DE VOLTA AO CINEMA: Acossado (A Bout de Souffle), de Godard

Clássico filme francês estará de volta aos cinemas dia 8 de fevereiro

26/01/2018 14:20 Por Rubens Ewald Filho
DE VOLTA AO CINEMA: Acossado (A Bout de Souffle), de Godard

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Acossado (A Bout de Souffle)

França, 1959. 90 min. Direção de Jean-Luc Godard. Produzido por Georges de Beauregard para S.N.C., Imperia. Direção de Jean-Luc Godard (com a consultoria técnica de Claude Chabrol). Roteiro de Jean-Luc Godard e argumento de François Truffaut. Fotografia de Raoul Coutard. Música de Martial Solal. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Liliane David, Van Doude, Henri-Jacques Huet, Claude Mansard, Daniel Boulanger, Jean-Pierre Melville, Roger Hanin, Michel Fabre, Jean-Luc Godard, Jean Dormachi, Richard Balducci, François Moreuil, André S. Labarthe. Preto e Branco.

Sinopse: Michael Poiccard (Jean-Paul Belmondo) é um ladrão de carros que mata um policial e admira Humphrey Bogart. Corteja Patricia (Jean Seberg) uma jovem americana que vende o jornal em inglês “New York Herald Tribune” nos Champs - Elysées enquanto é perseguido pela polícia e aplica outros golpes.

Bastidores: Primeiro longa-metragem do crítico Jean-Luc Godard, que junto com Truffaut defendia a chamada “Política dos autores” na revista “Cahiers du Cinéma”. Embora Truffaut tenha assinado o argumento, pouco teve a ver com o filme, que foi basicamente improvisado dia a dia, usando luz natural, sem som direto (Godard gritava instruções para os atores durante as cenas), sem maquiagem (Jean usa make-up em apenas uma sequência e quase chegou a largar o filme no primeiro dia depois de brigar com o diretor) . Foi este filme que transformou em astro o jovem Belmondo (mais tarde, nos anos 70, seria a maior bilheteria da França) e salvou a carreira da jovem americana Jean Seberg (1938-1979), que havia sido descoberta por Otto Preminger (admirado pelo Cahiers) para o papel central de Santa Joana, um tremendo fracasso. Melhorou um pouco com outro filme com Preminger, Bonjour Tristesse, que a levou a França onde aprendeu a língua e se casou com um advogado internacional François Moureil (que até virou diretor e faz ponta aqui no filme). Seu contrato foi vendido a Columbia e aceitaram 15 mil dólares de salário o que era pouco mas representava um décimo do orçamento total. A partir deste filme, Jean virou estrela, tanto em filmes de Hollywood quando franceses mas teve um final triste, se suicidando.

Rodado em Paris e Marselha, o filme traz participação especial do excelente diretor Jean-Pierre Melville 1917-73 (como um escritor Parvulesco inspirado em Vladimir Nabokov que dá entrevista no aeroporto para Jean). Ele foi o pioneiro no cinema independente francês e era amigo do grupo. Godard também tem uma ponta (o que sujeito que reconhece Belmondo na rua e o denuncia para a polícia) e dedicou o filme à Monogram (que era a produtora de filmes B e C, quase sempre policiais, nos anos 30 e 40 e que mais se tornaria a Allied Artists). Em 1983, os americanos o refilmaram como A Força do Amor (Breathless), de Jim McBride, com Richard Gere e a francesa Valèrie Kaprisky, com um resultado curioso, mas bem diferente do original.

Chabrol que ele e Truffaut apenas emprestaram o nome ao projeto para ajudar o amigo Godard, mas que nada tiveram a ver com o resultado. De qualquer forma, o nome deles serviu também para driblar os regulamentos e exigência dos Sindicatos. Também foi fundamental o grande fotografo Raoul Coutard, que seria o iluminador da maior parte de sua carreira. E o pessoal da equipe e da própria montadora que confirma um fato pouco conhecido que o filme resultou longo demais e em vez de reduzir cerca de 50 minutos, Godard resolveu simplesmente cortar parte das cenas, criando cortes e pulos abruptos (jump cut) e também pulo de eixo (o que teria inacreditável influencia na história do cinema moderno, que nunca mais voltaria a ser o mesmo).

