ESTREIAS DA SEMANA NOS CINEMAS E NO STREAMING
Descubra filmes interessantes numa tela perto de voce
Eu, que te amei
Apresentado no Festival de Cannes do ano passado, o drama francês é inspirado no tumultuado caso de amor de Simone Signoret (1921-1985) e Yves Montand (1921-1991), dois ícones do cinema francês. Eles foram casados por quase 35 anos, até o falecimento de Simone. O casal tinha um amor efusivo, uma liga forte, mas haviam impasses, brigas violentas e traições. O casal tinha nítidos contrastes: Simone era ciumenta, atormentada pelos casos extraconjugais do marido, como o que teve com Marilyn Monroe, enquanto Montand, um mulherengo de bom coração, tentava relevar tudo para evitar confrontos. Atuaram juntos em quatro filmes franceses entre as décadas de 50 e 70. Existia ali um casal além de seu tempo, que se entendia apesar das diferenças, dois artistas politizados que encabeçaram filmes revolucionários e entregavam grandes interpretações. Nascida na Alemanha, porém radicada na França, Simone Signoret, de ‘As diabólicas’, venceu Oscar, Bafta, Berlim e Cannes, enquanto o galã ítalo-francês Montand protagonizou produções cultuadas como ‘O salário do medo’ (1953) e ‘Z’ (1969). O trabalho da diretora e roteirista Diane Kurys, de ‘Refrigerante de menta’ (1977) e ‘Por uma mulher’ (2013), é maduro e sólido, cuja pesquisa sobre o famoso casal durou cinco anos. Ela é uma cineasta de 77 anos que conheceu os verdadeiros biografados, e no drama optou pela captura de cenas íntimas, de muitos diálogos do casal em casa e entre amigos, com longas conversas sobre casamento, trabalho e futuro – numa das tantas cenas românticas, Montand canta ‘Les feuilles mortes’ para Simone no aniversário dela (Montand gravou este clássico da música francesa, escrita por Jacques Prévert nos anos 70, e num dos trechos há o verso que remete ao título do filme, ‘Moi qui t'aimais’, que significa ‘Eu, que te amei’). A dupla de atores está em um momento de pura consagração, ‘encarnando’ as reais figuras, com um impressionante trabalho de cabelo, maquiagem e figurino – são eles Marina Foïs, de ‘As bestas’ (2022) e o ator de origem marroquina que vem fazendo muitos filmes e também é diretor, Roschdy Zem, de ‘Os filhos dos outros (2022). Gostei do resultado, de um filme sensato que não cai no melodrama. Está nos principais cinemas do Brasil, com distribuição da Autoral Filmes.
Eat the night
O multiverso e a realidade estendida (modalidade dentro da Realidade Virtual) entraram de cabeça no mundo do cinema. Filmes cujos personagens alteram suas rotinas por causa de um jogo imersivo, em que assumem avatares, fazem-se presentes há pelo menos 15 anos. O cinema reflete a realidade, e os jogos estão cada vez mais presentes na rotina das pessoas. Produções hollywoodianas de alto orçamento, a trilogia ‘Avatar’ (2009, 2022 e 2025) e ‘Jogador nº 1’ (2018) repercutiram os temas nas salas do mundo todo. Mas há também longas-metragens pouco conhecidos do grande público que tratam de multiverso e realidade estendida, sendo dois bons exemplares que vi recentemente, ‘Grand Theft Hamlet’ (2024) e ‘Eat the night’ (2024). Este é uma produção francesa, que traz dois irmãos, Pablo (Théo Cholbi) e Apolline (Lila Gueneau), fanáticos por um jogo chamado Darknoon, onde vivem experiências ultrassensoriais. Dentro do Darknoon, eles se transformam em personagens desbravadores, explorando um mundo mítico com guerreiros e criaturas. Fora do jogo, Pablo é um jovem traficante de drogas, que se apaixona por um rapaz misterioso, apelidado de Night (Erwan Kepoa Falé). Apolline passa mais tempo que Pablo jogando, com o passar dos dias se afasta dele. Quando Pablo se envolve em uma guerra de gangues de rua, recorre ao mundo virtual para escapar do problema. Realidade e ficção se misturam, até que a Darknoon anuncia o encerramento do jogo em 60 dias. O filme é um thriller autoral visionário, também um ‘coming of age’ com elementos de ‘jogos da mente’, que prende a atenção do começo ao fim. Conta com uma estética inovadora, tão disruptivo quanto ‘Grand theft Hamlet’, em que a fantasia se sobressai a ponto de engolir a realidade, tornando-se a salvação dos personagens. A ambientação ocorre em dois mundos – na vida real e na plataforma do revolucionário jogo. Radical em vários aspectos, principalmente na questão técnica, o filme tem classificação indicativa 18 anos, por trazer conteúdo envolvendo drogas, sexo e violência. Explora temas sensíveis para a sociedade, como liberdade sexual e vício digital. Exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes e indicado ao Queer Palm, teve exibição no Brasil no Festival do Rio de 2024 e agora está disponível na plataforma Reserva Imovision.
