A Linguagem Nao-Cotidiana para o Cotidiano Brasileiro

A crise econ?mica em que Raiz Amarga da seus primeiros passos nao impede o romance de aprofundar os caracteres

08/05/2023 13:00 Por Eron Duarte Fagundes
A Linguagem Nao-Cotidiana para o Cotidiano Brasileiro

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A frase que abre a narrativa de Raiz amarga (1960), romance de Maria de Lourdes Teixeira, anuncia o cotidiano familiar: “Aquele Ano-Bom tinha que ser bem aproveitado pela criançada porque era o último dia de praia”. A oração, em sua aparência simples, é o ponto de partida para um texto que, pouco a pouco, mergulha o leitor, hoje desabituado pelo bombardeio de lugares-comuns, numa espécie de linguagem refinada, exigente, criativa e própria, de que há muito a literatura brasileira parece ter perdido as sendas. Maria de Lourdes é uma das mais altas estilistas de nossa língua: como se sabe duma obra-prima como O banco de três lugares (1951). Raiz amarga é mais gorduroso e curvilíneo, mas conserva o instinto ficcional de que a escritora detém o senso.

Raiz amarga está ambientado num meio social onde uma classe burguesa vive da exploração do comércio de café nos primórdios do século XX. E centra a ação dramática inicial num momento historicamente relevante, a crise econômica internacional de 1929, que jogou em dificuldades econômicas muitas famílias abastadas da época, inclusive as que viviam do setor cafeeiro, como as personagens que se multiplicam e encontram ao longo de Raiz amarga. “Em sua residência da avenida Higienópolis, Ribeiro Amaral lia por alto os jornais. Evitava aborrecer-se com a realidade política e econômica do país.” No entanto, os quatro mil olhos da realidade —como um sinistro doutor Mabuse— entra pelos poros de todos, as criaturas do romance, os leitores que possam encantar-se com as sutilezas linguísticas de Maria de Lourdes.

A crise econômica em que Raiz amarga dá seus primeiros passos não impede o romance de aprofundar os caracteres. Raiz amarga não é a história da crise econômica, algo como a peça O rei da vela (1933), de Oswald de Andrade. As questões econômicas formam somente o pano-de-fundo sobre o qual a romancista vai edificar o que mais lhe interessa: a densidade das questões humanas casada com a acuidade de sua linguagem. “Sentia gratidão e ternura por Policena, a companheira solitária e delicada, pronta a arrostar com ele quaisquer dificuldades, sem lamúrias nem recriminações.”

O lento desenvolvimento da narrativa, que segue em parte os passos de um modelo oitentista (talvez um romance russo, com personagens e situações múltiplas que exigem atenção nos detalhes) mas o recria para os meados dos novecentos, vai logo dar no drama central, o desenho da personagem de Isabel, seu casamento não-consumado (sexualmente) com Eugênio, morto prematuramente, e depois, na viuvez, a descoberta do instinto sexual no corpo de um outro homem, que não chegará a ser uma personagem senão acessória ou circunstancial no romance. Entre os complexos (psicanalíticos) da pudicícia inicial duma mulher e o erotismo que irrompe, Maria de Lourdes, uma romancista de sensibilidade exclusiva, parece retratar com raras tintas a figura duma mulher brasileira da primeira metade do século XX, um pouco condicionada por seu tempo histórico, outro tanto vivendo as transições que, assim como a narrativa de Maria de Lourdes, usam a lentidão no tempo para se expressar e amadurecer.

“Esta palavra pensada mas tão brutal como se fosse uma obscenidade ouvida, ou dita, ou gritada, a fez recuar, fechar a janela, esconder-se na escuridão, enrodilhar-se na cama, pensar quase soluçando.” Que palavra? Cópula. Uma questão para as mulheres da época (ou de qualquer época?): como ligar o sexo (o amor físico) ao amor-sentimento (amor do espírito)? Como transformar o vulgar (ou carnal) em transcendente? Maria de Lourdes o faz com seu texto: nada melhor para isto que seu estilo de escrever. “Na voragem do gozo, ouvia-a delirar naquele gargarejo de ainda agora, interrompido por gritos.”

A ambientação cênica de Raiz amarga é utilizada por Maria de Lourdes com aguda beleza em muitos trechos. Estes recursos descritivos naturais são essenciais para a construção de linguagem e narrativa do romance. Transformam muitas vezes Raiz amarga numa espécie de atmosfera literária. Lemos, e os ecos verbais nos perseguem. “O vento vindo do mar obrigou-a a entrar. Deitou-se e adormeceu. Os sonhos vinham fragmentados. Baías e praias. Águas cor de esmeralda ou de índigo. Clemência, de mangas arregaçadas, passava o rolo de madeira na massa de farinha de trigo, até transformá-la numa hóstia descomunal. Joli-Coeur roía sua coleção de ossos e rosnava quando ela se aproximava. O automóvel voava a 80, a 100, a 120 quilômetros por hora, e quase alcançava um caminhão carregado de troncos, com uma bandeirinha vermelha na extremidade de um deles. Ela, Isabel, queria frear o carro, mas o pé não obedecia. ‘Que horror! Que horror! É agora...’ Entremeavam-se outros pesadelos.” Naturalmente, Raiz amarga vai ter, em seu movimento final, em outra contemplação da natureza, que agora substitui ao quase-documental da abertura do romance o lirismo fugidio das metamorfoses operadas em Isabel, desde a infância, no último dia de praia de sua meninice. “Nisto, um estranho pássaro começou a desesperar-se de solidão, gemendo sem parar no fundo do roseiral, sob a fixidez dum céu que parecia a consciência da natureza.” Voamos.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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