Com este filme Godard libertou o cinema de regras e normas e a partir dele tudo era (e foi) permitido. Naturalmente quando foi rodado provocou escândalo (todos diziam que iria ser um fracasso). Jean Seberg, teve fim trágico provocado pela perseguição que lhe fez o FBI, quando ela passou a ajudar os Panteras Negras. Inventaram um boato que ela estava grávida de um deles, que provocou um aborto e como ela tinha uma mente frágil entrou em crise, tentou o suicídio diversas vezes e finalmente conseguiu, usando barbitúricos e se escondendo em seu carro. A carreira de Jean incluiu também filmes em Hollywood.

Comentários: Simplesmente um filme que revolucionou a maneira de fazer cinema. Talvez Godard nem conhecesse muito bem a gramática cinematográfica, mas o fato é que desobedeceu todas as regras vigentes, a ponto de logo nos primeiros minutos do filme, o protagonista virar-se para a câmera e dizer diretamente para o espectador, em francês, é claro “Vá se Fo...”. Ele usou um mínimo de luz artificial, câmera na mão, trabalhou sem roteiro improvisando as cenas dia a dia gritando ordens para os atores e técnicos (os diálogos todos foram dublados depois, mas ainda é possível se perceber a falta de sincronismo de algumas cenas). Enfim, Acossado é o que hoje se pode chamar de um filme mal feito. Mas esse amador era um crítico festejado e o mundo inteiro bateu palmas e resolveu imitá-lo. Ainda mais porque veio com a aura de intelectual. Repleto de citações literárias (a certo momento Patricia - Jean - cita uma frase de William Faulkner: “entre a dor e o nada, eu prefiro a dor”) e artísticas ( Patricia prega um “affiche” na parede com uma pintura de Renoir e pergunta se ela é parecida com a figura!), o filme é principalmente uma homenagem aos filmes B” americanos, em particular à Humphrey Bogart. No começo, Belmondo aparece admirando uma foto do ator (está passando seu último chamado lá Plus Dure sera la Chute/Mais Forte será a Queda. No Brasil, o filme que foi o seu último trabalho levou o nome de Trágica Farsa/The Harder they Fall,56). Mais tarde, ele imitará um gesto característico do ator (que é passar um dedo pelos lábios), o que se repetirá novamente na cena final do filme com Patricia encarando a câmera ou seja a plateia, com um vago sorriso, perguntando o que quer dizer a palavra com que foi xingada!

O personagem de Michel (que adota o pseudônimo de Lazlo Kovacs durante parte da trama) é um típico pequeno bandido parisiense da época (e também do cinema francês de então), ainda usando chapéu, gravata, paletó e óculos escuros americanizados. Sem qualquer moral ou escrúpulo, ele sabe que vai morrer cedo (“Viver Perigosamente até o Fim”, é uma das frases-chaves do filme e noutro momento diz “penso na morte não às vezes, mas o tempo todo”), mas insiste em conquistar a jovem americana de apenas 20 anos (os cabelos muito curtinhos de Jean que ela lançou quando interpretou Joanna D´Arc só a partir deste filme se tornaram moda). O filme é pouco mais do que um suceder de passeios em carros roubados, diálogos pretensiosos, cortes bruscos (é comum cortar de uma pessoa para ela mesma, um tabu na época, como se desse um pulo na imagem, hoje coisa aceita apenas em certos telejornais). Mas é preciso se transportar para o convencionalismo do cinema dos anos 50 para entender como a fita podia ser libertária. Godard estava dizendo, tudo é permitido, é só fazer, romper, quebrar as regras. Se atrever. Ousar. E foi o que fez com este filme e os seguintes (até quando rompeu com a sociedade de consumo, depois de A Chinesa, em 68, até se tornar totalmente engajado politicamente).

