A Noite de uma Mulher de Trinta Anos

Os Amantes talvez tenha sido ousado moralmente para sua época, gerou as iras dos conservadores e teve os que o defenderam em nome da arte

23/05/2018 00:03 Por Eron Duarte Fagundes
A Noite de uma Mulher de Trinta Anos

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A atriz francesa Jeanne Moreau tinha trinta anos quando interpretou para o diretor francês Louis Malle a personagem principal de Os amantes (Les amants; 1958). Portanto, a intensa e poética noite de amor que a personagem passou com um amante que ela catou na estrada, vinda de Paris para a campanha onde morava com seu marido, é a noite de amor duma mulher de trinta anos, uma burguesa entediada com o seu mundo em torno e o seu casamento; no fim do filme ela foge com este amante que a princípio seria de ocasião, mas a narradora-over (a própria voz da Moreau, mas falando em terceira pessoa, recurso literário que Malle usa o tempo todo neste filme) lança algumas frases que, apesar da fuga feliz e ousada, lançam algumas dúvidas sobre a extensão daquela noite pelos dias seguintes dos amantes. Jeanne Tournier, a mulher vivida por Jeanne Moreau, é uma Bovary do cinema, a arte por excelência do século XX, ao menos nos termos em que movimentos como a nouvelle vague francesa concebem.

Os amantes criou seu tumulto moral e artístico por onde andou no fim da década de 50 do século passado. O Brasil não fugiu deste pequeno terremoto fílmico. Uma tal Confederação das Famílias Cristãs passou a urrar contra o filme de Malle, gerando uma proibição que, após as exibições iniciais, durou três anos. O historiador de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, com sua polidez e lucidez de texto imbatível, escreveu cinco artigos para, como diz, demonstrar “um sentido de desagravo à senhora Jeanne Moreau e ao senhor Louis Malle, artistas ultrajados pela Confederação das Famílias Cristãs.”

Talvez a cena mais tocantemente erótica do filme seja também a mais sensivelmente poética, pela justeza e senso plástico dos enquadramentos, da montagem e das interpretações. Num primeiro plano aparece o seio da senhora Moreau, um mamilo jovem que está à espera do amante (ou do espectador masculino) para engoli-lo; depois vem o primeiro plano do rosto da atriz, a Moreau expressa com extraordinária beleza em sons e expressão o êxtase sexual de sua criatura; enfim, o primeiro plano da mão da Moreau caindo para o lado, Jeanne pede ao amante que segure sua mão, momento de romantismo sexual. Os amantes talvez tenha sido ousado moralmente para sua época, gerou as iras dos conservadores e teve os que o defenderam em nome da arte; a inserção do historiador Paulo Emílio Sales Gomes na luta pró-Os amantes se identifica com a defesa empreendida pelo crítico I.A. Richards para o romance O amante de Lady Chatterley (1928), do inglês D. H. Lawrence; os elementos históricos e artísticos se repetem com algumas diferenças dos coloridos de época.

Segundo o crítico François Truffaut, “Os amantes é um filme emocionante; não é uma obra-prima por não ser totalmente dominado mas é livre, inteligente, de um tato absoluto e um gosto perfeito; possui a espontaneidade dos antigos filmes de Renoir, ou seja, temos a sensação de descobrir as coisas ao mesmo tempo que o cineasta e não de sermos precedidos ou cercados por ele.”. Hoje Os amantes aparece ao espectador com um ritmo de narrar e um humanismo sensível bastante em desacordo com o cinema mais brutalizado praticado nestes tempos do terceiro milênio; daí talvez tenha esfriado bastante seu contato com  o público e a pretendida densidade poética da imagem de Malle possa parecer-nos às vezes dotada de um excessivo tom melodramático mesmo para o sexo. Ainda assim, o espectador educado dentro duma forma mais refinada de arte, não terá dificuldades de penetrar na atmosfera mágica da narrativa: o embalo estético de Os amantes é sempre sedutor. Diz mais Truffaut: “Os amantes é a síntese perfeita das audácias de um tímido: é fresco e natural, sem virtuosismo, sem artifício.” Truffaut sabia do que falava: conhecia o autor de Os amantes, seu companheiro de nouvelle vague.

Os amantes foi o filme que lançou ao estrelato a grande atriz francesa  Jeanne Moreau, dotada duma personalidade interpretativa única na história do cinema, personalidade que ela depois desenvolveria em obras-primas como A noite (1960), do italiano Michelangelo Antonioni, e Uma mulher para dois (1961), do francês François Truffaut. Obra-prima que talvez Os amantes não seja, mas não está muito longe.

Lado a lado com sua polêmica de época, pode-se dizer que a influência cinematográfica de Os amantes é bastante grande. Sua maneira de filmar e sua sensibilidade humana foi muitas vezes copiada. Certos trechos de diálogos remetem a filmes que vieram muito depois do clássico de Malle. O quarto onde se hospeda na casa de Jeanne o amante de estrada é um quarto verde, como refere o diálogo, embora o filme seja em preto-e-branco; em 1978 Truffaut rodou um O quarto verde a partir da literatura do norte-americano Henry James. Ao saudar Jeanne à mesa com um copo de bebida, o marido exclama: “Aos nossos amores!” Aos nossos amores (1983) é um filme de delicadeza e profundidade invejáveis dirigido pelo francês Maurice Pialat, herdeiro do francês Robert Bresson, que é também um pouco da matriz de Malle. Como assistente de direção aparece o nome de Alain Cavalier, que viria a dirigir filmes, entre eles, o espiritual Teresa (1986), outro rebento bressoniano. Entrelaçamentos estéticos que enriquecem, hoje, a percepção de um filme como Os amantes.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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