RESENHA CRÍTICA: Polícia Federal - A Lei é para Todos

Não sei se já era a hora de se fazer um filme com jeito de propaganda num momento em que a crise não foi solucionada e pela própria narrativa tudo é simplificado

08/09/2017 12:35 Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CRÍTICA: Polícia Federal - A Lei é para Todos

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Polícia Federal - A Lei é para Todos

Brasil, 2017. Direção de Marcelo Antunez. Com Marcelo Serrado, Antonio Calloni, Flavia Alessandra, Rainer Cadete, Samuel Toledo, Leonardo Franco, Roberto Birindelli, João Baldasserini, Roney Facchini, Sandra Coverloni e Ary Fontoura. Roteiro de Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein.

As pessoas devem ter memória curta. Os mesmos que há poucos anos atrás aplaudiram o lamentável filme sobre a vida de Lula, hoje se divertem demolindo esta curiosa e mal-sucedida tentativa de louvar um fato atual, que ao menos faz uma tentativa de apresentar fatos reais e assustadores, que na verdade deixam os espectadores e por extensão todos brasileiros chocados e espantados. É provável que na vida real os fatos da Lava a Jato poderiam resultar num filme empolgante e notável, se tivessem mais cuidados. Será que esse diretor pouco conhecido, Marcelo Antunez, tinha experiência suficiente para fazer o que não passa de uma dramaturgia muito frágil, mal desenvolvida? Será que os responsáveis já ouviram falar no diretor grego Costa-Gavras (1933-, ainda vivo) que em 1969, realizou o filme “Z” (Oscar de filme estrangeiro e montagem, Globo de Ouro, Prêmio do Júri e ator, Jean LouisTrintignant, Críticos de Nova York) que ficou anos proibido no Brasil, tanto que foi liberado antes na Grécia (ele denunciava justamente a ditadura militar naquele país) do que por aqui. Logo depois Costa-Gavras continuou a se dedicar a mesma temática sendo que em 1972, rodou Estado de Sitio, onde entre outras coisas denunciava os militares brasileiros que ajudaram a ensinar a violência e perseguição de esquerdistas. Enfim, dali em diante e até hoje, ele serviu de modelo para demonstrar os absurdos da política (e já em 1970, fez também A Confissão sempre com Yves Montand, onde denunciava o que antes era impossível: o Partido comunista!).

Relembro isso porque um Festival Gavras certamente teria melhorado a dramaturgia e narrativa de um filme que poderia ser mais forte, caso não se perdesse com um roteiro tão primário e um elenco tão frágil. Eu consegui achar exceção na postura digna de Antonio Calloni e defender Ary Fontoura que serve de alivio para apresentar um veterano corrupto (estudando um pouco mais saberiam que humor é fundamental em qualquer filme do gênero, até na tragédia). E lamentar o desperdício e total inexpressão de Marcelo Serrado e o excesso de caras e trejeitos dos que fazem os policiais.

Não sei se já era a hora de se fazer um filme com jeito de propaganda num momento em que a crise não foi solucionada e pela própria narrativa tudo é simplificado. Realmente valeria mais se fazer um documentário a sério, mas a televisão parece ter medo de aprofundar o assunto e a única tentativa de critica de humor que eu assisti na teve é o show ainda pouco conhecido da HBO estrelado por Gregório Duvivier, que começou tímido em maio e hoje é impagável sátira não apenas a Lava-Jato mas a todas as loucuras e delírios que a cercam. Chama-se Greg News e está também no You Tube. Demonstra-se assim que o humor pode ser a melhor arma.

Não há humor no filme da Lava a Jato (a não ser a curta aparição de Ary que tantos criticaram). Quando se espera o final da projeção descobrimos através de uma cena curta que há outro filme sobre o assunto feito pelos mesmos envolvidos vem logo por aí, a sensação que tive foi de oportunidade perdida. O espectador ainda esta ansioso para entender os detalhes e meandros dos altos e baixos dos envolvidos, o dinheiro roubado não é deles, mas de todos nós, que fomos e continuamos a ser maltratados e repelidos. E mal informados. Também assustados e perdidos. Não foi o filme que nos assustou e decepcionou. Mas tudo o que ele ainda deixou de mostrar.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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