O Último Hurrah - Obra Política do Mestre John Ford

Em tempos de eleição, que tal relembrar um filme clássico sobre o tema?

07/10/2014 15:43 Por Paulo Telles
O Último Hurrah - Obra Política do Mestre John Ford

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O Último Hurrah (The Last Hurrah)
EUA, 58. 11 min. Direção: John Ford. Elenco: Spencer Tracy, Jeffrey Hunter, Pat O’ Brien, Basil Rathbone, Dianne Foster, John Carradine, Donald Crisp, Edward Brophy, Frank McHugh, James Gleason, Jane Darwell, Wallace Ford, Carleton Young, Ken Curtis.

John Ford (1895-1973) é considerado por grande parte do público cinéfilo como o mestre dos Westerns e de sua parceria com seu compadre John Wayne (1907-1979), com quem se associou em diversas produções da História da Sétima Arte, como sua trilogia da Cavalaria americana: Sangue de Heróis (Fort Apache, 1948); Legião Invencível (She Wore a Yellow Ribbon, 1949); Rio Bravo (Rio Grande, 1950), e o hiper clássico Rastros de Ódio (The Searchers, 1956), considerado não somente um dos dez maiores westerns de todos os tempos como também um dos 50 filmes mais badalados de acordo com os críticos americanos. Entretanto, este grande mestre da cinematografia mundial não realizou apenas westerns. Ao longo de sua carreira, que se iniciou desde os primórdios quando o cinema ainda era mudo, ele realizou também comédias, épicos, aventuras, e dramas. É sobre um destes dramas que este artigo vai abordar, um drama político (as vezes com pontas de humor) pelo qual considero, de certa forma, superior a Cidadão Kane de Orson Welles, não menosprezando evidentemente este grande alicerce do cinema.

Trata-se de O Último Hurrah (The Last Hurrah), produzido em 1958. O romance, publicado em 1956 e escrito por Edwin O´Connor (1918-1968) é considerado a mais popular das obras de O'Connor, em parte devido a produção do filme homônimo. A novela foi de imediato um best-seller nos Estados Unidos por 20 semanas, e também nas listas de mais vendidos daquele ano. The Last Hurrah ganhou o Prêmio Atlântico, e foi destacado pelo Book-of-the- Month Club e Reader's Digest, além de receber resenhas críticas muito positivas, incluindo um “êxtase” do New York Times Book Review. Não demorou muito para o lendário cineasta Ford, que leu o romance, projetá-lo para as telas. Para isto, a Colúmbia Pictures comprou os direitos do livro. De origem irlandesa e fiel ao espírito dos imigrantes pioneiros, Ford se identificou com a figura do protagonista da trama, tanto que propôs a Colúmbia dirigir este filme mesmo sem receber salário.

A trama centra-se numa eleição para prefeito em uma pequena cidade de Boston, EUA. O veterano político irlandês do Partido Democrata Frank Skeffington, interpretado pelo magistral Spencer Tracy (1900-1967), amigo de Ford, é um dos candidatos a prefeito desta cidade. Como um ex-governador, ele é normalmente chamado pelo título honorífico "Governador". Skeffington é o personagem central de uma astuciosa e refinada crônica sobre os bastidores eleitorais da provinciana Nova Inglaterra. De truculento sangue irlandês, controla a máquina eleitoral â base de golpes baixos de suborno e "caridade". Cercado por fiéis partidários que estão com ele por mais de 30 anos, Skeffington tenta se reeleger em um mundo que anda em transições. Para começar, a televisão que estava dando seus primeiros passos, começa desempenhar um papel maior na política. Os ideais de Skeffingnton, como a igualdade e o auxílio para os menos favorecidos e oprimidos, parecem pensamentos pueris por grande parte da Sociedade Americana. E isto sem contar a idade do personagem central, que de acordo com o romance de O’ Connor tem 72 anos (Tracy quando fez o papel tinha 58, mas parecia bem mais velho), isto é, sua idade seria um empecilho para sua reeleição, sem que a hipocrisia da sociedade visse nele um homem com idealizações e experiências adquiridas.

Entretanto, nosso maduro herói não esta só. Ele conta com a ajuda de um inteligente jornalista que também é seu sobrinho, Adam Caulfield (Jeffrey Hunter, 1925-1969). Caulfield é de um pensamento tão liberal e humanista quanto o tio. Outrora um jornalista esportivo, se dedica ao jornalismo político quando entra em atrito com seu chefe de redação, o corrupto Amos Force (John Carradine, 1906-1988), inimigo declarado de Skeffignton e republicano fanático. Ao visitar seu tio, Adam fica sabendo dos sérios motivos que levam Amos a odiar Skeffignton, quando o pai de Amos, um burguês autoritário, na verdade humilhou publicamente a mãe de Skeffignton, que era sua empregada doméstica, pelo fato dela pegar sobras de comida, acusando-a de ladra. Deste encontro entre tio e sobrinho, nasceria daí um ideal em comum, e Caulfield se dedicaria a ajudar Frank em sua empresa.

Adam é casado com Mave (Dianne Foster), filha de Roger Sugrue (Willis Bouchey, 1907-1977, outro ator proeminente nos filmes de John Ford), que também detesta Skeffignton, e começa a ter diversos atritos com o genro, sem contudo abalar a relação em seu casamento, já que Mave também simpatiza com as idéias de Frank. Frank Skeffignton tem um dom surpreendente. O único político que é verdadeiramente capaz de manipular os poderosos para defender os oprimidos. Ele é o líder indiscutível da cidade, ele controla a cidade com punho de ferro, mas ele sabe que seu show está quase no fim. O dia de compromissos em almoços e comícios políticos está dando lugar à televisão, que quase faz a máquina política do outrora tempo de Frank obsoleta.

