já tinha saído como parte de um boxe de sua obra no estúdio) comemoram os 50 anos do filme. E que hoje continua a aparecer extremamente ousado, particularmente em fazer um final aberto, intrigante, que deixa as pessoas discutindo. O filme, como todo mundo deve saber, é inspirado em conto de Daphne Du Maurier (autora de” Rebecca, a Mulher Inesquecível”, que em 1939 escreveu seu último filme britânico (Estalagem Maldita) e depois em 1940 seu primeiro sucesso nos EUA, justamente Rebecca. Hitchcock comprou os direitos pensando em adaptar para a TV.  Daphne (1907-89) escreveu outros livros que viraram filmes famosos, como Inverno de Sangue em Veneza (73), Gaivota Negra (44), O Estranho Caso do Conde (59), Eu te Matarei Querida (52). Curiosamente o filme e a história tem pouco a ver. Somente o fato de se passarem a beira mar, numa cidadezinha a beira de uma baia, que é vitima de bizarros ataques de pássaros sem maiores explicações. Na obra de Du Maurier o protagonista descobre que esse comportamento dos pássaros está ligado diretamente com a subida e descida das marés e usa isso para derrotá-las. No filme não é feita essa conexão.  Além disso o original ser passa na Inglaterra, onde um homem tenta proteger sua esposa e dois filhos na sua casa isolada.

Os Pássaros voltou a ser comentado recentemente porque fatos novos foram revelados, nem todos convincentes sobre a relação entre Hitchcock e sua descoberta para este filme, que foi a modelo Tippi Hendren (haviam aspas no Tippi antes) e mais lembrada hoje como a mãe de Melanie Griffith, mulher de Antonio Banderas. Foram em alguns livros e em dois filmes, mais precisamente em A Garota (The Girl, 2012), co-produzido pela HBO e a  BBC. Ela afirmou que foi vítima de sedução, ameaçada e sofreu maus tratos na mão de Hitch (como era chamado e fazia questão disso). Fato desconhecido da gente até agora e negado nas entrevistas feitas para o Making of que é apresentado no Blu-ray, que é de 99, mas que foi explorado num roteiro totalmente trash de uma certa Gwyneth Hughes (que tem feito telefilmes). No filme A Garota, tudo fica comprometido pela fraca interpretação de Toby Jones, também prejudicado pela maquiagem esquisita e por uma postura antipática, deixa virar caricatura e cai mesmo no ridículo, com o lábio inferior pronunciado, a voz pausada e pomposa, o que lhe dá um jeito repulsivo demais. O roteiro não dá elementos para entendermos o seu comportamento descontrolado e maldoso (segundo o filme durante as filmagens de Os Pássaros porque ela não quis dormir com ele permitiu que ela se ferisse com os pássaros de verdade ou de mentira que a atacavam). Por outro lado, não fica muito claro embora tenha lido em resenhas que ele seria impotente (há uma cena onde há um fade out, escurecimento, onde deixa a entender que ela teria finalmente consentido! Ao menos fica dúbio). Mas tudo se estraga de vez com um letreiro final que afirma que Marnie, Confissões de uma Ladra (o segundo e último filme da dupla, não dá para engolir Tippi ingênua e vitima, quase santa!) seria um sucesso e hoje é visto como a ultima obra-prima do diretor. Só na cabeça dessa gente maluca, já que Marnie já foi sempre mal visto pela crítica (que o achou antiquado) e ainda hoje é considerado um dos piores de Hitch (a última obra prima foi Frenesi, três filmes depois dele). Enganar tudo bem, mas mentir é feio.

Em Os Pássaros, grande parte do mérito do filme deve ir para o roteirista que é o famoso Evan Hunter (1925-2005), autor de muita obra famosa e também conhecido com o pseudônimo de Ed McBain: Sementes da Violência (1955) com Glenn Ford, O Nono Mandamento (60) com Kim Novak, Juventude Selvagem (61) com Burt Lancaster, A Mulher sem Rosto (63) com James Garner, Céu e Inferno (63) de Kurosawa, O Último Verão (69) com Barbara Hershey, Sem Motivo Aparente (69) com Jean-Louis Trintignant, Confusões por Todos os Lados (72) com Lynn Redgrave, Aliados contra o Crime (72) com Burt Reynolds, Laços de Sangue (78) de Chabrol, com Donald Sutherland. Evan escreveu inclusive um Me and Hitchcock, sobre a colaboração entre os dois aqui e também depois em Marnie.

