A Demência Cotidiana de Sylvia Plath

Cada palavra de A Redoma de Vidro corta a personagem e expele o sangue para o leitor

29/05/2018 15:59 Por Eron Duarte Fagundes
A Demência Cotidiana de Sylvia Plath

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A escritora norte-americana Sylvia Plath suicidou-se em 1963, aos trinta anos de idade. Numa vida curta compôs algumas poesias e um só romance, A redoma de vidro (The bell jar; 1963). É este romance onde a afeição americana pelo cotidiano (de linguagem e gestos) vai tecendo uma estranheza de composição que vem desta narradora de primeiros passos onde a autora despeja uma parte substancial de sua alma.

Escritoras que se matam me levam à inglesa Virginia Woolf e à brasileira Ana Cristina César, esta uma tradutora de poemas de Sylvia. A Esther Greenwood de A redoma de vidro é inevitavelmente a transfiguração literária da personalidade de Sylvia, que inicia sua história com aquele parágrafo inicial de choque, uma forma de dar na banalidade da vida da protagonista um eletrochoque através de um acontecimento excepcional, um fato jornalístico, jurídico e policial da época. “Era um verão estranho e opressivo aquele em que eletrocutaram os Rosenberg, e eu não sabia o que estava fazendo em Nova York. Não entendo de pena de morte. A idéia de ser eletrocutada me dá náuseas e esse era o único assunto dos jornais –manchetes garrafais me olhavam em cada esquina e em cada sufocante saída de metrô cheirando a amendoim. Aquilo não tinha nada a ver comigo, mas eu não conseguia parar de pensar em como seria ser quiemada viva, até os nervos.”

O processo por que passa Esther, ao longo do livro, de  sanatório em sanatório, de cenário em cenário, topa nesta metáfora dos Rosenberg –queimar-se vivo, sofrer os choques elétricos—um ponto de comunhão preciso. Cada palavra de A redoma de vidro corta a personagem e expele o sangue para o leitor, mesmo que a narradora se valha dum despojamento tipicamente ianque, mas permeada de uma atmosfera que defere este despojar-se daquela classe americana de F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemmmingway. A nervura da poetisa moderna, contemporânea cruza terrivelmente as frases de A redoma de vidro; sua autopersonagem é uma  alucinação só, instintiva e profunda, tão boa quanto aquela, muito diferente, do também americano Henry Miller: as viagens desestruturantes do verbo de Miller não existem em Sylvia, que faz miniaturas locais muito ordenadas e rigorosas, que só se abrem para o abismo de sua demência.

Esta demência (um senso poético de viver a vida e a literatura) vem grudada nas palavras, repletas de sensações e sentidos. “Uma camada de neve fresca cobria os gramados do hospício como um manto branco –não era pouca neve, como a de Natal, mas uma nevasca da altura de um homem, como as que ocorrem em janeiro e durante um dia ou mais transformam escolas, escritórios, igrejas e folhas numa página em branco no lugar das folhas de memorando, agendas e calendários.” Se esta aguda novela (um quase-romance?) começa de forma muito precisa, marcando com um fato o sentido duma época e os trânsitos de sua personagem central, a frase de encerramento é vaga e é vaga e longínqua, pois revela um passo incógnito da personagem quando entra num recinto: “Todos os olhos e os rostos se viraram para mim e, me orientando por eles como através de uma luz mágica, entrei na sala.” Que acontecerá depois? O fim do livro é uma grande elipse narrativa. Talvez nesta elipse Sylvia sentisse a tentação de mostrar certas coisas que ela disse em seus poemas e em sua ficção se esgueiraram pelos cantos: “Vivo ameaçada por este ser escuro // Que dorme em mim; // O dia inteiro sinto seus macios, malignos movimentos.” (Tradução de Ana Cristina César).

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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