O palhaço no milharal
Nova fita slasher de palhaço assassino com humor macabro, coprodução EUA/Canadá/Reino Unido/Luxemburgo e rodada em verdadeiras locações de milharais e fazendas no Canadá. De orçamento pequeno – U$ 1 milhão, fez presença nos cinemas do exterior e agora chega ao streaming no Brasil, na HBO Max. Com apelo de terror adolescente, o filme – voltado a apreciadores do gênero, e confesso que achei ok, é baseado na série de livros de Adam Cesare, com publicação no Brasil. Um assassino mascarado se utiliza da figura de um palhaço amigável, de nome Frendo, mascote de uma cidadezinha no meio-oeste dos Estados Unidos, para atacar as pessoas. O perverso serial killer persegue um grupo de jovens durante uma festa anual do milho, em Kettle Springs, deixando um rastro de medo pelo caminho. Segue a tradicional ideia do slasher, com mortes macabras e escondendo a identidade do matador, que só descobrimos na reta final. Rostos conhecidos, como Carson MacCormac, Katie Douglas, Will Sasso e Kevin Durand, atuam no filme, assinado pela produtora Shudder, especializada em horror movies, em parceria com a produtora de ‘Sorria’ – partes 1 e 2 (2022 e 2024), a Temple Hill Entertainment. Quem dirige é o norte-americano Eli Craig, de duas fitas de terror anteriores, ‘Tucker e Dale contra o mal’ (2010) e ‘Pequeno demônio’ (2017).
Transamazônia
Em exibição nos cinemas desde o dia 08/01, o bom longa ‘Transamazônia’ traz uma narrativa repleta de contrastes, sobre dois mundos que se encontram e entram em choque. Rodado no Pará, a história costura pelo menos cinco temas: o poder da fé, a manipulação religiosa, a luta pela preservação da floresta, as tradições indígenas e a relação frágil e ao mesmo tempo profunda entre um pai e sua filha. Na trama, uma jovem sobrevive a um acidente aéreo na Amazônia e se torna um ‘milagre vivo’ – ela é Rebecca Byrne, papel da atriz alemã Helena Zengel, que se destacou no impactante drama ‘Transtorno explosivo’ (2019) e no ano seguinte foi indicada ao Globo de Ouro de atriz coadjuvante em ‘Relatos do mundo’ (2020). Para a comunidade pentecostal liderada por seu pai, o missionário estrangeiro Lawrence Byrne (Jeremy Xido, ator e diretor canadense), a menina está viva por uma manifestação divina, portanto a incentiva a seguir seus passos no mundo religioso. Ela se torna uma pregadora protestante que se utiliza também do curandeirismo, no meio da selva, levando os indígenas para mundo da espiritualização ocidental. A chegada de madeireiros ilegais na região ameaça os povos indígenas e também a integridade da família Byrne. Misturando diálogos em português e inglês, o filme revela duas situações que avançam no país e ameaçam a cultura dos povos originários – a questão dos madeireiros ilegais, que matam para explorar indiscriminadamente a região, e a evangelização pentecostal dos indígenas, que mais parece aquilo que estudávamos na colonização e exploração do Brasil no século XVI. Produzido em parceria internacional (uma coprodução França, Alemanha, Suíça, Taiwan e Brasil), o longa mistura drama e suspense com ingredientes fortes dos dois gêneros, refletindo diferentes olhares sobre a Amazônia, além dos dilemas que surgem quando crença, natureza e relações pessoais se entrelaçam. A diretora é Pia Marais, uma sul-africana radicada na Alemanha, em seu quarto longa-metragem; ela escreveu o roteiro com ajuda de dois roteiristas a partir de uma história real ocorrida na floresta amazônica na década de 70. Pia conta que ficou no Brasil por uma temporada para estudar o caso, viajando pela Amazônia em busca de histórias e elementos para compor o fiel retrato dos personagens. Integrou a Seleção Oficial do Festival de Locarno e da Mostra Panorama Mundial no Festival do Rio 2024, tendo distribuição no Brasil pela Filmes do Estação.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista e especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp. Pesquisador na área de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades. Professor de Semiótica e História da Arte no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva) e coordenador do curso técnico de Arte Dramática no Senac Catanduva. Redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL). Apresenta o programa semanal Mais Cinema, na Nova TV Catanduva, e mantém as colunas Filme & Arte, na rede "Diário da Região", e Middia Cinema, na Middia Magazine. Escreve para o site Observatório da Imprensa e para o informativo eletrônico Colunas & Notas. Consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canadá). Criador e mantenedor do blog Setor Cinema desde 2003. Como jornalista atuou na rádio Jovem Pan FM Catanduva e no jornal Notícia da Manhã. Ex-comentarista de cinema nas rádios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003), e participa como júri em festivais de cinema de todo o país. Contato: felipebb85@hotmail.com
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