Há vários aspectos a se comentar do filme:

1)      Não há trilha musical tradicional. Ao contrário, o compositor habitual de Hitchcock, Bernard Hermann, assina como consultor e aprovou a ideia de irem ate a Alemanha conhecer uma experiência que se faziam com sons eletrônicos. Num aparelho chamado mixtrautonium, por Oskar Sala. Embora tenha música incidental (Tippi tocando piano "Deux Arabesques" de Claude Debussy, as crianças cantando na escola uma música que tem letra de Evan Hunter), todos os efeitos são guardados para as cenas de ataque, com barulho simulando a “voz” dos diferentes pássaros.  O resultado é excepcional e favorece também os silêncios que provocam suspense, já que o público fica esperando os ataques, como na sequência em que Tippi/Melanie vai fumar cigarro (coisas da época, tanto ela quanto a professora fumam muito!) e de repente, num momento até longo no parque das crianças, o trepa-trepa fica repleto de corvos! Que se preparam para atacar. E depois da morte do fazendeiro que já sabemos que são mortais! (o cadáver dele é mostrado em três planos cada um deles mais próximo que o seguinte, também novidade na época).

2)      Os figurinos do filme são da maior figurinista de Hollywood, a mais premiada (8 Oscars), a genial Edith Head, que fez vários filmes com Hitch (como Um Corpo que Cai, Janela Indiscreta). Foi quem desenhou os discretos tailleurs para Tippi (mas também suas roupas para apresentações pessoais). Assim a roupa verde combina com os olhos verdes da atriz. Edith assinou 437 projetos.

3)      Hitchcock não gostava de rodar em locações. Aqui ele começa na praça mais famosa de San Francisco, mas assim que Tippi/Melanie atravessa a rua e passa por um cartaz já se muda para o estúdio. Um garoto assovia com admiração para ela (mas era uma citação do comercial de TV que fez com que Hitch prestasse atenção nela e a contratasse!), entra então na loja de animais.

4)      É já ai bem no comecinho do filme que Hitch faz sua tradicional aparição em cameo (pontinha), saindo da loja levando justamente seus dois cães de estimação que ficavam o tempo todo com ele, mesmo no estúdio!

5)      O que mais me espantou revendo o filme é o fato de que ele desobedece as normas dos livros que ensinam como escrever roteiros. Nada acontece de suspense ou emoção até o primeiro ataque da gaivota em Tippi, isso já aos 25 minutos! Até ali temos apenas momentos de romance. O autor Hunter confirma que ele usou o velho truque das comédias screwballs dos anos quarenta fazendo que o casal se encontrar de forma bonitinha e engraçada, sendo que imediatamente ficam implicando um com o outro. Quase brigando, quase flertando. É o que sucede até o primeiro ataque, quando se muda de tom. Como Hitch gostava muito do gênero e de Carole Lombard, fica-se com a impressão de que estava pensando nela ao aprovar esse estilo!

6)      A edição em Home Vídeo tem um erro grosseiro de tradução ao chamar Hood de “Pretos”, quando o certo seriam marginais, delinquentes, bandidos (como em Robin Hood). Ao usar esse nome demonstra um inaceitável preconceito! (isso sucede duas vezes num diálogo que a menina diz sobre o irmão que é advogado! Ou seja, que o marginal tem que ser preto!). Um absurdo!

7)      O clima é construído muito devagar começando com as galinhas que não querem comer e já na primeira sequência Tippi presta atenção no céu da praça onde se percebe pássaros circulando como se fossem migrar. Foi cortada uma cena que foi rodada, mas só aparece nos extras do Blu-ray em trechos do script e poucas fotos. Nela o casal tomando ar no alto da colina e vendo o mar, discute como teria tudo acontecido e brincam que os pássaros se reuniram e resolveram atacar os humanos.

8)      Reparem como Hitch procurou usar pássaros bonitos e amigáveis, como a gaivota, os pardais e o mais feioso seria apenas o corvo! E não agressivos como águias e gaviões.

9)      Como se sabe Hitch tinha preferência por loiras, de Grace Kelly à Kim Novak e em geral colocava morenas de coadjuvante  como rivais. Aqui, ele dá esse papel a uma atriz subestimada e que merecia muito mais, a linda e boa atriz Suzanne Pleshette (1937- 2008) que ficou famosa no Brasil por causa de O Candelabro Italiano (depois se casou por uns tempos com o galã do filme Troy Donahue) e nos EUA na serie de TV The Bob Newhart Show. Muito divertida, famosa pela boca suja, ela faz a quase rival de Melanie/Tippi, a professora local. Tem poucas cenas e nem sequer uma boa saída de cena. Mas com pouco texto, consegue passar a verdade e a simpatia de Annie Hayworth, que amava e sofria em silencio. Sem nunca trair.