Ocasionalmente há cenas mais eficientes como a da morte de Belmondo numa sequência famosa em que ele sai cambaleando pela rua e antes de falecer, faz algumas caretas para Jean (caretas que tinha feito antes no espelho) e depois puxa com as mãos os olhos para que eles permaneçam fechados. Por isso, é forçoso reconhecer o valor seminal deste filme, inclusive para o Cinema Novo Brasileiro e todo cinema moderno que foi beber em sua fonte. Mas poucos admitiram que se Acossado ainda mantém um certo charme, é principalmente pela feliz escolha de seus atores, a adorável Seberg e o carismático Belmondo.

Num depoimento o diretor Paul Schrader afirma que as revoluções de Godard só tiveram efeito na década de 90, quando surgiu o Avid (ou seja, a edição não linear, em computadores) e o cinema americano teria absorvido essa maneira de fazer filmes. De qualquer jeito, o filme foi sempre um mito para mim para uma simples razão: ele nunca foi exibido comercialmente na cidade onde nasci, Santos (uma coisa rara já que até hoje ainda é a cidade não capital que tem mais salas de cinema). Como não existia ainda Home Video, muito menos Download, só fui ver Acossado de forma incompleta, numa exibição pela TV Bandeirantes, nos anos 1970. Ou seja, perdi o momento onde ele deveria ter mais me influenciado e impressionado.

Há alguns dias, o amigo e excelente escritor Ruy Castro, publicou um novo livro (Trêfego e Peralta) - alias ele sempre se confessou que teve uma verdadeira obsessão por Godard - onde publicou o artigo Amores de Apache da Nouvelle Vague (antes publicado no Estado de São Paulo em 2006). Ele comenta sobre um livro chamado Que reste-t-il de la Nouvelle Vague? do crítico Aldo Tassone (da Stock) onde se revelam alguns detalhes raros. Segundo este, Godard, Truffaut, Chabrol e os cineastas do movimento era um bando de amadores, arrogantes, insensíveis e autoritários que quando fizeram os primeiros curtas, não sabia sequer de que lado ficava o olho da câmera! E ainda por cima seriam diletantes politicamente de Direita. E que os filmes só deram certo porque naquele momento havia uma inovação técnica da Kodak, o filme de 400 Asa, que permitia filmar na rua ou interior quase sem luz. Ruy chama a atenção que naquela época na França para alguém querer fazer cinema profissionalmente teria que ter registro profissional, mas depois teria que fazer 3 filmes como estagiário, mais três como primeiro assistente, depois sim um curta e ai torcer para conseguir produtor para fazer um longa. E todos os filmes eram rodados integralmente em estúdios, roteirizado e o técnico tinham que entender de iluminação, câmera, cenografia etc. Tassone afirma que Godard deve muito a seu fotografo Raoul Courtard, que tinha já feitos documentários durante a Guerra. O texto era soprado por Godard para seus atores que os repetiam e tudo era completado na montagem. Ou seja, este poderia ser o primeiro filme moderno, sem luz e sem som!!!Godard se exibia colocando a câmera onde queria e afirmando: Não faço filmes, faço cinema!

Vários amigos porém não gostavam dele, como o diretor Philippe De Broca que o achava mentiroso e desonesto porque teria roubado um roteiro dele (para o filme Brincando de Amor, rodado em 59) e quando reclamou fingiu que não ouviu! De Broca também o achava opaco demais para ser aceito como foi pelos intelectuais. Truffaut depois da amizade inicial não conseguia nem ouvir o nome dele e não aguentava ouvir os problemas deles com as mulheres (mas como ele não era bobo, Truffaut casou-se com Madeleine, filha de um dos maiores produtores da França!). Todos também odiavam Rossellini que fingiam respeitar (ele tinha dito que a Nouvelle Vague não trazia nada de novo a não ser o método de produção). Só que ex-marido de Ingrid Bergman já estava esquecido enquanto Godard ainda continuava fazendo cinema, como dizia...

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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