Frank Skeffington é o tipo de político que realmente se preocupa com seus eleitores, mesmo que seus métodos sejam um tanto ilícitos. Ele muitas vezes ajuda-os pessoalmente (como na cena de um enterro, em que uma de suas eleitoras não tinha dinheiro para enterrar seu marido, e Frank pressiona o dono da funerária, ligado ao Partido Republicano,a fazer o enterro de graça). Mas há alguns problemas com a regra de Skeffington. Primeiro de tudo, ele muitas vezes muda vários negócios, obrigando mesmo aqueles que trabalham para ele a ter salários reduzidos para ajudar os eleitores. Skeffington e seus aliados, muitas vezes, transformam os funerais em reuniões políticas. Analisemos que Skeffington não é nenhum santo, mas em nome de seus ideais vale quase tudo, mesmo mexer com os alicerces da Igreja Católica.

Durante sua última e tétrica campanha para prefeito, representantes dos meios financeiros da Igreja e da imprensa aliam forças para enfrentar seus métodos, que já lhe valeram várias reeleições.  Apesar de o próprio Skeffignton ser um católico, ele mesmo entra em atrito com a ideologia da Igreja, muito embora o Arcebispo da cidade, Cardeal Burke Martin (Donald Crisp, 1882-1974) simpatize com Frank.Na vida particular, Skeffignton tem problemas de relacionamento com seu filho único, Frank Skeffington Jr (Arthur Walsh, 1923-1995). Este é um imaturo e irresponsável, que só pensa em mulheres e badalações, ignorando por completo as idealizações do pai. Frank surpreende a todos ao anunciar o que ele sempre pretendeu, concorrer para outro mandato para prefeito. O corpo principal do filme dá uma visão detalhada e criteriosa da política urbana, e o controle de Skeffington e de seu sobrinho Adam através de rodadas de aparições nas campanhas e eventos. Kevin McCluskey (Charles B. Fitzsimons,1924-2001), um jovem candidato com um rosto bonito e os “bons costumes norte-americanos”, com uma excelente ficha e registro da II Guerra Mundial, mas sem experiência política e nenhuma habilidade real para a política ou governo, acaba derrotando Skeffington nas eleições.

É Importante aqui analisar uma situação que anda sempre em voga em qualquer eleição ou em qualquer situação política: que não importa sua experiência, suas propostas sérias, ou suas intenções sinceras e idealistas em prol da sociedade, pois esta sempre vai pender para a imagem de um candidato, afinal as aparências e os feitos de um “herói” ou celebridade é o que mais contam, e o que somente contam para uma sociedade falida e hipócrita. Um dos amigos de Adam, John Gorman (Pat O’Brian, 1899-1983) explica que a eleição foi "um último hurrah" para o estilo de máquina política de Skeffington. Mudanças na vida pública americana, incluindo as consequências do New Deal, mudou tanto a face da política norte-americana que Skeffington já não pode sobreviver. Imediatamente após sua derrota, Skeffington sofre um ataque cardíaco. Quando ele morre, ele deixa para trás uma cidade de luto por uma figura crucial na sua história, mas uma cidade que não tem mais espaço para ele ou o seu tipo.

Não obstante a todos os paradoxos do protagonista, Frank Skeffignton é um personagem interessante, que leva o espectador do filme a refletir se seria bom que tal personagem saísse das telas da ficção ou de um livro para transitar na vida real, ou se mesmo seria possível resgatar alguns sonhos e ideais há muito esquecidos. Por falar nisso, o personagem foi de fato baseado em um político real, chamado James Michael Curley (1874-1958), que foi Governador de Massachusetts, e era um político democrata.

John Ford, ele mesmo um irlandês-americano, leu e gostou do livro de O’Connor e resolveu adaptá-lo para o cinema. Muito do sucesso do filme deveu-se ao respeitável e bom desempenho do elenco que incluiu muitos veteranos que geralmente eram amigos do diretor (só Jeffrey Hunter, Dianne Foster, e Arthur Walsh compunham o cast mais jovem), como o próprio Tracy, Pat O´Brien, John Carradine, Wallace Ford, Basil Rathbone (quem diria, o Sherlock Holmes!), Jane Darwell, Anna Lee, e Willis Bouchey. A Columbia Pictures comprou os direitos para fazer este filme de O´Connor por US $ 150.000. E decerto que cada centavo valeu à pena, numa história narrada segundo o estilo do diretor: intimista, lírica, bem humorada, sentimental e generoso, e apresenta Spencer Tracy numa de suas mais memoráveis performances da carreira.

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Sobre o Colunista:

Paulo Telles

Paulo Telles

Paulo Telles é natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1970. Mora na mesma cidade na região boêmia da Lapa. Curte cinema desde a adolescência, e através das matinês da TV, aprendeu a amar a Sétima Arte e os astros e estrelas do passado. Ele é o editor do blog FILMES ANTIGOS CLUB, acessível em: http://www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/, espaço dedicado a matérias relacionadas ao cinema antigo, com biografias e resenhas de alguns filmes. Também é locutor da Escola de Rádio Web. Email: filmesantigosclub@hotmail.com ou paulotellescineradio@r7.com

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