Afinal, quem e? o Pai da Crianca?
Em Uma Batalha Apos a Outrao realizador Paul Thomas Anderson capta com furia a explosividade de imagens contemporaneas de nossas sociedades planetarias
Estamos, enfim, diante do filme da Era Trump. Uma era que não se resume aos Estados Unidos e à personalidade do atual presidente americano, Donald Trump. É uma era que engloba vários tipos e dirigentes brucutus pelo mundo e não começou agora: desenvolveu-se ao longo das décadas, entre o fim do século passado e estes anos do começo do século XXI. Em Uma batalha após a outra (One battle after another; 2025) o realizador Paul Thomas Anderson capta com fúria a explosividade de imagens contemporâneas de nossas sociedades planetárias. Desde os primeiros quadros as personagens incomodam, agridem, perturbam, a violência de filmar (com planos rápidos e tensos e uma montagem frenética) acompanha o íntimo turbulento destas criaturas. É no militar racista e fascista Steven J. Lockjaw, interpretado com significativo desassombro por Sean Penn, que o filme de Anderson topa a face mais descabelada de sua audácia: ainda que incrustado num modelo industrial de filmar, o cinema de Anderson ousa interferir nas marcações conformistas das relações de um filme com o espectador, este convidado quase a desinstalar-se de sua poltrona.
Navegando de maneira multifacetada por diversos disformes da sociedade americana (que é um modelo intercontinental para as outras sociedades do planeta), Uma batalha após a outra concentra suas energias básicas num clássico triângulo amoroso. Dois companheiros revolucionários (qual é a revolução?), Pat Calhoum (Leonardo DiCaprio) e Perfidia Beverly Hills (Teyama Taylor, uma força negra em cena) formam um casal, mas o fascista Lockjaw se intromete entre eles, nasce uma mestiça, e afinal quem é o pai da criança? O pai da criança, o pai de um filme ultracontemporâneo como Uma batalha após a outra é outra batalha. Em determinado momento a personagem de DiCaprio vê na televisão rápidas imagens do clássico A batalha de Argel (1966), onde o italiano Gillo Pontecorvo buscou numa revolução um estilo de filmar baseado na violência estética. A genética de Uma batalha após a outra parte daí, do filme de Pontecorvo. Anderson cita o filme de Pontecorvo meio de viés. Sua personagem está interessada em outras coisas, outros dramas estão à volta na cena, é necessário que o espectador conheça o clássico de Pontecorvo para desfrutar os signos da citação. A inserção de imagem de A batalha de Argel no interior de Uma batalha após a outra é uma piscadela d’olhos para o espectador culto, enquanto a linguagem cinematográfica se banha um pouco das facilidades dos truques comerciais de ação que possam tornar suas quase três horas de projeção mais digeríveis, menos abstratas. Recentemente, a reexibição de Paris, Texas (1984), do alemão Wim Wenders, com suas longas e exasperantes duas horas e meia, permite a comparação: o jeito muito americano de Anderson é mais assimilável pelo público que as formas germânicas de Wenders, mesmo no estágio mais industrial de Wenders, plasmado em Paris, Texas, pois, como disse a ensaísta americana Pauline Kael (com seu jeito americano de ver um filme, e a propósito de outro filme de Wenders) “o jovem diretor alemão Wim Wenders sente atração pela ideia de contar uma história, mas não consegue concentrar-se nela.” Anderson: concentração máxima nos muitas vezes obscuros pontos de intersecção de seu múltiplo filme.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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