A Comedia e a Critica da Escravidao Brasileira

Caca Diegues: os seus filmes cheiram a Brasil em todos os fotogramas

08/08/2026 04:04 Por Eron Duarte Fagundes
A Comedia e a Critica da Escravidao Brasileira

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Carlos Diegues é um dos brilhos do cinema brasileiro. E também um dos cérebros necessários de nosso cinema. Como ele já disse certa vez, o que lhe interessa é filmar o rosto do povo brasileiro. Seus filmes cheiram a Brasil em todos os fotogramas. E este é o dado fundamental que determina a própria linguagem cinematográfica de Diegues.

Xica da Silva (1976) é um dos marcos de sua filmografia, especialmente pela exuberância de suas facilidades de comunicação pública numa narrativa que propõe o burlesco cômico próximo mesmo das trivialidades popularescas e no entanto não desdenha a visão crítica das circunstâncias históricas em que a anedota geral do país está imersa. Incrustado entre duas obras-primas de Diegues (Joanna Francesa, de 1973, e Chuvas de verão, de 1978), Xica da Silva tem sido esnobado pelos bem-pensantes acadêmicos do país. Taxam-no de envelhecido, dotado de um humor que só pode ser compreendido no coração dos anos 70, com a comédia leve da época, a televisão incipiente daqueles anos. Se Xica da Silva tem mesmo seus pontos raspados pela passagem dos anos, em sua maior parte o filme de Diegues é um retrato hábil e sensível da escravidão de época e daquilo que os longos séculos da escravização dos negros trouxeram para a alma poluída da sociedade brasileira.

Extraído dum romance de João Felício dos Santos (que aparece como ator no filme, interpretando um padre comilão), Xica da Silva está ambientado na região mineira de Diamamtina (historicamente, o Arraial do Tijuco) e observa os tipos que circulavam na Colônia no século XVIII, o comendador (ou contratador da diamantes) João Fernandes, enviado pelo rei lusitano, uma escrava que passa a relacionar-se com este nobre da corte e adquire dele a alforria, o sargento-mor, a branca europeia cheia de tiques, o intendente, o moleque da vila, o conde Valadares que aparece para fiscalizar as irregularidades dos mandatários do local. Os atores que dão vida às caricaturas bem-humoradas e bem construídas de Diegues parecem estar no apogeu: Walmor Chagas, Zezé Motta, Elke Maravilha, Stepan Nercessian, José Wilker (um impagável fiscal da Coroa), Marcus Vinicius, o eterno brasileiro Rodolfo Arena. É certo que todo o feixe dramático é costurado pelas relações entre o poderoso branco (Walmor/João Fernandes) e a sensual e malandra negra escrava liberta (Zezé/Xica); no fim do filme, Zezé dançando, nua como um animal selvagem, contorcendo-se e provocando, diante do aparvalhado Conde de Valadares (Wilker), é um dos pontos mais cativantes da história do cinema brasileiro. E, com boa vontade crítica, pode-se dizer que a filmagem desta sequência por Diegues, enamorada, hipnótica, resgata para a permanência os eventuais danos que as décadas possam ter causado na narrativa.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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