10)   Hitch pensou em Farley Granger para o papel de Mitch, mas ele tinha compromissos no teatro e o escolhido foi o australiano que esteve contratado pela MGM Rod Taylor (1930-). Este chegou a fazer papeis importantes (Zabrieskie Point para Antonioni, foi galã duas vezes de Doris Day e retornou em Bastardos Inglórios, irreconhecível por causa do alcoolismo);

11)   Quem tem participação importante no filme é Jessica Tandy (1909-94), que só realmente ficaria famosa quando idosa (seria a mais velha atriz a ganhar um Oscar®, no caso por Conduzindo Miss Daisy em 89). Hitch era velho amigo do marido dela, que fez vários filmes com ele, Hume Cronyn. Aqui ela faz a mãe de Mitch/Rod, um personagem difícil porque é inseguro, que promete mas não cumpre ser rival e inimiga de Melanie/Tippi. Jessica porém demonstra sua competência e uma beleza que é raramente comentada.

12)   Há alguns atores coadjuvantes importantes no filme. Curioso como Hitch usou numa ponta um ator de comédia na época muito querido, Richard Deacon (1921-84), abertamente homossexual e que faz o vizinho que dá instruções quando Melanie vai deixar o presente na porta. Toda a sequência no restaurante chamado Tides também tem figuras características como Charles McGraw (aquele que prevê fim do mundo), Ethel Griffies como a ornitologista (fez de A Ponte de Waterloo, Como Era Verde o meu Vale). Elizabeth Wilson (como a garçonete), mas sem dúvida a mais lembrada é  Veronica Cartwright, irmã de Angela, e que fez Infâmia, Alien, A Bruxa de Eastwick, Os Nove Irmãos. Mitch Zanich, dono do Tides, fez acordo com a produção de emprestar o lugar em troca de ter uma fala e um personagem levar o seu nome (pode ser ouvido “O que aconteceu Mitch?” depois do ataque da gaivota. E Mitch é o nome de Rod).

13)   Os efeitos especiais foram inovadores, na medida em que a projeção de fundo colorido no chamado Blue Screen não dava bons resultados, principalmente nas bordas que ficavam azuladas. Resolveram então recorrer à técnica dos estúdios Disney, que basicamente era gravar as imagens separadas (o ator que vai em primeiro plano e o fundo), utilizando bases em cores diferentes (amarelo a do background e a outra em branco). Por isso a união das duas imagens feitas em pós produção deram resultado muito melhores e convincentes,  mesmo até hoje.

14)   Havia um outro final no roteiro, mas não mudava muita coisa. Basicamente o carro com os sobreviventes ia atravessando a cidade que estava toda arrasada, com muitos mortos e vitimas. Quando estão saindo encontram novo bando de pássaros que atacam o carro (que é um conversível com cobertura de lona), os bichos estão vão furando essa lona ate romperem. Quando vão atacar e seriam mostrados num plano de baixo para cima, contra o céu, Mitch pisaria no carro e conseguiria escapar. A sequencia porém não foi rodada segundo o roteirista porque sairia muito cara. De qualquer forma, Hitch fez o elenco e equipe jurar que não contaria o final. No material extra do Blu-ray chamado “O Filme de Monstro de Hitchcok” (onde vários famosos comparam o filme à Tubarão de Spielberg que teria se inspirado muito nele!) se defende a teoria apocalíptica. Embora tenham realmente ocasionais ataques de pássaros a humanos (um inclusive com o filho da autora Daphne), o enredo faz imaginar algo maior, uma revolta mesmo e chegaram a pensar em ter pássaros em toda parte, ate mesmo na Golden Gate de San Francisco. Mostrando que não teria saída. Alguns dizem que foi uma critica a complacência humana diante da natureza, que um dia pode se revoltar. Por isso fizeram a cena da discussão do povo no restaurante (com a virada clássica do povo contra a heroína, já que tudo começou a acontecer quando ela surgiu na cidade. Aliás, Tippi conta que o tapa que deu na atriz que a ataca foi para valer a pedido da própria).Então o fim não é um clímax mas uma grande interrogação que o espectador tem que responder.

Houve  uma continuação muito fraca feita para a TV, chamada Os Pássaros 2 (94, The Birds II: Land´s End), de Rick Rosenthal, com Brad Johnson e Chelsea Field (e participação pequena de Tippi em outro personagem). Importante: Hitchcock não quis colocar o termo “The End” no fim do filme porque achava que nada se concluía. Tudo termina apenas com o logotipo novo da Universal (que por sinal durou pouco). Não se pode esquecer das inúmeras imitações, durante anos os produtores imitaram Hitch e fizeram diversas revoluções dos animais contra os homens (coelhos, cobras, aranhas, jacarés e assim por diante).

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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